19 de janeiro de 2015

Ler romances


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Ler romances é um prazer profundo e singular, uma actividade humana absorvente e misteriosa que não exige nem mais nem menos justificação moral ou política do que o sexo.”

Philip Roth
Entrevistas da Paris Review
Ed Tinta da China, 2014

16 de janeiro de 2015

Sinais do tempo que passa


 
Ainda eu era bem menina quando surgiu na televisão o primeiro anúncio aos pensos higiénicos.

Meu pai, comunista e conservador − e não há nisto qualquer contradição, como é sabido − não gostou nada que lhe invadissem a sala com as intimidades da carne feminina.

E, no entanto, aquilo era apenas um pudico começo.

Já a alma, (chamemos-lhe assim para facilidade de entendimento), e se bem me lembro, precisou de mais tempo para despedir o pudor, abrir os seus mais remotos recantos ao público em geral e transformar-se, como o corpo, em objecto de marketing pessoal.

Porém, aconteceu; e falar hoje de intimidade ou recato de qualquer espécie é quase um anacronismo. Tudo é público e partilhável.

As redes sociais, entretanto massificadas, fornecem excelente palco a todos os “marketeiros”, dando os mais novos primazia ao marketing da carne, enquanto os mais maduros, por vontade ou, talvez, por necessidade, se dedicam, preferencialmente, ao da alma.

Escrever sobre pai, mãe, amantes, amores, desamores, paixões, gostos, depressões, êxtases, habilidades, capacidades e outras façanhas, rende.

Se for bem escrito, e se na escrita se perceber um intelecto cultivado, um gosto requintado e uma vida acima das possibilidades de quem lê, melhor.

Acontece-me, porém, e tenho que o reconhecer, que quando diariamente assisto ao descontraído striptease da alma, com nu integral e sem ponta de constrangimento, relembro, e, pior, experimento, o paterno incómodo que, há muitos anos e por culpa exclusiva do penso higiénico, tomou de assalto a paternal sala.
 
Sinais do tempo que passa.

Imagem: Jean-Luc Godard, 1960, "À bout de souffle"

12 de janeiro de 2015

Honey















 
 
 
 
 
 
“Honey, I rearranged the collection…by artist” é o nome da exposição de Cartazes da Colecção Lampert patente na Culturgest de Lisboa.

“Por que razão tantos artistas, sobretudo a partir da década de 1960, produziram tantos cartazes, na sua maioria para anunciar as suas próprias exposições, não deixando esse meio de comunicação por mãos alheias (de designers, galerias, instituições)?”

Eis a pergunta formulada, e respondida, no folheto de distribuição gratuita que acompanha a exposição.
E quem se dispuser a ir vê-la não sentirá que perdeu o seu tempo, garanto.

Na imagem, cartaz de Robert Rauschenberg anunciando uma exposição sua em 1981, Moderna Museet, Estocolmo, e Palais des Beaux-Art, Bruxelas.

9 de janeiro de 2015

Quando morreu a minha avó




 
Muita gente boa, por estes dias, tem andado por aí a perguntar a propósito dos assassinatos no Charlie Hebdo:

− Por que é que, ó gentes, nunca se indignaram, manifestaram e fizeram semelhante escarcéu com outros massacres, que estão sempre a acontecer, como no Iraque, na Nigéria ou no Paquistão?

E o Ruanda, que dizem? Aquilo é que foi um massacre sem tamanho, um genocídio, uma coisa brava.
Alguma vez se lembraram de fazer, e exibir, papelinhos a diz “Eu sou tutsi”?

Estas pertinentes perguntas remetem-me para uma outra, de cariz mais pessoal, mas que me atormenta há anos:

− Por que é que, quando morreu a minha avó, eu fiquei muito mais triste e sentida que quando morreu a avó da minha vizinha, também ela uma muito boa senhora?

5 de janeiro de 2015

Para o povo













 
 
 
 
 
Títulos lidos (só) no sábado:

 - Portugal perdeu mais de mil jornalistas desde 2007 (RR)

 - 52 mil idosos perderam complemento solidário (Público)

 - Em seis anos mais de 10 mil enfermeiros pediram para emigrar (Público)

 - Mais de 1700 crianças perderam o abono de família, (já não sei onde).

Não percebi logo que memória tudo isto me convocava, mas depois lembrei − o almirante Pinheiro de Azevedo, Primeiro-Ministro de Portugal nos idos de 1975, a dizer, certa vez, no calor do PREC:

 Bardamerda para o povo

2 de janeiro de 2015

(Re) Começo















 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Flaubert ensina-nos a olhar para a verdade e não temer as suas consequências; ensina-nos, como Montaigne, a dormir na almofada da dúvida; ensina-nos a não nos aproximarmos de um livro em busca de pílulas morais ou sociais: a literatura não é uma farmacopeia; ensina a superioridade da Verdade, da Beleza, do Sentimento e do Estilo. E se estudarmos a sua vida privada, ensina a coragem, o estoicismo, a amizade; a importância da inteligência, do ceticismo e da imaginação; a palermice do patriotismo barato; a virtude de ser capaz de ficar sozinho no quarto; o ódio à hipocrisia; a desconfiança nas teorias; a necessidade de falar com simplicidade.”

Julian Barnes
“O Papagaio de Flaubert”
Quetzal

 
Tudo isso e o mais que a vida trouxer neste ano ainda novinho em folha.
Começo ou recomeço.
Aprender ou reaprender.

 
Imagem roubada ao blogue SEGUNDA LÍNGUA, num post intitulado “Portas onde nos apetece estar”