19 de maio de 2014

RAP é LIVRE






















Neste país não se pode nem falar, nem estar calado.
Se fala é porque fala, se cala é porque cala.

Ricardo Araújo Pereira decidiu apoiar publicamente o partido Livre nas eleições europeias, e pronto, grossa fatia do país de esquerda está desiludida.

E a que se deverá tal desilusão?
Talvez todos tivessem esperança que ele fosse “dos nossos” visto que, como se sabe, para a esquerda portuguesa, quem não é por nós, é contra nós. E não se deve rir com o inimigo.

Por mim, vejo “o caso” assim:
- RAP pertence a uma geração pouco engajada com a política, muito desconfiada dos políticos e que encara a abstenção como um modo válido de lhes “falar”.
Se a decisão de se assumir como apoiante de um partido ajudar a aumentar o número de votantes da sua faixa etária, tanto melhor: terá prestado um serviço à nossa comatosa democracia.

- As razões que RAP invoca para votar LIVRE são tão válidas como as que eu invoco para não votar LIVRE. É a democracia, pá!

- O facto de ser uma figura pública muito popular não lhe retira nenhum dos seus direitos cívicos constitucionalmente garantidos.

- RAP é corajoso; podia estar quieto, mas resolveu sair da “sua zona de conforto”, dar o peito às críticas, à inveja, às “desilusões”.

Qual será, então, o problema?
O problema − e como eu lamento dizer estas coisas! −  deve ter que ver com fanatismo e intolerância, doenças que atacam uma esquerda cansada, que não se move um milímetro ano após ano, que parte para cada novo acto eleitoral a ver se perde por poucos.

Ricardo Araújo Pereira, com a sua decisão, veio mostrar que, entre muitas outras qualidades, não só não foi contagiado pelas ditas doenças como até tem uma “saúde” de ferro.
Como de costume, o bem de uns é o mal de outros, e a “saúde” de RAP acaba a provocar dores em muito boa gente. No cotovelo, claro.

14 de maio de 2014

Portugal 2014








 
 
 
 
 
 
 
 
 
Olhei para esta fotografia da campanha eleitoral da coligação PSD/PP e fiz-lhe uma legenda mental: um bando de bêbados em festa.

Se a legenda é abusiva, a imagem é ofensiva – estes políticos em campanha eleitoral assemelham-se irrevogavelmente a um bando de javardos assaz satisfeitos com a sua falta de decoro.

Aqui e agora, sinto-me toureada por porcos.

Definição de javardo segundo o dicionário Priberam online:

ja-var-do
Adjectivo e substantivo masculino
Que ou quem revela falta de asseio. = BADALHOCO, PORCO
Que ou quem é mal-educado, indecoroso. = GROSSEIRO, IMUNDO, NOJENTO, PORCO

12 de maio de 2014

Isso é que era!









 
 
 
 
 
 
 
Sonolenta reflexão numa tarde de domingo:

A minha geração, quando as coisas não corriam bem no país, sentia que tinha o DEVER de as tentar mudar. E tinha.

A geração a seguir à minha, quando as coisas não correm bem no país, sente que tem o DIREITO de se ir embora. E tem.

E então? Moral da história?
Bom, isso não sei; se calhar nem tem.

Também nem sei por que me pus a pensar nestas parvoíces em vez de tentar perceber se a barba do tavesti que ganhou o festival da canção é real ou pintada.

Melhor ainda seria começar a alertar as redes sociais, que ainda não perceberam nada, para o facto de a victória do travesti barbudo ser parte integrante do pacote de sanções da Europa à Rússia.

Isso é que era! Mas afinal acabei por passar pelas brasas.

8 de maio de 2014

Cheiro a bafio












 
 
 
 
 
 
Se o meu pai fosse vivo teria quase 90 anos.
Durante toda a minha meninice, aos domingos, o meu pai pegava no meu irmão e iam os dois ao futebol.
Eu e a minha mãe ficávamos em casa, ou visitávamos a minha avó.
Só me lembro de o meu pai me ter levado ao futebol uma vez − era um jogo de futebol feminino.

Não sei se é o jogo em si que me chateia, ou se o meu inconsciente o rejeita por o associar aos domingos chatos da minha infância; certo é que nunca consigo ver um jogo de futebol inteiro, mesmo que seja da selecção, mesmo que seja de arrancar o coração, e mesmo se sou capaz de reconhecer que um bom jogo de futebol pode ser um espectáculo tão bom com qualquer outro.

O meu pai era, na sua essência, um homem do seu tempo, e no seu tempo as coisas eram assim.

Como se entretanto não tivessem passado algumas vertiginosas décadas da segunda metade do século XX, e mais quase década e meia do século XXI, ontem topei com este texto de José Mourinho, tão mau que até dói. Escreve ele:

 
"Sei que este espaço é para comunicar com os adeptos, mas um de vocês é o meu filho. Quero agradecer-lhe por estar comigo cada segundo de cada jogo, poucos metros atrás de mim, saltando a cada golo, sofrendo com cada momento difícil. Obrigado, miúdo, por seres o meu filho. Sempre que olho para ti, vejo-te, mas também vejo a tua irmã e a tua mãe, ambas em casa a torcer por nós, à espera que cheguemos a casa para sermos o que somos - uma família extraordinária... Como a família azul, apoiando-se uns aos outros"

 
Que cheiro a bafio, credo!

Claro está que a mulher e a filha de Mourinho podem não ter paciência para ver um jogo inteiro, como eu, mas, mesmo que seja esse o caso, o que ele escreve é todo um programa próprio dum homem fora do seu tempo, ao contrário do meu pai.

O que escreveu cheira a passado, à doutrina veiculada pelos textos dos livros de leitura da escola do Estado Novo, aos ensinamentos da Mocidade Portuguesa.

Lido este seu textozito kitsch, e não querendo ser exagerada na adjectivação, fica-me a sensação de que Mourinho, fora do futebol, não passará de um grandessíssimo inconseguimento. 

5 de maio de 2014

Um querido


 
 
 
 
 
 
 
 
 
Lá na minha terra, quando se está meio distraído, diz-se que se “está com um olho no burro e outro no cigano”. É bem possível que isto seja um bocado xenófobo, mas deixo ficar assim mesmo; a imagem é boa para ilustrar o modo como oiço a maior parte dos comentadores políticos hoje em dia – “um olho no burro e outro no cigano”.

Assim estava eu, mais uma vez, no sábado passado, enquanto Marques Mendes perorava na SIC.

De súbito, Mendes desata a elogiar Jerónimo de Sousa com tal convicção que fui levada a pôr, de novo, os dois olhos no burro (maneira de dizer, claro)

É que não é o único a fazê-lo. Todos os comentadores de direita adoram o homem. Que é muito simpático, afável, uma pessoa encantadora, obladi, obladá.

Percebo que por detrás desta” louvaminhice” unânime está uma mal disfarçada complacência dos doutores para com o ex-operário, e também a inabalável certeza de que o PCP dirigido pelo simpático nunca lhes causará incómodo de monta.

Mas, caramba, irrita-me muitíssimo que o líder do partido que representa uma grossa fatia da esquerda portuguesa nunca, nunquinha, seja capaz, por sua vez, de irritar a cambada.

Se não precisa de dar ares de quem coma criancinhas, por mim também dispenso um avô fofinho e consensual no lugar de representante máximo dos comunistas portugueses.

2 de maio de 2014

Quem sabe


 


Porque será que algumas pessoas, usando as redes sociais, decidem, a toda a hora, esfregar na nossa cara os seus mortos e a sua infelicidade?

Terão medo que a gente julgue que não sofrem?
Quererão a nossa piedade?
Terão medo de se encontrarem a sós com eles?
Precisarão ainda que lhes digam que eram lindos?
Precisarão que os outros vejam que tiveram uma vida?
Ou será que não suportam a solidão e o silêncio?

Seja qual for a resposta, é mau, é sempre mau. E falta ali pudor, sinto.
Na vida das gentes, há coisas que nunca deixarão de ser pessoais, intransmissíveis e indivisíveis − a dor da perda é uma delas.

E quem não percebeu isso, talvez ainda tenha percebido pouco.
E ao dizer isto, talvez esteja eu a ser moralista, quem sabe?

30 de abril de 2014

Eu tive um sonho



 
Já o tive de outras vezes e agora voltou, certamente pelo que vou ouvindo nas notícias − eu queria ver os finlandeses na merda.

Lá, teriam que repetir indefinidamente: a Europa é um projecto solidário!

Como julgo que iriam perguntar “o que quer dizer solidário?”, exigiria que dissessem muitas e muitas vezes até aprenderem o significado:

Que tem interesses e responsabilidades mútuas.

Era só isso. Um sonho simples, como se vê.

28 de abril de 2014

Olhe, Miguel, peço desculpa.



Pode a escrita de um homem envelhecer (não amadurecer) com ele?
Pode.

Nas semanas em que leio-não lei, leio-não leio, leio! o Miguel Sousa Tavares, quando acabo a leitura parece que terminei a visita a um lar de idosos.

Em compensação, quando acabo de ler o Pedro Santos Guerreiro, mesmo que não goste da conversa, gostei da esplanada e da revigorando bebida fresca com muito gelo, picos no nariz, palhinha e tudo.

Plagiando-o, Miguel, − “Peço desculpa”.

26 de abril de 2014

A gente saiu à rua











Nestes três últimos miseráveis anos, eu “pecadora” me confesso: tendo deixado as militâncias políticas há muito tempo, foi nas redes sociais que encontrei companhia para enfrentar a infâmia que é esta forma de governar.

Não só com este blogue, que me permite pensar “alto” tudo o que me apetece, mas sobretudo no Facebook, de reacção mais rápida e mais interactivo.

Foi lá que encontrei muitos que não conheço, nem nunca conhecerei, mas que sentem como eu, se preocupam como eu, ou se divertem com o mesmo que eu. Amamos a liberdade e a democracia, e o 25 de Abril é uma data querida que carregamos com desvelo e carinho para onde quer que vamos.

Nestes três anos de insultos e destruição, muitos foram os momentos em que parecia que íamos morrer de tristeza ou inconsequente indignação.
Talvez por isso, e ao contrário, a celebração dos 40 anos do 25 de Abril acontecida ontem, trazia no ar benignos pólenes de primavera e de festa − a rua foi nossa; a alegria e a cumplicidade também.

No Expresso, o jornalista Fernando Madrinha sugeria: “que este 25 de Abril, além de um cravo na lapela, consiga pôr em cada rosto um sorriso. Ainda que nostálgico.”

Houve cravos e sorrisos, sim, mas não eram nostálgicos. Eram simplesmente sorrisos de gente que celebra um dia que é seu, prenhe de memórias e sonhos.

E celebrar é preciso.

No Facebook encontrei comentários e depoimentos lindos e sentidos de “amigos” que estão longe ou longíssimo, de “amigos” que sofreram a prisão na ditadura, de “amigos” que eram ainda crianças em 1974, mas os melhores, os que mais alegria me trouxeram foram escritos por duas jovens mulheres da família, filhas, já, do 25 de Abril.

Escreveram elas:

Hoje é o dia.... 40 anos!
A todos os que contribuíram para que eu pudesse viver, pensar e falar em Liberdade, Muito Obrigada.  E agora também cabe a Nós defendermos esses valores e lutarmos pelos mesmos.

 ......

Obrigada Avô!
Obrigada Pai, Mãe, Avós, Tios e Tias. Pelo 25 de Abril e pelos valores que trago comigo. A vós os devo.
Obrigada aos outros, mais e menos anónimos.
Abril não vai morrer.

Ah! Como é bom saber que o Abril que amamos tem quem tome conta dele no futuro. É que isso, ainda por cima, também quer dizer que alguma coisa acertada fizemos.

Nota: na imagem, celebração na minha terra – Évora – que há muitos anos parecia uma bela adormecida.

24 de abril de 2014

Ontem, hoje e amanhã













 
 
 
 
Ontem à tarde, na Fundação Gulbenkian, terminava a conferência de dois dias sob o tema “A Ditadura Portuguesa, porque durou, porque acabou”.

O painel de oradores era variado, terminando com os três ex-presidentes.

Fui. E as minhas expectativas não saíram defraudadas porque houve excelentes intervenções embora, por vezes, os oradores se tenham repetido uns aos outros, o que até não se estranha dadas as balizas impostas pelo tema.

Porém, pelas sete da tarde lamentei não ter feito um estágio em Cuba ouvindo os discursos do Fidel. É que, a essa hora, eu já “papara” quatro horas e meia de discursos (não houve nunca diálogo com a plateia) e onze oradores. E ainda faltavam Mário Soares e Jorge Sampaio.

Tenho a certeza que foi nesse o exacto momento que corpo e mente, em uníssono, disseram: chega, vai-te embora! E fui, deixando lá, com pena, dois presidentes por ouvir.

Entre a assistência estavam muitas caras conhecidas, mas uma havia que queria ser vista por todos. Uma jornalista recentemente premiada como escritora, e muito aplaudida pelo seu discurso de aceitação do prémio (inclusive por mim), abria a plumagem, exibia sorriso de diva em estado de beatitude e não dava conta dos cabelos − para cá, para lá, numa dança de sedução feminina tão velha como o tempo.

Decerto toda a gente a viu, até porque, pela sua idade, destoava um pouco da restante plateia.

A foto ali de cima mostra as cabeças que eu podia observar do meu lugar e, ao vê-las, obrigatoriamente nos comparei àqueles grupos de velhinhos que faziam romagens ao cemitério a cada 5 de Outubro, e de quem ríamos com juvenil desdém.

Está em formação acelerada a brigada do reumático que comemorará o 25 de Abril até ao fim. Integro-a com gosto e, por isso, amanhã lá irei ao Largo do Carmo ouvir o Vasco Lourenço ou outro qualquer.
É que, para mim, falar em Capitães de Abril ou MFA ainda me dá frisson.
Ontem, como hoje, ou amanhã.

Bom 25 de Abril. Sempre!

23 de abril de 2014

À espera



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cavaco disse em Oliveira de Azeméis que “são as empresas e não as intrigas, as agressividades, as crispações, os insultos entre agentes políticos, que promovem o crescimento económico, a criação de emprego e a conquista de novos mercados.”

Sério, Aníbal? Quem diria!

A converseta é tão básica que raia o absurdo; por isso li, reli para ver se lia bem, e de todas as vezes só me lembrava dos discursos de Américo Thomaz. Recordo:

É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive”, ou “Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei”.

Percebi, então, que também o que sentia por Américo Thomaz nos anos 1960 e 1970 era exactamente o mesmo que sinto por Cavaco Silva em 2014 – asco.

A boa “notícia” é que estou calminha e já não desespero, só espero.
Espero que parta, que se retire para a Coelha ou, preferencialmente, para o raio que o parta.

17 de abril de 2014

Duas notícias de ontem











1 - “O tribunal decretou nesta quarta-feira a libertação de Domingos Duarte Lima.
Duarte Lima está acusado de três crimes de burla qualificada, dois crimes de branqueamento de capitais e um crime de abuso de confiança na forma agravada. Esteve em prisão preventiva até Maio de 2012, altura em que foi alterado o regime para obrigação de permanência na habitação com pulseira electrónica.” (Público)

2 - “Dois surfistas e a mãe de Tiago Campos, uma das vítimas, (do caso da praia do Meco) contrariaram ordens da Polícia Marítima e lançaram coroa de flores ao mar. Todos foram identificados pela polícia.” (DN)

Prevejo que, em breve, Duarte Lima estará completamente ilibado de todos os crimes, mas que a mãe de Tiago Campos possa, talvez, vir a ser acusada do crime de tristeza.
É que os desígnios da Justiça portuguesa, sendo insondáveis, geralmente deixam-nos estupefactos. Frequentemente também metem nojo.

Boa Páscoa.

16 de abril de 2014

Palavras - Atonia

















Atonia – subst., fem. – fraqueza, debilidade geral, inércia.
Dicionário Priberam online

Apetece mandar um grito: conversem, po##@!

15 de abril de 2014

Deve ser nostalgia



 
Deve ser nostalgia o que me ataca.

O ar, por estes dias, anda saturado de fotografias a preto e branco cheias de gente hirsuta de camisa estreita, com gola alta ou colarinho bicudo, saias curtas ou calças boca-de-sino.

Há-as também com soldados-meninos carregando metralhadoras e sorrisos, ruralidades cândidas e assombradas, dentes podres ou ausentes, que carne para canhão não precisava de tratamento dentário nem era suposto aparecer na fotografia

Deve ser nostalgia, suponho.

Dos dias alucinantes e alucinados, de nunca estar ninguém em casa, da ingenuidade, do rádio-prótese auditiva 24 horas por dia, do boato, do golpe, do pseudo-golpe,  do contra-golpe, das conquistas, das batalhas verbais, dos megafones, do canto-livre, dos plenários, assembleias, comissões e discussões, dos incontáveis caminhos do Alentejo, dos ganhos e perdas, emoções e desilusões, amores e desamores, dos amigos e dos reaças, dos fuzas,  dos páras e dos capitães.

Deve ser nostalgia, sim.
E a culpa é das fotografias.

Foto: Alfredo Cunha

11 de abril de 2014

Humor (muito) negro à sexta-feira











 
 
 
 
 
Ainda mais más notícias para os pobres: segundo a agência de notação Fitch talvez deixe de se encontrar dívida portuguesa no lixo.

Boa notícia, mesmo, era que a Fitch e companhia fossem morrer longe, mas essa não saiu nas notícias.

10 de abril de 2014

Resultados eleitorais do Livre


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Depois de aqui ter perguntado pelo resultado das primárias do Livre, depois de alguns me terem explicado que se saberiam apenas no dia 9 devido ao tempo para votação por correspondência, depois de outros se terem “picado” e anonimamente terem roçado o insulto, é justo que aqui deixe o link para a página do Livre que apresenta os resultados da votação e a ordenação dos candidatos na lista.

Quero apenas acrescentar que mantenho tudo o que disse, desejar felicidades ao Rui Tavares na peleja eleitoral que se avizinha e arriscar um vaticínio − Rui Tavares não será eleito.
A minha grande curiosidade reside agora no pós-isso.

9 de abril de 2014

Quer factura com número de contribuinte?









 
 
 
 
 
 
Hoje em dia, nem que eu compre só um parafuso e uma porca, sempre me perguntam se quero factura com número de contribuinte.

A cena é tão caricata quanto absurda, mas ilustra suficientemente os nossos dias para que não nos esqueçamos, nem por uma comprinha, que temos um governo que inventou, só para nós, a economia da tômbola (temos pena, mas não chega para ser de casino).

A invenção é simples: a gente pede todas as facturas, policiamo-nos uns aos outros, e o governo sorteia um carro para nós como dantes faziam os Inválidos do Comércio ou os Bombeiros de Santa Comba quando precisavam de fundos.

Indignidade é a palavra que me ocorre.
A grande indignidade na forma de governar.

A boa notícia é que o inverso, ou seja, a dignidade, ainda vive por cá e encontrou respaldo nas palavras de Alexandra Lucas Coelho aquando da aceitação do prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

Vale a pena ler um discurso que vai directo ao assunto, é frontal nas críticas e manda às malvas o respeitinho salazarento.

"O meu país não é deste Presidente nem deste Governo", disse, e parece que o Secretário de Estado da Cultura não gostou. Tanto pior para ele.

Não creio que o premiado romance − E a Noite Roda − mereça o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (aliás, nisso, estou muito bem acompanhada pela própria autora) mas, só para ler o seu desassombrado discurso até perdoo os estranhos equívocos da APE.

8 de abril de 2014

“O Peso do Paraíso”


 


Já aqui tinha feito um breve comentário às esculturas de Rui Chafes que estão no jardim da Fundação Gulbenkian, e não estava entusiasmada.

Agora, fui ver a exposição no interior do CAM.

Aquela enorme nave central, ainda por cima cheia de ruído arquitectónico, não facilita o trabalho de nenhum artista.

Nela, Rui Chafes dispôs as suas peças como pôde, sem recorrer a qualquer divisória do espaço, apostando em que cada uma delas falasse e valesse por si.

Como sempre, de tudo o que vemos, gostamos de modo desigual.

Há peças que nos encantam outras que nos assustam, umas que traríamos para casa de boa vontade e outras que nos desconfortam mas, creio, não há lugar para a indiferença do visitante.

Muito física e perturbadora, mas no bom sentido, esta é uma exposição que, afinal, gostei de ver.

Nota 1: imagem Gulbenkian

Nota 2: igualmente perturbador foi verificar que uma iniciativa dos serviços educativos da Gulbenkian que estava a decorrer tinha a participação de cerca de uma dúzia de crianças, mas todas raparigas. Não me contive e falei nisso a uma animadora do grupo. Disse-me que foi um acaso, porque geralmente a distribuição meninos/meninas é mais equitativa.
E eu saí mais animada. Ou menos perturbada.

 
 
 
 
 
 

7 de abril de 2014

Alguém sabe do Livre?



Desde ontem às sete da tarde que procuro notícias sobre a votação nas primárias do Livre.

Estive lá na sábado, na livraria Pó dos Livros. Aquilo foi fraquito, mas também admiti, para mim própria, que foi o possível.

Até às onze horas da manhã de hoje não encontrei nada sobre a votação de ontem, nem nos jornais, nem na página oficial do Livre, cuja última postagem data do dia 5, nem na sua página no Facebook, onde a última postagem tem já 15 horas.

Que os meios de comunicação social não noticiassem, já era mau; era sinal de que a mensagem não passava, mas que o próprio partido tenha emudecido parece-me gravíssimo.

Aquilo, por acaso, era um grupo de amigos que se serviu duma data de gente para fazer um partido para o Rui Tavares ser candidato às europeias?

Não acredito; havia, certamente, muita gente empenhada em fazer alguma coisa de novo na política portuguesa, mas hoje, a esta hora, é o que, realmente, parece.

Estou danada, sim, estou. Não que me tenha empenhado seriamente no projecto, mas, mesmo assim, não gosto de me sentir usada.
Pode não ser o caso, dou ainda o benefício da dúvida, mas, como se sabe, à mulher de César não basta ser séria, deve parecê-lo também.

4 de abril de 2014

Viajando no sofá





Assim que se chega ao Saara, seja pela primeira ou pela décima vez, atenta-se na imobilidade. Um silêncio incrível, absoluto, prevalece fora das povoações; e dentro destas, mesmo em locais de azáfama, como os mercados, há nos ares uma qualidade de silencioso recato, como se a pacatez fosse uma força consciente que, ressentindo-se da intrusão do som, minimizasse e dispersasse o som de imediato.

Seguidamente há o céu, comparado com o qual todos os outros céus parecem esforços de corações débeis. Sólido e luminoso, ele é sempre o ponto focal da paisagem.

Ao crepúsculo, a sombra precisa, encurvada, da Terra ergue-se para ele rapidamente no horizonte, dividindo-o em secção luminosa e secção escura.

Quando toda a luz do dia já desapareceu e o espaço está pejado de estrelas, ele continua a ser dum azul intenso e ardoroso, mais escuro directamente por cima e empalidecendo em relação à Terra, pelo que a noite realmente nunca se torna escura.

Deixa-se o portão do forte ou da povoação para trás, passa-se pelos camelos deitados cá fora, sobe-se ao alto das dunas, ou sai-se para a planície dura e pedregosa e fica-se algum tempo em pé, a sós.

Daí a pouco, ou se estremece e se regressa a correr para dentro das muralhas, ou se continua ali em pé e se permite que nos aconteça algo de muito peculiar, algo que toda a gente que aqui vive já sofreu, e ao qual os franceses chamam le baptême de la solitude.  É uma sensação única, e nada tem a ver com a solidão, pois a solidão pressupõe memória. Aqui, nesta paisagem inteiramente mineral iluminada por estrelas que parecem clarões, até a memória desaparece; nada resta a não ser a nossa própria respiração e o som do bater do nosso coração. Um estranho, e indubitavelmente agradável, processo de reintegração começa dentro de nós, e temos a opção de lutar contra ele, e de insistir em permanecer a pessoa que sempre fomos, ou de o deixar seguir o seu curso. Pois ninguém que haja ficado no Saara durante algum tempo é exactamente o mesmo que quando ali chegou.

 
Paul Bowles
“Baptismo de Solidão” em Viagens
Quetzal Editores, 2013

3 de abril de 2014

Bateu com a cabeça


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Não, não e não. Apesar do assunto destes dias ser, de novo, a Jonet, eu recuso-me a falar da criatura.

Acho de mau gosto andar a atacar alguém que é doente.

Digo isto porque acredito piamente que, algures durante a sua vida, a senhora bateu com a cabeça e fez uma daquelas lesões cerebrais em que o doente perde o filtro social e diz tudo o que lhe vem à cabeça.

Por exemplo, imagine-se alguém que vai ao Banco Alimentar buscar o que lhe faz falta, chega lá e diz:
- Venho buscar o cabaz, mas antes quero dizer-lhe, D. Isabel, que a senhora é feia, má e cheira mal dos sovacos. Agora dê-me lá o cabaz que tenho mais que fazer.

Ora, uma coisa assim é muito desagradável, mas teria que se desculpar e pensar: é a doença.
Pois é exactamente isso que eu penso da D. Isabel Jonet – que é doente.

E por isso disse, e reafirmo: não falo dela, mas enquanto não a internarem para tratamento fugirei dela, e de tudo o que a rodeia, a sete pés. 

Até amanhã, com novos e estimulantes assuntos no menu nacional.

Notícia aqui

 

1 de abril de 2014

O livro, a leitura, os escravos de ontem e de hoje












 
 
 
 
 
 
 
Uma criança pergunta ao seu avô:
- Porque começas todas as histórias por “era uma vez”?
- Para ter a certeza – disse o avô – de não me enganar nas datas.
(Recolhido por Jean-Claude Carrière)

 
1. Era uma vez, pois bem.

Em alguns países, em tempos não muito antigos, entre os castigos mais violentos estava este: quando algum escravo era apanhado a aprender a ler, era chicoteado dezenas de vezes. Um castigo muitíssimo severo. Ler era mais grave do que roubar.

Começar a ler era como começar a preparara a fuga. Começar a preparar a vontade de fuga, a necessidade de fuga. Eis o mais perigoso. Aprender a ler era como treinar os músculos da perna da fuga ou como treinar a disparar a arma que ameaçará o dono.

Eis, pois, o perigo – o livro. Objecto que era sempre colocado longe dos escravos (como se fosse uma arma, precisamente).

Aprender a ler era para levar a sério, era uma forma de contestação. Não era uma atividade de crianças. Era uma atividade que anunciava um homem forte.
Era, pois, para começar, uma possível definição de livro: um objecto que tem a potência de libertar da escravidão.

Gonçalo M. Tavares
Catálogo da exposição “Tarefas Infinitas”, FCG, 1012

 
Notícia dos modernos escravos que não quiseram aprender a ler:

"Em Marselha, Stéphane Ravier da Frente Nacional, foi eleito com votos de magrebinos, a população desprezada pela Frente Nacional."
Público, 31 Março 2014

 
Imagem: peça de Fernanda Fragateiro (1962), Estante e colecção de livros de autores que se suicidaram, 2000, exposta na mesma exposição “Tarefas Infinitas”, FCG, 1012