Ao PCP, depois de tudo comentar como lhe parecesse justo, bastava terminar dizendo:
"mas nunca, em tempo algum, se pode abocanhar o país dos outros!"
Ainda não o fez.
Ao PCP, depois de tudo comentar como lhe parecesse justo, bastava terminar dizendo:
"mas nunca, em tempo algum, se pode abocanhar o país dos outros!"
Ainda não o fez.
Os portugueses já não gostam que nos aproximemos dos seus filhos pequenos, mas derretem-se quando nos interessamos pelos seus cães.
Trocámos a criança pelo cão, envelhecemos a olhos vistos, tornámo-nos temerosos e desconfiados, e, implicitamente, mudámos o velho ditado de "quem meus filhos beija minha boca adoça" para "quem meu cão festeja minha boca adoça".
Degenerescência social é também isto, não?
Passear de mãos nos bolsos pelas avenidas de Lisboa, gozando o sol e a tranquilidade de domingo, sabendo que precisamos é de chuva e não de sol e que, a 4000 quilómetros, milhares de outras mulheres com suas crianças vivem debaixo do chão para fugir das bombas do plutocrata Putin - guilty pleasures.
Shuggie Bain, de Douglas Stuart, foi o vencedor do Booker Prize 2020.
Numa Glasgow fria, húmida e atravessada pela miséria criada pela política económica e social de Margaret Thatcher nos anos 1980 e 1990, por via do encerramento das minas de carvão, assistimos à abjecta degradação da classe trabalhadora.
Este é o cenário da vida duma família desestruturada, centrada numa mulher muito bonita e bem educada, mãe de três filhos de dois casamentos, que se vai afundando no álcool no bairro triste, pobre, e que vive de magras senhas da segurança social.
É a história de amor de um filho “diferente” pela sua mãe, do seu sofrimento infantil, das suas tentativas para a salvar, numa completa inversão de papéis entre cuidador e cuidado.
Shuggie não salva a mãe, mas também não se perde a si próprio.
Verdadeiramente tocante e chocante, um episódio perto do final: Shuggie, agora com 15 anos, parece, finalmente, ter encontrado uma amiga, coisa que nunca tinha tido.
Encontra-se com ela na parte central da cidade onde ela espera encontrar a mãe, alcoólica e prostituta para, na rua, e com a protecção de um casaco, lhe mudar a roupa interior.
Escrita realista, com pequenos desvios temporais, de fácil mas agradável leitura.
Aquilo que, à primeira vista, poderia parecer um livro sobre o incesto, é muito mais do que isso - é um livro sobre os seus efeitos devastadores na vítima mas também em toda a família, com a elegância de o tema nunca ser abordado explicitamente. Como se isso não bastasse, é ainda um vívido documento sobre a condição das mulheres dependentes dos seus maridos, mesmo em países nórdicos que tendemos a tomar como modelos.
Moderno, delicado, sensível, sofrido mas belo, é este romance da norueguesa Vigdis Hjortk - Herança - prémio da crítica e dos livreiros noruegueses. Foi também nomeado para o National Book Award for Translated Literature nos EUA.
"Eram facadas no meu coração, porque o amor é um cirurgião que faz operações cardíacas de peito aberto"
Citação retirada do poema O amor é um cirurgião, de Gunnar Ekelofs.
Há quem saiba dizer apenas o essencial.
Quando Marta, a ministra, diz no Parlamento, a propósito das queixas dos médicos que "se calhar precisamos de contratar pessoas mais resilientes" devia levar com um pano encharcado na cara.
É uma ofensa gratuita, indesculpável e inadmissível, sobretudo depois do que já vivemos nos últimos dois anos.
Primeira iniciativa visível de Carlos Moedas, a que o faz encher o peito e sorrir contentinho: um grande Centro de Vacinação, o MAIOR, segundo diz.
A comodidade dos lisboetas, sobretudo dos pobres e velhos, é uma cena que não lhe assiste. Vamos todos para o pavilhão 4 da Feira de Lisboa, lá para os cus de Judas.
Mas é o MAIOR, caraças! Vocês nunca estão contentes?
Toda a gente que se interessa por política sabe que, na actual conjuntura, depois de derrubado o governo, nada melhor do que ele poderá vir para os portugueses; só pior.
Pergunto-me: se eu fui capaz de escolher, tantas vezes, o mal menor, quando fui votar, os partidos de esquerda não podem fazer o mesmo por mim?
Deixassem-no bem claro, acarinhassem todas as lutas futuras de quem exige resolução de velhos problemas, mas poupassem-nos a governos de Rio ou Rangel, Chicão ou Nuno Melo, Cotrim, Ventura e companhia.
Não o fizeram, terão certamente os seus motivos.
Eu também tenho os meus, mas para não perdoar.
A certa altura da tarde, liguei a RTP Play, no PC, para ver e ouvir o que faltava do debate do Orçamento.
Apareceu-me o Ventura, de gesto largo e sorriso alarve. Como ainda não tinha ligado as colunas, deixei-as ficar sem som.
De segui, aparece a Inês Sousa-Real do PAN. Liguei o som.
Segue-se a Cecília Meireles e eu desliguei o som.
Vem logo a seguir João Oliveira. Liguei o som.
Sobe a Catarina Martins e eu vou para desligar o som, mas opto por desligar a RTP Play.
Precisamos de novos protagonistas.
Agora escuto o silêncio, adequado companheiro da minha tristeza neste dia 27 de Outubro 2021.
"A história da oposição dos homens à emancipação das mulheres é porventura mais interessante do que a história dessa emancipação."
Virginia Woolf
Um Quarto Só Seu
Penguin Clássicos (ed. Bolso)
Reflexão de Pedro Mexia, no seu artigo do Expresso, que é também minha há muitos anos.
Eu não encontrei respostas. E creio que ele também não.
"O desaparecimento abrupto e sem explicações numa relação amorosa é inaceitável, embora se compreenda no contexto de contactos epidérmicos ou fugazes, menos dados à empatia. E o desaparecimento entre amigos? Pode um amigo desaparecer? Podemos desaparecer a um amigo? A amizade é uma coisa que desaparece? Haverá um protocolo que não seja o confronto? Há sequer protocolos adequados ao fim de uma amizade? E o que quer dizer amizade?"
Dizem que o uso do masculino neutro na linguagem é uma forma de excluir as mulheres.
Quero inocentar o masculino neutro.
A mim, o que sempre me fez sentir excluída foi a invisibilidade e a complacência.
Se PCP e BE não deixarem passar o Orçamento de Estado, se o governo cair, se houver eleições, os partidos de esquerda que não contem com o meu voto, nem, certamente, com o de muitas outras pessoas como eu porque, ao contrário do que eles pensam:
- o óptimo é inimigo do bom
- um Orçamento de Estado não é um programa de governo
- o programa de governo que ganhou as eleições (e em que não votei) foi o do PS
- o governo actual é melhor do que um governo do PSD e amigos, seja o do Rio seja o do Rangel.
Se PCP e Bloco fizerem cair o governo, ao contrário do que pensam, nas eleições levarão uma banhada, e talvez depois a esquerda precise de uma década para se levantar, ou talvez não se levante mais.
Não terão o meu voto. Nenhum deles.
Sem drama, mas não se aguenta.
Eu, que tenho da velhice uma visão tenebrosa, às vezes dou comigo a pensar que nem me importo de já não ser assim tão nova.
É que as aprendizagens e adaptações que são agora pedidas aos mais novos, tornariam, no meu caso, qualquer interacção com outros numa espécie de caminhada sobre pregos. E eu não estudei para faquir.
Vem isto a propósito da nova linguagem que as questões de género, centrais nos nossos dias, trouxeram acoplada nas suas costas (largas).
Para dar um exemplo: vi no Twitter uma pessoa a pedir para ser chamada apenas de Jo e só com uso de “pronomes neutros” (dixit).
Escreveu “eu própri” e várias pessoas responderam ao pedido chamando-lhe linde e queride.
Ora, eu não sei falar isto. Nem vou aprender.
Ouvi dizer que, nas universidades, se o professor não respeitar a escolha de género do aluno, ou até, o que é pior, a sua não escolha (quando alguém diz que o seu género é neutro, isto é, nem homem nem mulher), pode muito facilmente ser admoestado ou mesmo corrido. Assim sendo, respeitar a escolha de género implica, por vezes, deixar de falar, com essa pessoa, o português corrente, e à mais pequena escorregadela está lixad@.
Fico tão aparvalhada com estas coisas, sinto que já não sou daqui, e dou comigo a pensar - oh cum cagarague, este é mesmo um tempo de camandre.
Pardon my french.