Após quase três anos, volto aqui.
Se calhar gosto de falar sozinha,
ou porque
Uma história que já vimos e lemos em outros tempos e lugares – uma ama “doce” que acaba por matar as crianças que lhe foram confiadas.
A leitura vale a pena pelo ritmo narrativo que a autora impõe, e pelo domínio da escrita.
As personagens são bem desenhadas e nelas vivem muitos problemas do nosso tempo. Porém, Leila Slimani nunca cede à emoção fácil, à análise psicológica de pacotilha, à vitimização de uma ou à culpabilização de outros.
É a vida, simplesmente, mesmo nos seus episódios mais dolorosos ou assustadores.
..."É cruel, mas nunca sádico, o modo de escrita de Diop. É visceral. É a marca de um grande escritor que sabe o poder da linguagem para deixar na sombra o que é preciso que fique na sombra. “A história escondida tem de estar lá sem lá estar, tem de deixar-se adivinhar como um vestido cingido amarelo cor de açafrão deixa adivinhar as belas formas de uma rapariga. Tem de transparecer”, lê-se nesta história que sai da cabeça de um soldado que, depois de ser considerado um herói, é enviado para a retaguarda porque os colegas, brancos e negros, só conseguem ver nele a morte. Toda a beleza aqui é a da literatura.”
Isabel Lucas
Nov. 2021, Público
É diário, é memória, é ficção, é procura, introspecção?
Tudo isso feito numa escrita cativante, moderna e feminista.
O caminho das mulheres, cheio de dores e perdas, nunca é fácil, mas nele pode haver felicidade e, sobretudo, liberdade.
É um país cheio de sol e cor, o nosso, mas os portugueses parecem ver, cada vez mais, a preto e branco.
Como é que ninguém explica à criatura que Portugal é uma democracia e que nas democracias não se ilegalizam partidos, como na Ucrânia?
Como ensinar ao rapaz o que ele já devia saber: que o PCP tem lá as suas parvoíces ( agora até se excedeu nelas) mas teve também um papel fundamental na luta contra a ditadura e na construção da democracia?
Como explicar àquele humano que, por cá, estender a mão e sentir que nos querem levar o braço não é coisa do nosso agrado?
Como ensinar a um "burro velho" as regras de boa educação e convivialidade na casa dos outros quando, estando em fuga, se aceita um convite para partilhar o tecto, e às vezes os parcos haveres?
Como?
O 25 de Abril não é de ninguém. É de todos os que se queiram encontrar na rua, celebrando a liberdade e uma data que lhes é querida.
É dia de risos e abraços, encontros, cravos na mão, corres garridas no vestuário, ténis nos pés, conversas, recordações e esperança no futuro.
Quem quiser, aparece. Vai alinhado ou desalinhado. Pertence a um grupo ou a si mesmo. E tudo isso está bem.
Tem sido sempre assim, até que apareceu um novo partido, a Iniciativa Liberal, que está sempre de olho na “facturação” e no lucro. Foi isso que bispou ao convidar a senhora Inna Ohnivets , embaixadora da Ucrânia em Lisboa, para desfilar com eles numa festa à parte, só deles.
E não é que a senhora Inna aceitou? Embrulhou-se na bandeira do seu país e lá foi. Tenho para mim que a senhora Inna sabe tanto do que é a IL como de Bacalhau à Zé do Pipo, e isso nem seria grave se não mostrasse que ela também não sabe qual deve ser o papel de um embaixador, e isso, sim, já é grave.
A ajuda de Portugal à Ucrânia, tem sido feita por todos nós, individual e colectivamente, mas por TODOS. Em nenhuma circunstância um embaixador pode aliar-se a uma parte do país que o acolhe em detrimento de outra mas, neste caso em particular, é de uma injustiça tremenda.
Acredito que não fez por mal, não creio que seja liberal nem qualquer outra coisa.
Como não tenho más intenções, quer-me parecer que a senhora Inna será apenas burra.
“Centenas de milhar de pessoas enchendo durante horas a Avenida da Liberdade em Lisboa, do Marquês ao Rossio. Esmagador. Continua a surpreender-me. 47 anos depois (e apesar de dois anos de interrupção pela pandemia), o 25 de Abril continua a ser O Dia. Surpreende pela adesão, e surpreende porque não é uma manifestação com uma reivindicação, não é uma festa, não é um evento desportivo ou religioso. É simplesmente um estar na rua, um passear, um estar junto, marcar presença no sentido bom da expressão. E o que se celebra não é uma data nacionalista, não é uma independência, não é uma vitória bélica, é o fim duma ditadura e o estabelecimento duma democracia. Que seja este o motivo e que seja aquela a forma de celebrar, é uma preciosidade e uma raridade. Que seja isto que nos une às centenas de milhar ano após ano é extraordinário e um bem valiosíssimo a preservar na nossa comunidade e que já foi passado às gerações seguintes.”
Miguel Vale de Almeida, numa rede social
(são 48 anos e não 47 como ele escreve)
25 Abril 2022
...
Onde Le Pen e Macron lideram as intenções de voto.
Em França, governa um partido de direita e a oposição é da extrema-direita. Isto significa que a oposição não está a ser liderada pela esperança, mas pelo ressentimento. É um fenómeno significativo, o ressentimento, e tudo aquilo que ele gera.
Quer explicar?
Em tempos, houve um conjunto de ideais que tentaram opor-se à ordem capitalista. Hoje, essa oposição surge não no sentido de mudar a situação ou de incomodar a ordem dominante, mas como uma espécie de desespero que se traduz em ressentimento, que por sua vez se traduz em xenofobia, racismo, segregação. Em última instância, procura-se encontrar um ‘responsável’. Não havendo mudança possível, é preciso alguém em quem depositar a culpa.
Excerto da entrevista publicada no Expresso de 23 Abril 2022
Houve um tempo em que acreditei que Trump não seria eleito.
Houve um tempo em que acreditei na derrota do Brexit.
Hoje acredito que a Le Pen pode ganhar em França amanhã.
Desejo muito estar de novo enganada.
Nestes tempos conturbados, o que me incomoda, e me pode levar a cortar relações com alguém, não é a diferença de opinião, é a diferença de valores.
Nunca esta tinha sido tão exposta como neste ano da (des)graça de 2022.
No meu bairro esgotaram-se as cabeças para dar trabalho a tantas cabeleireiras, esteticistas e dentistas.
Passámos, então, ao corpo, e agora nascem diariamente ginásios normais e especiais, e clínicas de reabilitação normais e especiais, não sendo raro que cresçam paredes-meias.
Difícil, mesmo, é encontrar um simples marco do correio.
Rosa Montero
"A Carne"
Depois li Freedom e só gostei assim-assim, deixei passar Purity e agora decidi-me por ler Encruzilhadas.
Desta vez não entramos num bocado da América contemporânea, como é costume do autor, mas regredimos aos anos 1970 num qualquer subúrbio próspero de Chicago.
Mais uma vez a família, os seus momentos de rotura pessoais e colectivos, tudo contado com uma estrutura que considero preguiçosa, isto é, uma pessoa de cada vez, uma história de cada vez, um drama de cada vez, uma rotura de cada vez.
É certo que ele sabe contar histórias que nos entretêm mas no fim, também com alguma preguiça, ouso canibalizar Rogério Casanova na sua apreciação do livro quando ele escreve:
“A sensação que fica muitas vezes dos seus livros é a de um aluno muito esperto que decidiu dedicar toda a sua energia a fazer o melhor trabalho de casa de todos os tempos.”
Não é muito, convenhamos.
Se o governo disse que Portugal tem cereais até ao final do ano, por que é que o preço do pão sobe todas as semanas?