7 de maio de 2013

Mike










 
 
 
Michael Biberstein morreu no domingo, vítima dum súbito AVC.
Tinha 64 anos.

Pintor suíço radicado em Portugal desde os anos 1970, mas realizando exposições pelo mundo inteiro, as palavras mais associadas à sua pintura são “paisagem”, “romantismo”, “sublime”.

Quem leu este meu post talvez tenha percebido que ele era um artista que eu muito admirava. Porém, o homem simples que também era conquistou a minha simpatia logo à primeira vista, em 2004, ano em que, para grande surpresa minha, acedeu a fazer uma exposição em Évora.

No primeiro telefonema que me fez, disse:
- Está, Maria, daqui Mike.
Percebendo o meu silêncio, próprio de quem acha que há ali um engano, ele acrescenta rápido – Biberstein. A partir de aí foi assim que nos tuteámos.

Para a exposição, primeiro entrou um homem com um enorme tapete vermelho que esticou no chão. Dias depois, entrou o Mike com uma pedra e umas tintas que, depois de preparadas, deitou sobre a pedra, e foi embora.
 
 
 











De seguida, chegou Manuel Mesquita, com a instalação sonora que tinha preparado para acompanhar a exposição, e fez o seu trabalho.
E assim ficámos por vários dias.

Mike tinha algumas ideias vagas sobre o que queria fazer mais. Nada muito concreto ainda, ou arrumado na cabeça, mas eu percebia que estava à procura, que o seu cérebro estava em permanente laboração para aquela exposição.
Contudo, dali não saiu mais nada até ao dia da inauguração da mesma, quando Mike apareceu, depois de almoço, com papéis brancos, telas pretas e algumas aguarelas. Pegou no martelo, colocou tudo em cinco minutos, e foi embora até à hora marcada para a inauguração.

Eu olhava e só pensava: “olha que coisa mais linda”.
 
 
No final da exposição, Mike perguntou-me se gostava das aguarelas, e perante o meu entusiasmo com elas disse: escolhe uma, Maria, que te quero oferecer. Pouco habituada a generosidades destas, perguntei porquê ao que ele respondeu que eu o tinha deixado fazer tudo o que queria, no tempo em que quis, aguentando firme, e por isso merecia.
 
As aguarelas tinham um preço de venda ao público quase pornográfico, mas era o preço de mercado de Michael Biberstein. Eu escolhi, claro; ela está e estará comigo como recordação viva dum dos raros encontros inesquecíveis que acontecem nas nossas vidas.

Mike partiu no domingo, muito cedo. Demasiado cedo.
Talvez por isso, para além do que acabo de contar, lembrei-me ainda do título que ele escolheu para esta exposição.
A partir da célebre afirmação de Einstein sobre as leis da física – “God doesn’t  throw dice” (Deus não joga aos dados), Michael resolveu perguntar: “…so what about marbles, Albert, did he play with those?” (…e berlindes, Albert, ele jogou com eles?”).

A pergunta continua pertinente, mas talvez Mike já tenha a resposta.
Oxalá.


6 de maio de 2013

Siga o baile

No fim-de-smana:
Um jovem de 24 anos morre no Porto durante um assalto aos dinheiros da Queima das Fitas.
Atirar a matar por um punhado de euros.

A academia, estarrecida, disse “pára o baile”?
Não, a academia não se estarreceu e disse “siga o baile”.

Marques Mendes, comentador político e conselheiro de estado nas horas vagas, em directo na TV, calça os seus sapatos altos da torpeza e anuncia, em primeiríssima mão, um próximo Conselho de Estado que o gajo que sustentamos lá em Belém parece que vai convocar.

Haverá nestes factos alguma coisa de anormal?
Para mim, tudo. Para os responsáveis, nada.

Oiço, vejo, e uma estranheza se me instalada como se eu já não fosse daqui.
Depois percebo: pertenço à praga grisalha que não só não se despacha a morrer como, ainda por cima, insiste na burrice de não querer perceber que a vida muda, ora essa, e tudo é relativo, pois claro.


3 de maio de 2013

Dos dias que passam

Todos os dias, numa ou noutra rua, encontro uma mudança.

Os funcionários nunca estão a tirar os móveis do carro para a casa. É sempre precisamente no sentido inverso que trabalham – da casa para o carro.
Parece que sempre alguém está de partida.

As plantas, nos seus vasos, trazidas aos solavancos pela mão forte e desprovida de afectos dum funcionário, perdendo terra e tremelicando a sua fragilidade, quase sempre encontram lugar entre um sofá deitado e um colchão de pé. E eu sempre temo por elas.

Porém, o que mais me aflige é que nunca reconheço o dono dos móveis, alguém que se preocupe e cuide da comodidade e arrumação das suas coisas, alguém que se inquiete com a posição do sofá ou com o lugar que destinaram ao colchão, alguém que salve as plantas, alguém que tenha com aqueles objectos uma clara relação de cumplicidade e posse.

E é precisamente nessa ausência que eles, os objectos, perdem toda uma dignidade que lhes advinha de terem enquadrado uma vida, de terem sido pertença, quando não amor, de alguém.

Dentro duma camioneta de mudanças, como fora dela, pode sentir-se o abandono e a vulnerabilidade próprios dum fim de linha, ou de época, ou de vida.

 

2 de maio de 2013

Guantánamo

Várias vezes me tinha já interrogado sobre a continuação da prisão de Guantánamo.

Se Obama tinha o seu encerramento como bandeira logo na primeira eleição (2008) e se passados mais de quatro anos tudo estava na mesma, Obama mentira.

Certamente cruzei-me com esta informação várias vezes sem lhe prestar atenção. Até hoje.
E com ela mais uma vez se prova que, afinal, o “homem mais poderoso do mundo” não tem tanto poder assim.

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Notícia do Expresso online de ontem

O Presidente dos EUA está preocupado com a greve de fome dos detidos de Guantánamo, em Cuba, e voltou hoje a insistir que a prisão deve ser encerrada.

"Não é uma surpresa que tenhamos problemas em Guantánamo, por isso é que quero encerrar o centro prisional. Como é óbvio estamos preocupados com esta greve de fome e não queremos que os prisioneiros morram", disse Barack Obama, durante uma conferência de imprensa em direto da Casa Branca.

Metade dos detidos de Guantánamo está, desde fevereiro, em greve de fome, sendo que um em cada dez prisioneiros está a ser alimentado à força.

"A prisão de Guantánamo não é necessária para manter a América segura, é cara, fragiliza-nos a nível internacional e é um centro de recruta para extremistas", frisou Obama que desde o primeiro mandato tenta encerrar aquele centro prisional.

Logo após a sua eleição, em janeiro de 2009, o Presidente assinou um decreto para que a prisão fosse encerrada, contudo, o Congresso tem votado leis e resoluções que não permitem que os presos sejam libertados.

"A ideia de mantermos para sempre detido um grupo de indivíduos sem ser julgado é contrária àquilo em que acreditamos e ao que somos", sublinhou.

 

 

1 de maio de 2013

1º Maio












 
Viver e morrer por 40 dólares/mês

"O colapso do edifício foi o último de uma série de acidentes em fábricas de roupas de Bangladesh", ressalta Brad Adams, da ONG Human Rights Watch. "O governo, donos de fábricas e a indústria internacional de vestuário pagam os trabalhadores em Bangladesh com salários que estão entre os mais baixos do mundo. Mas não têm a decência de criar condições seguras de trabalho para aqueles que costuram as roupas de pessoas de todo o mundo". (daqui)



30 de abril de 2013

Mandela já cá não está

Foi o que senti ontem. Que Mandela já cá não está.

Mas também senti náusea pelo aproveitamento, por parte de políticos que não valem o ar que respiram, da imagem alheada dum Mandela velho e fraco, quando todos queremos guardar nele a memória dum herói, talvez o nosso último herói.

De Mandela todos se lembrarão sempre, mas…como é mesmo o nome daquele ser abjecto e contente de si que se sentava ontem ao seu lado e que dizem que é presidente da África do Sul?

29 de abril de 2013

No reino dos seres perigosos


Numa surpreendente exposição na Culturgest Rui Toscano brinda-nos com esculturas para ouvir.





Ípsilon, Público de 26 Abril 2013
“ de há algum tempo que a humanidade é um programa em aberto”.
Amos Oz.

 
Atual, Expresso de 27 Abril 2013 (entrevista)
- Os ministros do seu livro são sobretudo incompetentes…
- E o mais difícil é saber como agir face a essa ignorância ministerial. O que se faz perante a estupidez? Talvez a esperança esteja apenas naquilo que cada um de nós pode fazer.
John Le Carré

Fim-de-semana com artistas e escritores. Gente que pensa. Gente que subverte. Gente perigosa. Gosto.

26 de abril de 2013

Olha eu a querer fazer uma Redacção da Guidinha



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ainda pensei deixar esta narrativa do meu 25 de Abril para a próxima segunda-feira, seguindo o exemplo do Tozé Seguro que agora nunca fala a quente sobre as intervenções quentes dos outros e dá um intervalo de uns dias como sempre me disseram que devia ser – filha não fales a quente que depois arrependes-te mas o certo é que nunca consegui seguir esse ensinamento deitando tudo para fora na hora e além disso deu-me vontade de imitar uma daquelas peças de resistência que o Sttau Monteiro fazia no defunto Diário de Lisboa nos tempos da ditadura chamadas Redacção da Guidinha coisa que não era nada fácil de fazer porque não tinham pontos nem vírgulas mas eu vou tentar começando por dizer que gostei de ouvir as três primeiras meninas na Assembleia da República porque a Heloísa não gritou muito ontem a Catarina não gritou nada porque é actriz e sabe colocar a voz e bem podia dar umas lições à camaradinha do PC que manda umas fífias mas se calhar está só a mudar a voz e depois já não ouvi os partidos”do arco da governação” que sempre têm a mania de falar quando eu já vou tomar café por isso quando voltei já estava a falar um gajo horroroso que diz que é nosso Presidente mas deve estar totó porque um gajo tão asqueroso e desprovido de tudo nem da colectividade do bairro  pode ser presidente mas dizia umas coisas que de tal modo excitavam os tais do arco da actual governação que ainda pensei ver ali uma sessão de moche que não sei se é assim que se diz e escreve mas vocês entendem e me deixou assim um bocado a pensar que não sei se resista se desista mas chegou a família e disse bora lá a resistir bora prá avenida e fomos e estava festivo e colorido embora neste desfile do 25 de Abril eu me sinta sempre a desfilar numa escola de samba com mais público nas bordas da avenida do que a desfilar mas onde o povo também grita e ri e veste cores garridas e manda bocas e eu gosto mas ontem os plátanos estavam bravios e  arranharam-me a garganta e os olhos mas isso não o foi o pior que aconteceu porque o pior mesmo foi quando uma traiçoeira depressão no empedrado dos Restauradores que estava ali só para me aborrecer me levou ao chão estendidinha como uma lagartixa e vieram logo muitos companheiros perguntar se eu estava bem e eu estava bem e espantada porque a minha nora Catarina conseguiu não se rir quando viu a sogra estatelada que é a coisa que mais vontade de rir dá e se fosse eu não conseguia mas lá sacudi a poeira e à noite ainda queria ouvir o chefe da oposição Pacheco Pereira lá na Quadratura do Círculo mas já não consegui e apaguei cedinho atacada por gajos que deliram e se acham Presidentes pólenes e buracos no empedrado mas acordei fresca e aqui estou a contar garantindo que isto de querer brincar com o português como o Sttau Monteiro fazia não é nada fácil mas é a minha forma de homenagear aqueles que resistiram em muito piores circunstâncias do que aquelas em que nós teremos que resistir e é com satisfação que me despeço porque para o ano há mais.
Guidinha (com perdão do Sttau Monteiro).
 
PS: resolvi pôr a letra assim grande porque se não nem eu alguma vez teria paciência para ler o que escrevi.



25 de abril de 2013

25 de Abril


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aquele dia começou cinzento, mas fomo-lo colorindo.
Depois, sem razão, desaprendemos o uso da cor.

Dias a preto e branco, nunca mais!

BOM DIA, DIA!


24 de abril de 2013

Eu gostava que eles fossem














Eu gostava que eles fossem, os militares do 25 de Abril, que fossem ao Parlamento amanhã, com as suas fardas de gala, com o seu cravo vermelho ao peito, com dignidade, orgulho e brio.

Olhar para eles iria fazer-me bem.

Vê-los na casa da democracia e da liberdade, naquela NOSSA casa, seria reconfortante.
Sim, eu gostava que eles fossem.

Mariquices …

23 de abril de 2013

Mais uma boca da alemã


“Merkel diz que países do euro devem estar preparados para ceder soberania”

Público


Não sei de que é que ela estava falando, nem percebo a agitação provocada por mais uma boca da alemã, mas isso também pouco me interessa, porque para esse “peditório”, o de ceder soberania, nós já demos tudo.

Não temos nenhuma, estamos de calças na mão; ela, se quer cedências de soberania, agora vai ter de procurar noutra colónia.

A mim, o que me pode interessar é exactamente o contrário − reaver alguma soberania, porque me sinto num clube de ricos onde não posso jantar.
Entrego o cartão de sócia com a maior das boas vontades, e volto para a lusa tasca onde ao menos posso escolher entre jantar pipis, caracóis ou jaquinzinhos.

E a alemã que continue a jantar soberanias, a ver se eu me importo com a prisão de ventre dela. Pfff.

Nota: na imagem ali de cima, retirada do Público, aparecia a Merkel, mas cortei-a porque me desfeava o blogue.

22 de abril de 2013

Contra os artistas intelectuais, viva a Joana e mais o Zé Luís

Na sua crónica no Ípsilon de 19 de Abril 2013, António Guerreiro pergunta no título, e a propósito de José Luís Peixoto, O que é um escritor?

Não há link para este texto, mas a blogger Joana Lopes deu-se ao trabalho de o transcrever aqui e vale a pena ler.

Tudo o que o autor escreve sobre José Luís Peixoto, entendo eu que é    aplicável à escultora Joana Vasconcelos.

Resumindo algumas ideias expostas por António Guerreiro, pode dizer-se que dantes o reconhecimento do escritor (ou artista) fazia-se dentro da instituição literária (ou artística), isto é, o critério primeiro da consagração era o reconhecimento do escritor (ou artista) pelos seus pares.

Hoje, pelo contrário, a consagração destes artistas “faz-se na rua, na esfera pública mediática”, e “o monopólio da autoridade para dizer quem é escritor (ou artista, acrescento eu) e quem não é, já não está do lado daquilo a que se chamou instituição literária, com as suas diversas instâncias; está do lado de quem vende…”

Apesar de entender esta assinalável alteração de paradigma, pessoalmente acredito que para a história das artes ficarão apenas aqueles que forem “reconhecidos pelos seus pares”, e que o mercado (que, para funcionar bem, precisa de contar e anunciar quantas camionetas de gente o senhor Covões consegue levar a Queluz para ver a exposição de Joana Vasconcelos, ou quantas revistas Visão se vão vender enquanto o Peixoto estraçalha os Lusíadas) é apenas isso – o mercado, que nada tem que ver com literatura ou arte.

É nisso que acredito, mas também entendo as mudanças e o ar do tempo.

Só não entendo por que razão algumas pessoas se encarniçam tanto a adjectivar de cagança intelectual, ressabiados, “bem pensantes”, invejosos, ciumentos, elitistas, presunçosos, vaidosos, manientos da superioridade do gosto etc., aqueles que se limitam a achar que lá por o grande público amar apaixonadamente Peixotos e Vasconcelos − direito que obviamente lhe assiste, ora essa − o que eles fazem não deixa de ser uma merda.

Que será que tanto incomoda essas pessoas?

 

 

18 de abril de 2013

Pode ser-se intelectual e parolo? Pode!

Dantes, os portugueses tinham imenso medo dos juízos morais dos vizinhos.

Agora, que ninguém conhece os vizinhos, passámos a ter imenso medo dos juízos dos de “lá fora”.

É muito triste ver esse medo a vergar a espinha daqueles que deviam ser exemplo de espírito independente: os intelectuais.

Atentemos no que escreveu Vasco Graça Moura a propósito de declarações (infelizes) de Mário Soares e choremos, irmãos.

“Em plena democracia, um ex-presidente da República de Portugal não pode dizer coisas dessas. Já se imaginou como isso turvará o seu prestígio dentro e fora do país? E tratando-se de quem se trata, como nos atinge a todos? Não faltará quem se pergunte por essa Europa fora (e, claro, entre as instituições mandantes da troika e dos credores), que raio de democracia é a portuguesa, cujo primeiro ex-presidente socialista profere tais enormidades?”

Submissão e parolice de meter dó.
Infelizmente não é o único intelectual que ainda por aí com o nariz quase a bater no chão. .


17 de abril de 2013

Um amor feliz


Há dez anos que os observo.
 
Ontem pararam lado a lado no semáforo. De trás e de cima, vejo duas motoretas citadinas, dois capacetes, duas mochilas nas costas.
 
Primeiro olham-se, depois inclinam-se e beijam-se, endireitam-se, conferem a cor do semáforo, e cada um estende uma mão para segurar a do outro.
 
Ao sinal verde arrancam lentamente, ainda lado a lado, pela avenida que há poucos dias explodiu de verde, atravessando a luz dourada do poente que cheira, por fim, a primavera.
 
Há dez anos que observo os grandes e pequenos sinais dum amor feliz.
Há dez anos que os observo − desde que chegaram a casa.


15 de abril de 2013

D. Manuela, faça um blogue


D. Manuela Ferreira Leite, faça um blogue.
A senhora precisa de o fazer rapidamente para ficar em pé de igualdade com o José Pacheco Pereira que há muito se assumiu como o verdadeiro líder da oposição através da Quadratura do Círculo e do seu blogue Abrupto.

Dispondo agora a senhora também de um espaço televisivo só seu em que, basicamente, “desfaz” o governo, os portugueses passaram a ter mais uma liderança bicéfala na oposição – já tínhamos o Bloco de Esquerda e agora temos a dupla Manuela/Pacheco.

Nos dias a seguir às vossas aparições, é ver a esquerda toda nas redes sociais a louvar-vos e a partilhar os vossos discursos metodicamente preparados para fazer golpes no tecido governamental onde, depois, vão deitando sal e vinagre semana a semana.

Não é que eu não goste de ver, porque gosto, mas não me parece que esse caminho nos sirva para alguma coisa, a nós, como colectivo.

Sempre achei que este governo haveria de cair “por dentro”, ou seja, apeado por Pachecos e Manuelas, no dia em que não suportassem mais ver desvirtuar a sacrossanta herança social-democrata de Sá Carneiro e antes que estivéssemos todos mortos, mas começo a duvidar de mim mesma.

Quando vos oiço, apesar de gostar, repito, sempre me lembro do velho sketch do Ricardo Araújo Pereira em que ele dizia com carinha de tolo:
- Eles falam, falam, falam, mas eu não os vejo a fazer nada…
Então, é isso!


12 de abril de 2013

Fartinha da excepção


Estou fartinha do “estado de excepção”.

Pensava eu que um estado desses tinha o nome com ele e seria excepcional, mas, no fim de contas, parece que pode ser uma moenga que serve para tudo e não tem prazo.

Há dois anos que me dizem que estamos “num estado de excepção”, mas todos os dias continuo a ouvir o mesmo dito com vozes e maneirismos de quem me está a avisar que vou cair no buraco se.

Outro dia até ouvi o José Gomes Ferreira da Sic, que, valha-nos a santa, também “tem dias”, afirmar que estamos num estado de excepção tão perigoso como aquele em que estávamos nas vésperas de pedir ajuda externa.

Ora bolas! Então de quem será a culpa? Ainda será nossa?

Mandaram-nos empobrecer, empobrecemos.
Mandaram-nos emigrar, emigrámos.
Mandaram-nos pagar mais impostos, pagámos.
Obedecemos sempre porque somos brandos e cordatos.
Então, por que estamos ainda num estado de excepção?

A resposta, todos a sabemos, mas lá que estes gajos, que saíram não se sabe de que esgoto, têm uma grande lata, lá isso têm.

Era tão bom que nós conseguíssemos inventar um estado de excepção novinho em folha, com p e tudo, em que os enfiássemos todos…
É que estão mesmo a pedi-lo – um estado de excepção.

 

11 de abril de 2013

Uma casa chamada Europa

 
 
Então, é assim que, hoje em dia, eu vejo a Europa e a sua construção.
 
Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada
 
Ninguém podia entrar nela não
Porque na casa não tinha chão
 
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
 
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
 
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero
 
A Casa
Vinicius de Moraes


10 de abril de 2013

Dois em um

Sentada na minha cadeira, e diante do meu computador, posso observar claramente a existência de dois países num só, um pouco como o “dois em um” do champô e amaciador.

As redes sociais são uma janela aberta para a sociedade, ou, pelo menos, para uma parte dela, que já não é tão pequena assim.

De um lado, o que vejo é a minha faixa etária, acompanhada por alguns mais novos, completamente obcecada com a situação política, económica e social do país.

Do outro lado vejo os mais novos, acompanhados por alguns mais velhos, que continuam entregues quase exclusivamente aos seus interesses de sempre, sejam a música, a arte, o futebol, a saúde, a moda, enfim, a normalidade.

Para estes últimos, parece que nada de novo está acontecendo por aqui e a vida continua no seu percurso doce e previsível.

Ao contrário, para o primeiro grupo, a vida transformou-se no ovo da serpente onde diariamente incubam novas ameaças, medos, inseguranças e pérfidos desígnios políticos.

A Pátria está com dupla personalidade.

9 de abril de 2013

Das bolachadas em falta


O discurso que Passos Coelho proferiu no domingo passado deixou-me, como é costume, muito mal disposta.

A questão nem é de conteúdo. Não gosto desse conteúdo, já se sabe, penso exactamento ao contrário do primeiro-ministro e do governo em geral mas, paciência, é a vida (democrática).

O que me deixa mesmo, mas mesmo muito desconfortável, é a forma e o tom.

Voltou a acontecer no discurso pós-decisão do Tribunal Constitucional − ai pensavam que se ficavam a rir, pois vão ver como vos vou castigar, seus palermas.

Desde que tomou posse, vai para dois anos, que Pedro Passos Coelho se nos dirige como se falasse com súbditos que não lhe merecem nenhum respeito, não exigem quaisquer cuidados de linguagem e devem ser permanentemente amedrontados.

Os dislates são incontáveis, mas, por mim, guardarei como afronta maior e imperdoável o ter mandado os meus filhos emigrar, coisa que uma mãe não poderá admitir a ninguém, muito menos a um imbecil qualquer que começou a trabalhar quase aos quarenta anos.

Como a inteligência também não fixou residência por ali, não consegue analisar-se nem extrair algum ensinamento das críticas que lhe têm sido feitas; por isso continua com o seu estilo de madrasta incompetente a distribuir bofetadas pelos enteados indesejáveis.

Sei que os políticos vão e vêm e os povos permanecem.

Não sei quanto tempo faltará para o Coelho ser obrigado a conjugar o verbo ir, mas duma coisa eu já tenho a certeza: daqui até lá não mudaremos, ou seja, ele vai continuar a achar que eu sou lixo e eu vou continuar a achar que ele é um rapazola grosseiro, desprezível, incompetente e a quem faltaram umas boas bolachadas na hora exacta.

8 de abril de 2013

A hora negra dum país



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sempre me pareceu que o sonho de Sá Carneiro – Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente, seria o nosso pesadelo.
Confirma-se.

Imagem de Alex Gozblau retirada do Facebook


5 de abril de 2013

À janela


Foi ontem que o Relvas foi à sua vida e é hoje que o Tribunal Constitucional vai dar as respostas que esperamos há três meses, não é?

Bom, então vou falar de outra coisa.

O meu amigo Luís P. começou a escrever num novo blogue colectivo com um nome impronunciável – O Inaniloquente

Nos dois posts que escreveu até agora contou estórias da sua infância, e revelou-se um bom contador das mesmas. Diria que a sua narrativa nos agarra, mas não digo, porque suspeito que essa palavra está já proscrita.

Fiquei a pensar o que teria eu para contar da minha infância. Pouco.

Ao tempo, a infância duma menina em cidade de província tinha como espaço certo, seguro, e quase único, a casa e a sua janela.
Eu usava-a tanto, a janela, claro, que tinha calos nos cotovelos.
Era uma janela de peito, num rés-do-chão, e para poder “estar à janela” os meus pais tinham colocado a meia altura um estrado onde eu punha os pés.

Daí  observava épicas lutas de bandidos e cowboys, bem como jogos de hóquei em patins (com stiques e bola comprados na feira lá da terra mas, obviamente, sem patins). Eram os gloriosos tempos da equipa portuguesa de Moreira, Vaz Guedes, Adrião, Velasco e Bouçós, salvo erro.

Jogos e coboiadas eram protagonizados pelo bando de miúdos das redondezas onde plenamente se integrava o meu irmão que, esse sim, podia brincar na rua.

O incansável labor das formigas, que constantemente passavam carregadas a caminho do formigueiro por baixo da minha janela, também era por mim observado com a atenção da cientista que não fui, ou filósofa que não filosofou, durante horas, isto é, sempre que os xerifes iam dar tiros para a rua do lado.

Não vou aqui dizer que as formigas e os seus denodados esforços me ensinaram alguma coisa para a vida, porque isso seria uma rotunda mentira; eu era dona duma cabecinha infantil que não especulava sobre o bem e o mal, certo e o errado.

Essas aprendizagens, aliás, tinham um código simples – para bem e certo, silêncio, para o contrário, uma estalada. E a gente aprendia rapidinho, juro.
Também sei que já então não era uma santa, porque me lembro muito bem de cuspir repetidamente para ver se acertava nalguma formiga com que calhava a embirrar, sabe-se lá porquê.

Claro que conhecia as lojas das redondezas e os seus proprietários; a minha mãe, de vez em quando, mandava-me lá “fazer um mandado”, mas o meu reino era a janela. E não foram poucas as vezes em que, na correria para lá chegar, porque me parecia que algo de excitante se estava a passar na minha rua, esbarrei no dito estrado que tinha que subir e esfolei os joelhos ou as canelas.

Era normal que os rapazes aparecessem com mazelas/troféus após as suas brincadeiras vigorosas de pré-machos latinos, mas, como se vê, da vida à janela duma menina também podiam resultar sequelas que solicitavam o uso do garrido mercurocromo, e que depois competiam, cromaticamente, com os joelhos do rapaz da casa.

Tudo isto faz da minha infância um tempo infeliz? Nem por sombras. Era assim, e pronto. E cada um(a) sabia sempre encontrar no que “era”, o seu naco de felicidade.

PS: na foto ali de cima, sou mesmo eu à janela.
E bom fim de semana.


4 de abril de 2013

Sr. Crato/Sr. Relvas


Em verdade vos digo, meus amigos, que já nem os posso ver.
Estou farta deles todos, e cada vez mais me sinto à espera que caiam − da cadeira, da escada, ou mesmo da cama, tanto faz, o que é preciso é que caiam.

Exceptuando Paulo Macedo, não há ninguém naquele bando, que se intitula “governo de Portugal”, que me mereça um pingo de respeito, ou simpatia, ou consideração.

Quando o governo foi formado, alguns dos seus ministros deixavam-me uma pequena esperança de que talvez, pelo seu carácter ou competência profissional, pudessem melhorar um governo que já me parecia muito mau e iria aplicar políticas de desastre.

Afinal, também esses o integraram apenas porque o seu nível não destoava do conjunto.

Falo de, por exemplo, de Nuno Crato. Homem das matemáticas e crítico do sistema educativo, talvez aligeirasse a mediocridade governativa, pensei.

Ó mulher ingénua, ó grande lorpa!

Para além de outras suas malfeitorias que, por vezes, raiam a crueldade, acabámos de saber que tem na gaveta, há dois meses, o relatório sobre a licenciatura do Relvas, caso de que falou, e fala, o país inteiro.

Entre dar aos portugueses as respostas que eles esperam há demasiado tempo e a solidariedade com o trafulha do colega ministro, que escolhe o cretino do Crato?

A segunda hipótese, claro!
E porquê?
Porque, um com curso e outro sem ele, ambos são farinha do mesmo saco e merecem-se.
Eu é que, tenho a certeza, não os mereço a eles.

PS: a foto é pequenina porque, reafirmo, já nem os posso ver.


3 de abril de 2013

Modos de ajustar

Já faz um bom tempo que o Facebook me bombardeia, na coluna da direita, com publicidade a um produto para “Perder Barriga” que remete para o site barrigalinda.com.

O nome do site é uma beleza, e por ele dão a cara todas as “famosas” deste país, como, por exemplo, Alexandra Lencastre, Maya, Rita Pereira, Sónia Araújo, Fátima Lopes, Júlia Pinheiro, Luciana Abreu e mais uma infinidade delas cujo nome desconheço.

Todas afirmam: “eu perdi 12 kg em 30 dias” e, ainda por cima, anuncia-se que foi tudo conseguido sem dietas nem ginásio.

Caraças, que inveja. Poder ficar assim linda e maravilhosa sentada à mesa do restaurante!

Deixando de lado esta coincidência quase esotérica de todas estarem gordas e de todas terem perdido o mesmo peso no mesmo número de dias, a isto eu chamo o verdadeiro milagre do “ajustamento” sem dor.

No sec XIX, a elegância alcançava-se ajustando cinturas com espartilhos, que ora partiam as costelas, ora quase matavam por asfixia.

E é ainda esse o método que os troikos estão a usar para o nosso “ajustamentos” – falta de ar e costelas partidas.
Cambada de incompetentes.

Se não gostam da Alexandra Lencastre devem, ao menos, gostar da Soraia Chaves, que também por lá anda e é do melhorzinho que temos; tenho a certeza de que ela lhes poderia dar umas pistas de como nos obrigar a abater as gorduras do Estado, (coisa de que nunca mais ouvi falar mas que deve existir), com um sorriso nos lábios e uma apetitosa feijoada no bucho.