27 de novembro de 2014

A mim chateiam-me, pá!




Gosto da diversidade, mas detesto os que têm que ser sempre diferentes.

Gosto da crítica, mas detesto que ela me apareça (mal) embrulhada em pensamento filosófico.

Gosto de alguma ambição, mas detesto ambiciosos que gostam tanto de subir como de puxar tudo o resto para baixo.

Hoje, o “cante” alentejano foi classificado (e não “elevado”, como dizem os ignorantes) como património imaterial da humanidade.

Eu alegrei-me, sou alentejana, mas também me alegrei quando foi a vez do Douro, ou de Sintra, ou de Angra e, sobretudo, de Évora.

Neste tempo tão desclassificado que vivemos, como escreveu o Daniel Oliveira, “continua a ser a cultura, essa inutilidade, a dar-nos quase todas as boas noticias”.

Classificar (pela Unesco) ajuda a divulgar, preservar, manter vivo.

E não é que, no entrementes, encontrei um intelectual que tem dificuldade em compreender isto, e que se perturba tentando entender o entusiasmo geral?

Ora bolas pr’ó intelectual!

Todos estão no seu direito de ficarem indiferentes, ou até de estarem contra, mas vir, num dia como o de hoje, questionar o unanimismo da alegria do povoléu, é de quem precisa, à força toda, de se pôr em bicos de pés.

Dizem que o país precisa de todos. Talvez, mas a mim chateiam-me, pá!

26 de novembro de 2014

Declaração: sou de Évora e não acredito na Justiça portuguesa








 
 
 
 
 
 
 
 
 
Desde há muito, quaisquer duas linhas de escrita sobre José Sócrates começam obrigatoriamente por uma declaração: não gosto de José Sócrates!
Às vezes acrescenta-se-lhe outra: e nunca votei nele!

Não entendo, e não me lembro de o mesmo se passar com qualquer outro político em 40 anos de democracia.
Não conheço a pessoa em causa e não me sinto obrigada a declarações além da que dá título a este post.

Conheço apenas o político e, nessa condição, penso que José Sócrates tomou boas e más decisões, havendo uma grande diferença entre o seu primeiro e o seu segundo mandato.

Porém, também não me lembro de, em democracia, alguém sofrer tantos ataques políticos e pessoais, ou duma perseguição tão sistemática, tão bem orquestrada e tão bem dirigida.

Não foi cabala, não, foi política pura, dura e suja.

Claro que Sócrates cedo se pôs a jeito e tinha telhados de vidro.

O curso “mal” tirado e as “casas” assinadas na Beira são coisas próprias dum pequeno trafulha português; há-os aos montes, mas não se pode fazer parte da horda dos pequenos vigaristas se se quer ser primeiro-ministro.

Vaidoso, arrogante, teimoso e auto-suficiente, José Sócrates ousou bulir com os interesses instalados, a começar pelos juízes e magistrados; e isso paga-se muito caro por aqui.

Ouso dizer que, mais cedo ou mais tarde, pode pagar-se com a cadeia.

E ouso dizê-lo porque esse é o corolário lógico do sentimento que há muito me domina: enquanto quase todos se apressam a dizer que confiam na justiça, eu por acaso não confio. Mesmo nada!

Estou convencida de que, daqui por vários anos, quando tudo isto acabar, estarei como hoje − se me perguntarem se Sócrates é culpado ou inocente, embora eu possa ter alguma convicção minha, honestamente, só poderei responder: Não sei!

Porque não acredito na Justiça portuguesa até que ela me dê provas de que posso acreditar, deixando de ser essa coisa opaca, burocrática e discricionária que é hoje.

Aqui chegados, quero saudar todos os amigos de Sócrates, quer os que já o visitaram, quer os que o vierem a visitar na cadeia.

Sou alentejana, de Évora (olha a coincidência). No resto do país, não sei, mas lá no Alentejo diz-se que os verdadeiros amigos se conhecem na cadeia e no hospital. Touché.

E agora, venha o próximo escândalo. Depois de, em poucos meses, termos visto a queda do BES, a ruína da PT, o escândalo dos vistos gold, a prisão dum ex-primeiro-ministro, e de nos termos distraído dum Orçamento para 2015 que nos fará ainda mais pobres, começo a acreditar no Ulrich: o povo aguenta.

Abençoado povo que tudo aguenta.

 

 

24 de novembro de 2014

Kit de sobrevivência






















 

Na sua crónica no Ípsilon de 21 de Novembro, António Guerreiro escreve a dado passo:

“A crónica Vale a pena ler livros novos? (de José Pacheco Pereira no Público) colocava, sem desvios, a questão de saber se algum ganho pode advir de gastarmos tempo a ler as novidades (…), um tempo precioso que nos faz falta para lermos os valores seguros do património literário do passado. A questão é muito pertinente. Podemos tentar responder-lhe desta maneira: se queremos compreender a nossa época, temos de correr o risco de sermos intoxicados por ela.”

Eu continuo a querer compreender mas, por estes dias, estou tão intoxicada que, se não “abrir as portas e janelas” corro risco de me ficar na intoxicação.

Ontem resolvi, portanto, ir ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian ver a exposição “Animalia e Natureza na Colecção do CAM” . Encontrei arte contemporânea (sobretudo a partir da década de 1960) a que se adere facilmente, e um grande número de trabalhos que nos lavam os olhos e a alma; diante deles, diremos simplesmente –  bonito, muito bonito.
E isso não é coisa pouca.

Aproveito e informo, com agrado, que a exposição dura até Maio de 2015, e ao domingo de manhã não se paga.
É que os tempos de grande intoxicação parece que estão para durar, e todos precisaremos de um kit de sobrevivência.

Nota: na imagem, um pássaro bem vivaço de Ana Marchand que integra esta exposição.

17 de novembro de 2014

Empanturrados













 
 
 
Pedro Santos Guerreiro escreveu ontem à noite, no Expresso online, sobre a demissão do ministro Miguel Macedo.

Termina dizendo:

“O ministro é inocente e fez bem em demitir-se. Mas apenas abriu a porta da rua por onde mais algumas pessoas vão ter de passar. Andamos empanturrados com tantos escândalos. Mas não acostumados a eles.”

Eu, pelo contrário, acho que nos habituamos a tudo, e cada vez mais depressa.

Peter Kassig, de 26 anos e ex-soldado no Iraque, tinha-se convertido ao islamismo e fundou uma organização humanitária em 2012 - "Resposta e Assistência Especial de Emergência" para auxiliar as populações na guerra da Síria. Foi lá que foi sequestrado.

A notícia da sua decapitação pelo Estado Islâmico, na semana passada, parece já não ter incomodado ninguém por aqui, ou quase.

Empanturrados de informação e escândalos domésticos que estamos, a notícia da sua morte horrível já foi empurrada um pouco mais para baixo nas páginas dos jornais.

O Pedro Santos Guerreiro se calhar ainda não reparou que até à barbárie nos vamos acostumando.

Mais cabeça, menos cabeça…

11 de novembro de 2014

Ide, ide pentear macacos












 
 
 
 
Estou fartinha de pagar para entrar em Lisboa, venha eu de onde vier.
Taxas sobre o turismo não me chocam.
O turismo não tem só vantagens, e há que reparar os danos.
Por essa Europa fora tudo é pago – até o inevitável xixi.

Mas, quando penso que os nossos filhos emigrados, chegando à Portela, vão ter que pagar uma taxa turistica, bom, aí fico mesmo enxofrada, e só me apetece dizer ao Costa que vá pentear macacos.

É o que estou fazendo, como se pode ver!

Imagem: Rumble Fish, Francis Ford Coppola, 1983