
Deve ser
nostalgia o que me ataca.
O ar, por
estes dias, anda saturado de fotografias a preto e branco cheias de gente
hirsuta de camisa estreita, com gola alta ou colarinho bicudo, saias curtas ou
calças boca-de-sino.
Há-as também
com soldados-meninos carregando metralhadoras e sorrisos, ruralidades cândidas
e assombradas, dentes podres ou ausentes, que carne para canhão não precisava
de tratamento dentário nem era suposto aparecer na fotografia
Deve ser nostalgia,
suponho.
Dos dias
alucinantes e alucinados, de nunca estar ninguém em casa, da ingenuidade, do
rádio-prótese auditiva 24 horas por dia, do boato, do golpe, do pseudo-golpe, do contra-golpe, das conquistas, das batalhas
verbais, dos megafones, do canto-livre, dos plenários, assembleias, comissões e
discussões, dos incontáveis caminhos do Alentejo, dos ganhos e perdas, emoções
e desilusões, amores e desamores, dos amigos e dos reaças, dos fuzas, dos páras e dos capitães.
Deve ser
nostalgia, sim.
E a culpa é
das fotografias.Foto: Alfredo Cunha
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