30 de setembro de 2011

“Apenas Miúdos”

“Apenas Miúdos” de Patti Smith, é um enorme fresco sobre a cidade de Nova Iorque dos anos 1960/1970 e os seus artistas. É também a história do crescimento duma rapariga de Chicago, ingénua e higiénica, que se transforma num ícone dessa geração.
“Apenas Miúdos” é ainda, e talvez sobretudo, a história da relação de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, história intensa de amizade e amor, no mais lato sentido do termo, do seu crescimento em conjunto, quando tomavam conta um do outro e viviam numa sintonia rara.
Um bom livro, mas apenas para quem tem memórias e referências desse tempo e gosta de as ver contadas na primeira pessoa.

29 de setembro de 2011

Ministro da (des)educação



O ministro Nuno Crato, soube-se ontem, decidiu cancelar a entrega de 500 euros aos melhores alunos do secundário, como prémio de mérito, e canalizar essas verbas para ajuda às famílias dos alunos carenciados ou para projecto das escolas, conforme as variadas versões que correm. Tudo nesta situação cheira a história mal contada e a desnorte ministerial.
Um prémio pecuniário para o sucesso académico nestes níveis de ensino sempre foi para mim uma má política, quer em casa quer na escola. Se o aluno faz o melhor que pode, não faz mais que a sua obrigação e sabemos que uns podem mais que outros intelectualmente. O esforço deve ser apreciado, mas não com euros.
Professor e já entradote no tempo, Nuno Crato devia saber que, quando se faz uma promessa a um jovem ou criança, devemos cumprir, porque nesse cumprimento está todo um exemplo de vida. A sua decisão mais não faz do que pretender mascarar um mero corte na despesa com a uma hipotética melhor ideia. Há dinheiro, mas afinal vamos dá-lo aos pobrezinhos ou a projectos, ou à compra de material, diz o ministro aos estudantes.
Pois se há dinheiro, há que cumprir a promessa, embora o ministro tenha toda a legitimidade para anunciar, desde já, que tal coisa não se fará mais, porque dela discorda
Esta decisão, completamente deseducativa, é para estes jovens o início de um longo e doloroso processo de aprendizagem sobre uma trágica verdade – o Estado, em Portugal, não é uma pessoa de bem, diz e desdiz, dá e tira, baralha e dá de novo, conforme a conjuntura e o que passa pela cabeça de cada governante. Dói.

28 de setembro de 2011

Finalmente o Álvaro, não ao vivo, mas a cores

Depois de, na semana passada, ter aqui falado duas vezes sobre o sumiço do Álvaro, preocupação partilhadas por milhões de portugueses, o homem lá apareceu na 2ªfeira nos Prós e Contras.
A Fátima estava contente, conseguiu o” furo”, nessa noite ia acabar a desgraça habitual e alguém nos iria dizer que há luz ao fundo do túnel. Apareceu o empresário de sucesso dos sapatos, o senhor da COTEC um tanto entorpecedor, a malta do turismo, verdadeiramente à rasca, o empresário português que vai para Silicon Valley (esperemos que pague aqui alguns impostos) e aquele inevitável rapaz especialista em expertise que me parece sempre uma mistura de Tino de Rãs do empreendedorismo com um Jel de sinal contrário. Disse o rapaz uma coisa que pôs toda a gente a rir e a abanar a cabeça – no mundo há 2 grupos, os que choram e os que vendem os lenços. Foi preciso vir o sindicalista para lembrar que também há os que fazem os lenços, mas percebeu-se logo que a plateia e o ministro pensavam como a D. Teresa, ou seja, ” isso agora não interessa nada”.
O ministro falou dos investimentos da bitola europeia, dos portos, dos 35000 desempregados que vão trabalhar por 420 euros (diz que é para fazer formação), da fila de empresas estrangeira que há na porta do seu ministério a quererem investir em Portugal e garantiu que, em poucos anos, o país nunca mais será o mesmo.
Também me parece.
E não, não dormi mais descansada depois da “aparição” do Álvaro.

27 de setembro de 2011

Fazer mais com menos? Chamem a turma do Harry Potter

Na revista Única do Expresso de 24 de Setembro, Luciana Leiderfarb escreve um longo artigo dedicado à cultura, a que chamou “Será este o outono das artes?”
Transcrevo parte do último parágrafo porque o subscrevo:


“…a conversa de mau taxista, nas palavras de António Pinto Ribeiro, chegou à boca dos governantes. Para este ensaísta e programador, é o momento de a comunidade artística apresentar propostas concretas. O momento de se começar a reconhecer cabalmente que a “marca” Portugal vende mal ou não vende em muitos domínios “excepto no da cultura, dos criadores, escritores e cientistas”. Sabe o contribuinte que a sua comparticipação anual para a cultura, em termos de impostos directos, ronda os três euros por mês? E que a economia da cultura é hoje das mais rentáveis e mais capazes de gerar trabalho?”, questiona Pinto Ribeiro. Tudo mudaria, é claro, se quem detém o poder consumisse cultura como uma prática normal. Haveria então a percepção de que, sem a intervenção do Estado, o tecido artístico do país “não sobreviverá, como não sobreviveria em França, na Alemanha ou no Brasil. Como a agricultura, as pescas ou o comércio não subsistem sem políticas económicas de investimento…”

“Fazer mais com menos”, eis a grande divisa dos nossos governantes. Será que alguém acredita nisso quando o menos já é tão menos que até a troika achou que não se podia cortar nada na cultura e na ciência?
Parece que o FJ Viegas acredita, e como tem muitos amigos no meio todos se estão a fazer de cegos, surdos e mudos. Eu não acredito nem na divisa nem no Viegas. Mas decidi dar o benefício da dúvida mais um tempo, esperando estar redondamente enganada.
Pelo sim, pelo não, se é para fazer magia o governo devia chamar o Harry Potter a ver se ele conseguia fazer mais... de quase nada.

26 de setembro de 2011

A mulher ensandeceu

Disse ela, segundo o Expresso online:

Angela Merkel defendeu o agravamento de sanções a países da zona euro que não cumpram os critérios de estabilidade, incluindo a perda de soberania, em entrevista no domingo à televisão pública ARD.
"Quem não cumprir, tem de ser obrigado a cumprir", afirmou a chefe do governo alemão, sugerindo ainda alterações aos tratados europeus para que os países prevaricadores possam ser processados no tribunal europeu de justiça, se necessário.

Com toda a soberania que já perdemos, só nos falta mesmo que ela escolha um alemão para nosso primeiro-ministro.

Nós e a chinela

Muito se tem escrito ultimamente sobre a Madeira e o seu governo.
Há quem conheça bem a realidade do arquipélago, como aqui, e nos mostre as razões para o que por lá acontece.
Aqui, pensa-se que a democracia não permite criminalizar os responsáveis políticos e que devem ser os eleitores a puni-los.
São pontos de vista válidos e que podem enriquecer o conhecimento e o pensamento de quem os lê mas, creio, ninguém tem dúvidas de que Alberto João Jardim vai renovar a sua maioria absoluta.
Para além de todas as boas razões apresentadas, do real défice democrático na Madeira e do sentimento de vitimização que os madeirenses devem estar a experimentar neste momento, creio que há uma outra poderosa razão para a reeleição de Jardim – o pouco ou nenhum valor que os portugueses, hoje em dia, dão à ética e à moral, parceiras indispensáveis dum julgamento político em democracia.
Somos muito moralistas e indignamo-nos quando sabemos de compadrios e favorecimentos, corrupção dos “poderosos” e ganhos ilícitos mas, ao pé da nossa porta, e em concreto, preferimos esquecer. Não é nosso hábito reeleger Isaltinos, Felgueiras, Loureiros ou Avelinos? Desde que façam obra, a gente quer lá saber. São todos iguais, e este, ao menos faz. Também é frequente que nos seja transmitida uma ideia do tipo - tens é inveja do sucesso deles.
Há um fatalismo egoísta e amoral em afirmações destas que, em síntese, desprezam os valores democráticos e escondem uma outra característica dos portugueses: demasiadas vezes “foge-nos o pé para a chinela”.

24 de setembro de 2011

English spoken

A rapariguinha do shopping, tendo sido interrogada por uma colega sobre o paradeiro duma outra, responde lampeira:
 
- Está lá fora a fazer o break
 
Criticar a educação em Portugal, só mesmo por má vontade
   






23 de setembro de 2011

Tribos e nostalgias

No passado dia 19, muitos se lembraram que 30 anos antes acontecera o memorável concerto de Simon e Garfunkel em Central Park.
A propósito dessa pequena e ternurenta nostalgia, lembrei-me duma conversa tida, não há muito tempo, com jovens agora na casa dos 30. Dizia-lhes eu que nunca tinha existido uma geração que ficasse nostálgica tão cedo, dado que todos cantam em uníssono as músicas dos desenhos animados da sua infância, evocam e comentam os heróis dos mesmos, numa vívida orgia de prazer revivalista.
Eles explicaram-me que eram a última geração a fazer tal coisa (daí, se calhar, o gozo), porque, havendo só dois canais de televisão mas já massificados, foram os últimos a viver a situação de todos verem exactamente o mesmo; depois deles, cada um passou a ver o que quer, tal a quantidade da oferta de canais televisivos, internet, DVD etc. Com eles acaba esse sentimento de pertença a um tempo unificado; não haverá outra geração unida pelos desenhos animados, a ida para a escola a pé e em bandos, o jogo da bola na rua, a queda das bicicletas no meio do nada. Eles são, talvez, a última tribo geracional.
Nós, os que, a 19 de Setembro de 1981 assistimos pela televisão ao concerto de Simon e Garfunkel em Central Park, também fizemos parte duma (muito mais pequena) tribo, para quem alguns discos de vinil e alguns (poucos) concertos, ajudaram a cimentar a identidade e a pertença.
No dia 1 de Setembro de 2011, a velha tribo também teve o seu momento de nostalgia e celebrou-o no ciberespaço. Mas, claro, sem coro.

22 de setembro de 2011

Cow Parade

Descoberto o fraquinho do Presidente, proponho que se instale em Belém, e até 2015, uma Cow Parade permanente para uso exclusivo do locatário mas com abertura ao povo aos domingos.

O Ministro, o jornalista, sua crónica e eu.

Há neste país jornalistas que, na ânsia de defesa dos governos do seu coração, chegam a ser patéticos
Logo depois de ter posto o pequeno post de ontem sobre o “desaparecimento” de Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, calhou ler a crónica de João Vieira Pereira no caderno de Economia do Expresso de 17 de Setembro a que deu o título "Aguenta Pereira"
Escreve o referido jornalista (será?) que é conversa de café comentar que o ministro não anda a fazer nada, visto que “anda longe dos holofotes mediáticos”, e sai em defesa do governo, e sobretudo dos ministros ditos independentes, que certamente andam todos a trabalhar muitíssimo e que não têm tempo para aparecer nem paciência para agendas mediáticas (ao contrário dos energúmenos anteriores, como se depreende).
Respondo, como é óbvio, só por mim. Para começar, tomo o café ao balcão, raramente vejo televisão mas dou-me ao trabalho de ler crónicas patéticas como as de João Vieira Pereira, “parva que sou”.
E sim, acredito que o ministro esteja a trabalhar, até porque foi para isso que o elegeram e é para isso que todos lhe pagamos, mas também estou preocupada que um homem que escreveu tantos livros e que para tudo tinha solução, ao fim de 3 meses ainda não nos tenha dito nada. É que, por um lado, ao acho normal que esteja a trabalhar, mas também acho normal que vá prestando contas desse trabalho aos palermas que por aqui andam sem fazer nada. Sei que isto é uma esquisitice, ou até mau feitio, mas cada um tem lá as suas manias.
Por outro lado, estou farta de ouvir e ler que “até com contas de merceeiro” se percebe que não vamos conseguir pagar aos agiotas com quem nos metemos, e por isso eu gostava que o Sr. Ministro partilhasse connosco as suas ideias sobre como vamos dinamizar a economia e criar mais riqueza. Até agora, ainda só ouvi falar de finanças mas, na minha santa ignorância, acho que finanças e economia são quase gémeas univitelinas, são muito unidas e quase não fazem nada uma sem a outra.
Com todo o respeito pelo Álvaro e o seu trabalho longe dos holofotes, parece-me que vai sendo tempo de ele arranjar tempo para falar com a malta, com ou sem agenda mediática, ou lá como é que isso se chama.
E ainda lhe digo mais, João, os jornalistas de serviço ao governo começam a não ser suficientes para manterem sossegaditos os “comentadores esporádicos” e os “especialistas em conversa de café” como lhes chama.

21 de setembro de 2011

SMS para o Álvaro

Olá Álvaro, que é feito de si?
Dê notícias ou, de preferência, apareça quando puder.
Sabemos que a TSU o anda a afastar dos amigos mas cá em casa todos estamos cheios de saudades.
Sua sempre amiga
Economia

20 de setembro de 2011

Muitas perguntas e uma resposta (torta)

No seu blogue 2 Dedos de Conversa, Helena, que vive na Alemanha, publicou no dia 18 de Setembro, um post com o título “não é preciso que tenham pena dos alemães, mas…”, em que escreve a determinado momento:

Entretanto a notícia do dia é esta: se as coisas correrem mal, pode ser que os contribuintes alemães tenham de entrar com 465 mil milhões de euros para salvar o euro. Em dinheiro vivo, se bem entendi.

Fiquei a pensar que isso não é nada comparado com os 1,3 biliões de euros que já custou a reunificação alemã.
E pergunto:
O resto da Europa não contribuiu para essa pequena despesa da Alemanha? Foi toda paga pelos alemães ocidentais?
“Salvar” 18 milhões de alemães de leste é mais importante que salvar todo um continente belicoso com 500 milhões de indígenas?
E pergunto ainda:
Quem construiu o euro à sua medida? Foi Portugal? Foi a Grécia? Ou terá sido a Alemanha?
Não admitiu já o presidente do BCE que se tem andado sempre a fazer com o euro e as taxas de juro o que convém à Alemanha e à França?
Quem, verdadeiramente, lucrou com o euro até agora?
E ainda faço outra pergunta:
Não é a direita, que está no poder em quase toda a Europa, que defende sempre o princípio do “Utilizador/Pagador”?
E agora não pergunto, respondo:
Se é essa a máxima, cumpra-se.

19 de setembro de 2011

Confirmadas as piores previsões de Van Zeller

Segundo os jornais, o Ministério da Administração Interna será o único a não ter cortes, antes pelo contrário. Pretende-se acalmar os polícias, vítimas de muitas injustiças, ao contrário de todos os outros portugueses. E porque devem estar calmos e bem dispostos? Porque se avizinham motins, ruas incendiadas, protestos, e é preciso que estejam prontos e com disposição para a bordoada.
Este é o pensamento governamental. Por mim, acho que se vão arrepender de fazer essa despesa porque ela não será necessária. Já se viu povo mais ordeiro, cumpridor e pagador? Veja-se o caso da dívida destapada da Madeira. Esperei durante todo o fim-de-semana que alguém tivesse uma ideiazita para exprimir a indignação colectiva; não precisava de ser nada muito elaborado nem de nos tirar o rabo da cadeira, e até os polícias podiam participar numa brincadeira do tipo daquela que fizemos com o Bill Clinton por causa de Timor. Lembrei-me que, por exemplo, podíamos entupir as caixas de correio electrónico do governo regional com minutas de facturas do tipo:
Festas com palhaços – 1700 milhões de euros
Festas com fogo-de-artifício – 1700 milhões de euros
Festas diárias durante 31 anos - 1700 milhões de euros
Mas não, não aconteceu nada, a não ser quilómetros de douta prosa sobre o assunto.
Quando vi as declarações do ex-patrão dos patrões Francisco Van Zeller que disse:
“O povo tem de ir para a rua protestar contra os "sacrifícios" impostos pelo Governo e as políticas de austeridade da 'troika'. Se não for feito, "ou somos parvos ou estamos mortos", confirmei que somos parvos e estamos mortos; só o governo ainda não percebeu. Sorte a dos polícias.

17 de setembro de 2011

Humor

"Troika desbloqueia mais 11 mil milhões: Jardim diz que dá para chegar até meados de Setembro"

Em Imprensa Falsa, um blogue para o alívio da dor de cabeça.

16 de setembro de 2011

Nós por cá, todos na mesma (ou quase)

Neste post do seu blogue A Terceira Noite Rui Bebiano analisa um estudo recente sobre o crescente interesse dos jovens portugueses pela leitura. Desconfia do dito estudo, e eu com ele, mas permito-me discordar, quando pergunta o que acontecerá nas outras áreas de estudo se na das letras (que conhece melhor) se lê tão pouco; pela minha experiência pessoal de contacto com jovens, posso garantir que os das áreas científicas são mais interessados, curiosos, lêem mais e fazem perguntas mais pertinentes.
Logo de seguida li a notícia do Expresso online com o título Plágio alastra nas universidades portuguesas em que se diz que 70% dos universitários portugueses confessam já ter copiado.
O que há de comum nesta notícia do Expresso e no post de Rui Bebiano ? Nada e quase tudo.
Se é certo que se lê pouco agora, também o era no tempo em que Rui Bebiano e eu própria éramos estudantes – a maioria não punha o olho num livro a menos que a isso fosse obrigada. Havia excepções, havia até grandes leitores, tal como hoje.
No mesmo tempo passado também se copiava, por vezes com muita arte e imaginação, tal como se copia hoje.
Contudo, com 100% de jovens no ensino obrigatório e quase 400 000 no ensino superior (e com o esforço financeiro que fazemos para que tal aconteça), seria de esperar uma muito mais profunda transformação dos comportamentos no que respeita à leitura e à busca de conhecimento.
Quanto ao copianço, é do domínio da ética e essa, como se sabe, já há muito tempo que saiu da generalidade da sociedade portuguesa viajando para parte incerta. Duvido mesmo que volte.
Assim sendo, e foi aí que encontrei afinidades entre o post e a notícia, podemos concluir que, pesar das inúmeras melhorias, a nossa evolução em muitos domínios é mínima, ou seja, nós por cá estamos na mesma (ou quase). A diferença é apenas de escala.

15 de setembro de 2011

Beijinhos

Na revista Única do Expresso de 10 de Setembro, Nuno Markl publica uma crónica tão divertida quanto certeira e crítica, sobre as senhoras que dão apenas um beijo e nos deixam de cabeça ridiculamente esticada à espera do segundo.
Não sei quando é que as “tias” fizeram o congresso em que declararam guerra à possidonice dos dois beijos e adoptaram o beijo único como traço distintivo da sua subclasse. Mas já lá vão uns anos desde que tivemos de começar a pensar, antes de beijarocar, se aquela é das que nos vai deixar de cara à banda, ou não.
Muito me espanta, porém, que homens como o Nuno Markl ainda não tenham tirado essa pedra do seu caminho voltando a usar o velho aperto de mão.
Pessoalmente tenho saudades dele; era uma espécie dum (muito subjectivo) cartão-de-visita dos homens que me apresentavam.
As mãos são muito variadas – grandes, pequenas, gordas, ossudas, secas, húmidas, ásperas, macias, e com elas se opera um aperto de mão vigoroso, mole ou assim-assim.
Essas mãos e respectivo cumprimento davam-me uma ideia muito mais definida da pessoa que tinha na minha frente que todo o resto do seu aspecto físico (vestimenta incluída).
Mas, foi-se. Já não há disso. Cada homem que acabo de conhecer espeta-me imediatamente dois amistosos beijos como se fossemos amigos de longa data, e eu, confesso, na maior parte das vezes não tenho capacidade de antecipação para forçar o antiquado aperto de mão.
Fico com os beijos, e pronto. Há ainda os mais jovens, que também dão um só beijinho porque foram ensinados assim de pequeninos, e esses eu até desculpo.
Só não desculpo mesmo quando, logo depois do singelo ósculo, me começam a tratar por “tia”.
Aí, Deus me valha, que eu fico absolutamente possidónia e piursa.

14 de setembro de 2011

Protectorado e seu protector

Percorrendo os títulos dos jornais de 13 de Setembro

Um protectorado chamado Portugal:
- Troika quer medidas adicionais de corte na despesa equivalentes a 0,6% do PIB em 2012- Público online
- Troika adia reforço do poder dos reguladores para final de 2012 - Público online.
- Técnicos da troika em Lisboa para discutir redução da Taxa Social Única – Público online.
- Governo disponível para tomar mais medidas de austeridade - JN online
- Carlos Moedas: "Vamos enfrentar mais dificuldades" – JN online
- Troika avisa que Portugal está em falta na TSU - Expresso online

O protector tem a casa a arder e recusa chamar os bombeiros:
- Risco de default da Grécia salta para 98% - Público online
- Juros da dívida grega a dois anos ultrapassam os 90% . Público online
- Merkel recusa insolvência descontrolada da Grécia – Público online
- Grécia diz que só tem dinheiro até Outubro - Público online
- Obama diz que Espanha e Itália são o “maior problema” da zona euro Público online
- Europa está "à beira do precipício", diz Felipe Gonzales - Expresso online

Nem sei se deva começar já a deprimir ou se espere mais um pouco para quando cairmos no precipício.
Acho que espero. O antidepressivo só perde a validade daqui por seis meses.

13 de setembro de 2011

Isto vai


É com grande satisfação que vejo, em 2011, uma mulher na presidência da Assembleia da República e outra Presidente do PS.
Isto vai, e no tempo das netas que um dia terei, a paridade na política será total.
Tenho a certeza, e com ela me conforto.

12 de setembro de 2011

O pecado mora em todo o lado

Como se sabe, a descoberta da pílula anticoncepcional foi um importante contributo para a independência das mulheres. O seu uso generalizou-se mas, em Portugal, há demasiadas mulheres demasiado pobres para a poderem comprar sem comparticipação.
A direitíssima que temos no poder em Portugal, munida de tesoura de poda, bisturi, serrote, machado e instrumentos cortantes afins, colou uma venda nos olhos e desatou a cortar na gordura do Estado.
A pílula anticoncepcional passou a ser gordura da saúde e vai daí, corta-se, ou seja, quem a quiser que a pague por inteiro. Para a direitíssima religiosa portuguesa, usá-la até será um pecado e todo o pecado deve ser castigado, como se sabe.
O pecado mora em todo o lado, como se sabe também, e por isso vão acontecer duas coisas: quem tiver dinheiro para a comprar, compra, quem não tiver, aborta.
Logo de seguida a direitíssima portuguesa gritará aqui d’el rei que o número de abortos está a aumentar e isso não é bom; por um lado, a santa madre igreja desaprova, e por outro isto está a sair muito caro ao SNS.
Será então a hora de cortar essa gordura e vermos Paulo Macedo a dizer – não há cá mais abortos grátis. Por fim irá à missa, comungará e dormirá na paz dos justos, com a certeza do dever cumprido como católico e ministro deste baldio estéril e abandonado por Deus.