e eu com ele
9 de outubro de 2021
8 de outubro de 2021
5 de outubro de 2021
Está reaberto o estaminé
Reabriu sem comentários, explicações ou publicidade
(...caminhar pelas ruas fora) pode ser uma maneira de induzir o sonhar acordado, a subjectividade e a imaginação, uma espécie de dueto entre as solicitações e interrupções do mundo exterior e o fluxo de imagens e desejos (e medos) do mundo interior.
Por vezes, pensar é uma actividade de ar livre. E física.
Por vezes, pensar é uma actividade de ar livre. E física.
Rebecca Solnit
"As Coisas que os Homens me Explicam", conjunto de ensaios sobre as questões do feminismo e da situação das mulheres.
A autora, "inventou" a palavra mansplain, escolhida como palavra do ano em 2013, para a situação em que os homens explicam às mulheres coisas que elas sabem e eles não sabem.
Quem, sendo mulher, não viveu já esta situação?
30 de setembro de 2015
Vou andando
Vou pôr-me a caminho da minha assembleia de voto.
Vou
expectante, mortinha por saber, finalmente, o que resolvem os portugueses
depois destes quatro anos em que foram tratados abaixo de cão.
Pessoalmente,
e em termos políticos, vivi quatro anos e meio de indignação, às vezes repulsa,
às vezes medo, muito azedume, e náusea persistente.
No domingo,
será encerrado este ciclo; ou não, porque, usando uma boa lapalissada, direi
que ou o governo ganha, ou o governo perde.
Ingénua,
talvez, ainda acredito que, ao contrário do que as sondagens nos querem fazer
crer, os portugueses talvez não tenham gostado assim tanto de ser sodomizados à
bruta.
Por isso,
ponho as minhas fichas na derrota da coligação. PaFfffffffff!
A ser assim,
e se o PS ganhar, espero que não tenha maioria absoluta, e que seja obrigado a
negociar. Depois de Sócrates, passei a achar que a maioria absoluta é um mal absoluto.
Porém, no caso
de o absurdo se concretizar, isto é, caso a coligação vença, por convicção ou
falta de comparência dos cidadãos, a minha decisão está tomada: vou virar-me do
avesso.
Não terei
mais angústias com o desmantelar da escola pública, do Serviço Nacional de
Saúde, da Segurança Social e dos apoios aos mais pobres. Não me preocuparei
mais com a Justiça e as suas descaradas injustiças, os negócios e as negociatas,
a emigração, a precariedade, as desigualdades, a mão-de-obra barata, as
senhoras e senhores da assistência.
Pedro, Paulo,
seus mentores e seguidores, aproveitarão para concluir a enorme transformação
do país que já encetaram, e a mim nada me resta se não admitir que, às vezes, é
preciso deixar que se “albarde o burro à vontade do dono”.
Se o voto
dos portugueses apontar claramente para uma preferência pelos colégios
privados, os seguros de saúde, os fundos de pensões privados, os pobrezinhos
mas honestos, a caridade, o assistencialismo, as remessas de francos suíços e o
tratamento ao pontapé, eu terei votado vencida.
Mas não há
drama.
Fiz um muito
pessoal ponto da situação e constatei que: eu já estou mais para lá do que para
cá, os meus filhos já se foram embora, netos não tenho (mas se os vier a ter,
talvez sejam noruegueses, ou suíços, ou japoneses, sei lá). Então, por que raio
deveria continuar a sofrer, querendo preservar para o futuro o que a maioria de
nós quer deitar pela borda fora?
Nááá, não o
farei.
Quererá isto
dizer que passei de resistente a desistente? Não será bonito, mas é bem
possível, admito.
Se o PS
ganhar, como espero e desejo, fico contente por uma noite, e depois recomeça a
porrada, porque sei que o fundamental não mudará. Mas, ao menos, mudam as
moscas, e chegámos tão fundo que com isso já me alegro.
Não votarei
útil. Porque não quero, mas, diga-se em abono da verdade, e feitas as contas,
também não é preciso.
E fico mesmo
piursa quando me dizem que, sendo de esquerda, se não votar PS estou a
desperdiçar o voto. (Que me lembre, o autor desta “descoberta”, Manuel Alegre,
não considerou um desperdício os votos da esquerda nele próprio quando se
candidatou e perdeu).
Para a pata
que os pôs mais a democracia deles.
O meu voto
não é uma “utilidade”. É um direito e um dever, qualquer coisa mais do domínio
do imaterial. Viver de “utilidades” é uma grande chatice. E cansa.
Cansada
também, confesso, estou das guerras entre bolchebiques, mencheviques, do
renegado Kautsky, do renegado Trotsky, e do mais que já esqueci.
No domingo, votarei
no programa e nas pessoas em que me apetece votar, mas não vou revelar quais
são por três razões fundamentais:
- apesar de,
nas redes sociais, ser tudo às escâncaras, este atávico secretismo sobre o voto
dá-me frisson.
- o sentido
do meu voto não interessa nem ao Menino Jesus.
- não tenho
seguidores e não espero convencer ninguém, e também não vou matar a curiosidade
aos curiosos.
No meio de
tanta incerteza no domingo, votarei, como sempre, com uma enorme alegria e um desmedido
sentimento de gratidão − pelos Capitães de Abril, pois claro.
Durou, de
modo desigual, desde antes da queda de Sócrates, até às novas eleições quatro
anos e meio depois − os anos de chumbo.
Não o vou
encerrar porque me parece de todo desnecessário − uma vez na internet, sempre
na internet, dizem.
A quem por
aqui me visitou, o meu obrigada. Aos outros bloggers que, por causa deste, conheci,
reitero que foi um prazer.
Para todos, bom
domingo, boas escolhas, dias felizes e até à vista.
Vou andando.4 de julho de 2015
Daqui, do meu “Olimpo”
Aqui sentada no meu tranquilo “Olimpo”, não vou dizer − “se eu fosse grega” fazia isto ou fazia aquilo.
Não vou, mas
também não vou negar que com este longo processo, que está longe do fim, ora me
inquieto ora me regozijo, ora deprimo ora barafusto, ora acalmo ora confio, ora
desconfio. Tem sido cansativo, às vezes quase desesperante, mas sempre nos pôs o
sangue a correr nas veias, e isso é bom, muito bom.
Aqui sentada
no meu tranquilo “Olimpo”, tenho testemunhado uma das maiores, se não a maior e
mais escandalosa campanha de desinformação a que já assisti.
Aqui sentada
no meu tranquilo “Olimpo”, e à aproximação de domingo, ser-me-ia muito fácil
escrever OXI, OXI, OXI (o Não grego), quase como se os gregos tivessem o dever
de votar Não, e com esse seu acto de rebeldia ou desespero devessem resgatar,
não só a sua honra, mas sobretudo a nossa.
A quantidade
de anos já vividos, porém, permite-me saber, antes de mais, que é preciso estar
“nos sapatos” dos outros para perceber a verdadeira dimensão dos problemas que
os afligem.
Por isso
acho que OXI não pode ser uma bandeira de que nos apropriamos alegremente nas
redes sociais.
Se eu fosse
grega, sei lá o que faria.
Se eu fosse
grega, sei lá em que situação me encontraria.Se eu fosse grega, sei lá como avaliaria as consequências para o futuro do meu país em geral e da minha família em particular.
Aqui sentada
no meu tranquilo “Olimpo”, é verdade que também eu desejo que os gregos se decidam
pelo Não. Que digam BASTA.
Contudo, se
amanhã eles não o puderem fazer, eu entendo. E respeito.
É isso.
Seja o que for que aconteça, eu respeito
PS: OXI,
OXI, OXI.
24 de junho de 2015
Do lado certo do betão
Poucos anos depois de eu nascer, a Europa do pós-guerra
acordou um dia com a construção de um muro em Berlim.
O mundo ocidental chamou-lhe “Muro da Vergonha”.
Com ele cresci e vivi até 1989, data em que o muro foi
derrubado pelos povos de leste e todos, no leste e no oeste, achámos que
iríamos viver tempos de paz, liberdade e prosperidade.
Não foi o que aconteceu, como muito bem sabemos hoje, mas a
minha mais recente perplexidade resulta da tomada de conhecimento da construção
de novos muros: a Hungria constrói um muro de 175 quilómetro de comprimento por
quatro de altura, ao longo da sua fronteira com a Sérvia, para impedir a
entrada de clandestinos, e a Bulgária constrói uma cerca ao longo de toda a
linha fronteiriça com a Turquia, junto à cidade búlgara de Lesovo, para impedir
a entrada de refugiados. O primeiro trecho, com cerca de 32 quilómetros, ficou
concluído em Setembro.” (aqui e aqui)
Afinal, na Europa, e segundo percebo:
a) os muros só são da vergonha se construídos por comunistas;
c) os muros, para estes povos tantos anos subjugados por um, até são, afinal, uma forma expedita de resolver problemas, desde que consigam ficar do lado certo do betão
4 de junho de 2015
Aprender latim
Quando li
esta notícia sobre oferta de aulas de latim e grego no ensino preparatório, o
meu coração, que é um bicho esquisito, encheu-se de alegria nas aurículas e de
tristezas nos ventrículos.
Alegria,
pela extraordinária oportunidade que é dada aos miúdos de hoje de começarem a
aprender as línguas mortas antes da vivas e de, com essa fantástica ferramenta
virem, quiçá, a perceber porque passou toda a gente a escrever espetador, ótimo
ou Egito, por exemplo.
Cá por mim,
acho esta escrita tão obtusa que me parece que terá raízes num esquecido
decreto, sobre normas de ortografia, publicado por Calígula que, como toda a
gente sabe, não batia bem da bola e fumava coisas de pouca qualidade.
Mas a
aprendizagem do latim vai ajudar os miúdos a perceber, tenho a certeza, como a tenho sobre
a visão de futuro de Nuno Crato.
A tristeza
que me inundou os ventrículos advém de eu própria não ter tido tamanha oportunidade
quando era pequenina.
É que eu só
estudei latim aos 15 e 16 anos e, sendo certinho que não me lembro de nada,
posso dizer que gostei muito – não tanto do latim em si, mas desse tempo das
cerejas em que eu aprendia (pouco) latim, mas muito sobre…julgo que era
química.
21 de maio de 2015
Exposição de João Queiroz
A (este
Artista) + C (este Curador) = EI (Exposição Imperdível)
Aguarelas de João Queiroz. Curadoria de Bruno Marchand
Inaugura no
sábado, 23, às 17h, na Fundação Carmona e Costa, em Lisboa.
10 de maio de 2015
Phoenix
Vale a pena
ver o filme Phoenix.
Segundo
crítico do jornal i “uma história que
joga com a culpa, a traição, os traumas e a adaptação a uma vida a ajustar
contas com a guerra e as marcas do nazismo. “Phoenix” é a história de amor de
um casal, interrompida pelos horrores da II Guerra Mundial e pelas certezas e
juras perdidas.
Poderá o amor ser o alento para lhes sobreviver ou terá ele
próprio sucumbido à luta para manter a própria vida? Poderá a identidade
permanecer a mesma depois de tudo isso?”
Vi neste
filme belo, sóbrio e tocante, sem deixar de ser duro e intenso, duas Phoenix –
a heroína, a judia Nelly Lenz, mas também a própria Alemanha que, renascendo
das cinzas, forçosamente se reinventam.
1 de maio de 2015
1 de Maio 1974
Roubei esta
imagem de 1 de Maio 1974 no Facebook. Tal como a dona da foto, eu também lá
estava, mas não tenho uma única fotografia. Só memória.
Os meus pais vieram de Évora passar esse dia comigo, até porque ainda não nos tínhamos visto desde o dia 25 de Abril.
A viagem que fizeram, na camioneta da Setubalense, entre Évora e Lisboa, era coisa para durar 3 horas ou 3 horas e meia, com paragens em Montemor-o-Novo, Vendas Novas, Pegões e Setúbal, tudo entrepostos em se carregava e descarregava muita bagagem, acomodada no tejadilho do veículo.
Esperei-os no fim da carreira, isto é, na Praça de Espanha, no sítio onde veio a existir o primeiro Teatro Aberto, e foi ali mesmo que demos início aos festejos – primeiro os íntimos e depois os colectivos.
Sobre a manifestação, nada a acrescentar. Quem a viveu, viveu, quem não a viveu…temos pena.
Éramos, então, todos anti-fascistas, amigos e amigas, camaradas e companheiros, o futuro era nosso e “fascismo nunca mais”.
Não conseguimos, como muitíssimos outros, entrar no estádio do INATEl, mas isso não teve nenhuma importância porque “o povo unido nunca mais será vencido”.
Como se sabe, o povo começou a desunir-se logo no dia seguinte, sendo isso a coisa mais natural do mundo. Eu é que ainda não o sabia.
Porque esse era também o tempo em que “eu era feliz e ninguém estava morto”.
20 de março de 2015
O pau
Há um novo
brinquedo no mercado – o pau de selfie.
A chegada
desta nova geringonça vai acabar com mais um antigo e divertido ritual do
turista – escolhia-se um asiático, turista como nós, com a máquina fotográfica
ao pescoço, e pedia-se-lhe: would you,
please, take us a picture?
Ele (a)
sorria, ou não, respondia sure, a
gente fazia pose e, no fim, despedíamo-nos todos com simpatia, como o engenheiro
Sousa Veloso no tempo do TV Rural.
Aquela foto,
tirada pelo asiático criteriosamente escolhido, era a prova provada, e com
grande probabilidade a única, de que tínhamos estado mesmo lá, e juntos.
A partir de
agora, basta sacar o tal pau de dentro da mochila, e disparar.
A
posteridade deduzirá, talvez, que esta foi a época de ouro das relações, porque
os casais em férias surgirão, em milhares de fotografias, juntinhos e risonhos.
E pronto, e
assim se acabou também com a interacção fotográfica com turistas asiáticos.
Só nos
últimos anos já vi desaparecer tanta gente, tantas ideias, tantos costumes,
tantas profissões, tantos modos de fazer que às vezes penso que vivo mas é num
buraco negro – num daqueles com muita massa, que tudo sugam e tudo fazem
desaparecer.
Medo!15 de março de 2015
O rei vai nu
Não posso
negar que a visão de Varoufakis na varanda foi, para mim, o equivalente a um
murro no estômago.
Nas redes
sociais, a esquerda, maioritariamente, remeteu-se a um silêncio de sepulcro. Alguns,
poucos, trataram de usar a velha argumentação – um marxista não precisa de ser
pobre, um marxista pode ser um bon vivant,
um marxista pode gostar, e comprar, as coisas boas e caras da vida.
Por mim,
acrescento ainda que um marxista do século XXI tem também direito a gostar de
reportagens pirosas, a ter os seus dez minutos de fama, a fazer o seu marketing
pessoal (e o da sua mulher), a ser vaidoso e a fazer parvoíces.
São direitos
inalienáveis das pessoas, de esquerda ou de direita, mas, neste caso, e como
argumento de defesa, acho fraquito. E faz sorrir.
Olho aquelas
foleiríssimas imagens e pergunto-me: se Varoufakis decidisse viver como um
franciscano isso adiantava alguma coisa aos gregos e à Europa?
Não! Nada, nadinha!
Exibir uma
vida boa numa reportagem fútil e pirosa faz mal aos gregos à Europa?
Neste
momento histórico, faz!
Não porque
ele não tenha direito a uma vida boa, mas porque passa uma mensagem de futilidade
e falta de concentração que em nada contribui para aumentar a credibilidade do
ministro. Nem fomenta o respeito dos adversários com quem está a ter duras
negociações sobre o futuro do seu país.
As nuvens
adensam-se. Não vou negar que já achei esdrúxula a ideia de pôr estudantes,
donas de casa e turistas a fazer de fiscais das finanças mas, ainda assim, dei
o benefício da dúvida. Esta rosada reportagem, porém, foi como levar com um inopinado
par de cornos.
Além do mais,
almocinhos na varanda com brinde para a fotografia da revista sempre foram alvo
de chacota e desprezo por parte da esquerda.
Doeu. E fez
medo. Entre outros, fez nascer o medo de que Varoufakis seja apenas mais um flop em vez de ser, finalmente, alguém
de quem nos possamos orgulhar.
Neste
episódio, a maioria calou-se, alguns optaram por dizer que o fato do rei é
lindo e que ele tem todo o direito de usar o que lhe apetecer.
A mim,
porém, parece-me apenas que o rei vai nu.
PS: acabo de
ler aqui que Varoufakis já se arrependeu de ter feito a reportagem. Uma boa
lição para os seus defensores lusos.
13 de março de 2015
Mais uma escandaleira, é o que é.
Esta
notícia - PS pagou a Costa em 2007 para ser assessor político - que desde ontem está em todos os jornais, que me aparece no Facebook post sim, post não, e que, de facto ninguém lê para além do título, deixa-me
muito revoltada.
Como se pode
admitir que um partido, neste caso o PS, tenha pedido a um dos seus, por acaso,
ao tempo, um ministro, que deixasse o lugar e se candidatasse à Câmara da
capital do país sem o advertir imediatamente de que, entretanto, até ser eleito
(ou não) teria que viver na indigência por uns dois meses?
O PS devia
ter deixado o António Costa sem trabalho, sem dinheiro, sem camisa, e em jejum.
Só assim
evitaria que, daí a oito anos, um qualquer estarola se lembrasse de fazer, sobre
o tema, uma não-notícia induzida por um título idiota.
Além do mais,
o que é que o PS tem que contratar um dos seus para assessor político?
Isso é imperdoável
nepotismo!
Devia era
ter contratado, p’raí, sei lá… o Nuno Melo.
Isso sim, era decente.
8 de março de 2015
26 de fevereiro de 2015
António Costa, largue o osso
Caro António
Costa, estou em vias de perder a paciência consigo.
Para começo
de conversa tenho que lhe confessar que fui daquelas que muito se insurgiram
contra a inépcia do seu colega Seguro, e que achei que o senhor poderia fazer
melhor oposição.
Perplexa, após
cinco meses de exercício do cargo, não percebi ainda qual a grande diferença
entre ambos. E não serei a única, julgo.
Desde que se
tornou secretário-geral do PS, o senhor, quando não está calado, está a pôr
velas à Senhora da Asneira.
Só nos
últimos tempos, houve a história do 1 euro para aterrar em Lisboa, do aumento
das taxas na factura da água, da proibição de circulação de veículos antigos,
do perdão de taxas ao Benfica, tudo decisões polémicas, tomadas no âmbito da
sua actividade autárquica.
Deixe que
lhe pergunte: por que não larga a Câmara?
É que esta,
não só lhe rouba tempo para a política nacional, como o obriga a tomar medidas às
vezes impopulares, às vezes incompreensíveis, às vezes apenas parvas, mas que
são aproveitadas contra si, e sem contemplações, pela corja que está no poder.
O grande
tiro no pé, porém, foi dado agora no discurso que fez para chinês ouvir.
Eu sei que o
senhor não queria dizer que o país está melhor, sei que não o disse, que usou a
palavra “diferente”, mas toda a gente percebe que, se quer vender um produto e
diz que ele é diferente, só pode ser para melhor.
O que lhe
aconteceu neste infeliz momento, e que talvez venha a acontecer noutros,
resulta, parece-me, da falta de preparação; daquela preparação que o senhor não
está a fazer, talvez por falta de tempo.
Ao
contrário, o malandreco do Nuno Melo, mais os seus amigalhaços, têm muito tempo,
e estarão sempre à coca para o entalar, não duvide.
Insisto: por
que não deixa a Câmara para o fresco Medina e não se dedica a estudar os dossiês,
a treinar reações rápidas e eficazes, a preparar os discursos e os improvisos?
Vai-me falar
no Jorge Sampaio? Vai-me dizer que ele fez o mesmo e que foi eleito Presidente
da República? Bom, a verdade é que, para além de isso ter sido há vinte anos,
num tempo bem diferente, portanto, o senhor também não é o Jorge Sampaio. Bem
longe disso, aliás.
Sinto, na
sua actuação política, uma desconcertante ligeireza, e uma ausência de percepção
de como estamos todos à beira do colapso nervoso.
Sugiro-lhe
que deixe para lá o Alfredo Barroso, que apenas aproveitou o momento para sair
do PS − não se perde grande coisa, e amanhã já ninguém se lembra, não se preocupe
comigo que já perdi a paciência consigo, mas tente, ao menos, respeitar os
milhares de portugueses que, em Setembro, saíram de casa para o apoiar,
preparando-se condignamente.
O caminho,
para si, e até às eleições, estará sempre pejado de cascas de banana, mas se
largar “o osso” da Câmara evitará uma enormidade delas, vai ver.
Não acredito
que siga o meu conselho, mas será pena.
Curiosidade: este é o milésimo post deste blog.
Curiosidade: este é o milésimo post deste blog.
23 de fevereiro de 2015
Ainda agora começou
Muita gente, do centro para a esquerda, anda por aí a afirmar que a colagem de Maria Luís Albuquerque ao ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, selou o seu fim político.
Na actual
conjuntura europeia, essa certeza não tenho. Mas tenho outra:
Maria Luís
ganhou, na semana passada, as suas trinta moedas.
Isto é,
traindo os nossos interesses, assegurou um futuro lugar em qualquer instituição
da troika – FMI, BCE, Comissão Europeia, tanto faz.
Num dia não
muito distante, vê-la-emos em passada larga, pasta na mão e sonso sorriso de
narizinho franzido, acompanhada por dois outros cães de fila, a aterrar em algum
país que se encontre em apuros para nele aplicar a sua receita de chicote sem
cenoura.
Qual
síndrome de Estocolmo, qual carapuça?! Maria Luís começou, simplesmente, a
tratar da vidinha.
Espera-a uma
carreira internacional − o país é pequeno demais para tanta ambição e desplante.
E tem sorte, porque vive numa época em que a Europa, ao contrário de Roma, paga bem a traidores.
16 de fevereiro de 2015
Citação
“Por vezes o
desgosto ficava próximo, à espera, contido a custo, e eu podia ignorá-lo
momentaneamente. Mas outras vezes era como uma taça que estava sempre cheia e
não parava de transbordar.”
Lydia Davis
Não Posso nem Quero
Relógio d’Água
6 de fevereiro de 2015
Borgen

Às vezes,
demasiadas vezes, interrogo-me se sobre o meu discernimento, por não encontrar
bondade onde tantos outros se derretem, e vice-versa.
Vem isto a
propósito da série Borgen que passa na RTP2, mas que eu nunca tinha visto. Tendo
lido, aqui e ali, bastantes elogios, decidi vê-la agora, no começo de nova
temporada.
E vi: uma
mulher dinamarquesa, que já tinha sido primeira-ministra do seu país, regressa
do estrangeiro e, descontente com o desvio de direita do seu partido,
candidata-se à liderança. Perde.
Num primeiro
momento, afirma na televisão que se retira mas, num segundo momento, decide
formar um novo partido.
Até aqui,
tudo mais ou menos bem, mas também tudo, tudo, já visto no capítulo “Atracção do
Poder”.
O que eu
nunca tinha visto era essa ideia, levada à prática, de formar primeiro um
partido, e pensar o seu programa depois.
Provavelmente,
o programa já nem é importante, ou poderá ser formado apenas pelas “ideias de Brigitte” ; certo é
que, exceptuando a oposição à política de imigração do governo, nada mais ali tem
uma ideia definida.
Ora, isto
parece-me tão inverosímil que não cabe no meu conceito de ficção para adultos.
Numas
instalações manhosas, Brigitte aparece sempre impecável de roupa, cabelo, e
salto agulha, rodeada de gente que defende isto, aquilo e o seu contrário, e
sobre isto e aquilo vai-se dizendo que o partido ainda não tem uma posição
tomada.
Portanto,
improvisa-se.
E o resto é o costume − o centrão e os seus vícios.
Novo, mesmo,
talvez o décor – tudo ali é arquitectura
e design nórdico.
Mas também
isso começa a não trazer nenhuma novidade. E a mim, neste inverno, aqueles janelões abertos para o céu cinzento da Dinamarca apenas me trouxeram mais frio.
4 de fevereiro de 2015
Invejosa, eu?
Por estes
dias, quando olho na televisão as imagens de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis percorrendo
a Europa, lutando por apoios, buscando e tecendo consensos, dizendo coisas
sensatas, certeiras e corajosas, vejo “claramente visto”, que tomaram para si,
muito seriamente, a responsabilidade de representar os gregos.
E apenas os
gregos.
Porém, olhá-los
no seu périplo diário, a fazer POLÍTICA (saudades dela), tem tanto de estimulante
como de deprimente, porque fazer comparações torna-se inevitável.
Por cá, os
nossos governantes, que também aparecem na televisão, tomam cada vez mais a
forma de pigmeus sem miolos, sem afectos, sem empatia, sem estatura moral ou
política, sem coragem, sem pátria.
Mas com donos.
E ainda faltam
oito meses para Outubro.
Invejosa,
eu?Sim, sim, sim.
2 de fevereiro de 2015
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