27 de novembro de 2013

Nada


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Não percebo o alarido que houve com esta notícia de há uma semana.

Acho absolutamente normal que o Secretário de Estado da Cultura necessite de três adjuntos, sete técnicos especialistas, duas secretárias pessoais, um chefe de gabinete, dez técnicos administrativos, três técnicos auxiliares e três motoristas, para fazer NADA.

Acho mesmo que é o pessoal mínimo para tanto Nada.
Por isso acho também normal que tenha contratado um novo assessor, para o ajudar a fazer um pouco mais de Nada.

Gosto de ver as pessoas a progredirem na vida, como o tal Mestre João Filipe Vintém Póvoas, de 24 anos, o contratado.
Este pobre, só tinha um Vintém, já nem os três tinha, mas agora passa a ter todos os meses uns 3069 euros. 

Criticar isto é ser invejoso; e isso é feio, muito feio.

O senhor Secretário de Estado da Cultura, perante tanta inveja, veio pedir que o deixássemos gerir os seus recursos humanos.
Ó senhor Secretário, por quem sois. Nós, portugueses não só o deixamos gerir os SEUS recursos humanos como o deixamos gerir o NOSSO dinheiro.

Dizem que o senhor se preparou a vida inteira para ocupar este lugar; então não havíamos de querer que fosse feliz nele?
Veja se precisa de mais alguém para o ajudar. Nós já estamos por tudo, de tal modo que já nem saímos da posição dos patinhos na canção infantil − “…cabeça para baixo/rabinho para o ar” − lembra-se?

E isto também é cultura a preservar.
Txiii, quanto NADA para fazer!

26 de novembro de 2013

Declaração de amor














 
 
 
 
O meu. Por Amos Oz, escritor israelita, natural de Jerusalém, nove anos mais velho que o Estado de Israel, 74 anos de idade, 30 a viver num kibbutz, muitos outros em Arad, às portas do deserto, agora em Telavive; também combatente nas guerras de 1967 e 1973, activista pela paz e defensor da existência de dois Estados – Israel e Palestina.

Li a entrevista que deu ao Expresso desta semana, palavra a palavra, frase a frase, como quem saboreia um pitéu raro.
Amos Oz é, também ele, um ser raro, dotado de inteligência, ponderação, sensatez, brilho intelectual, sabedoria e modéstia em doses sumptuosas.

Perguntam-lhe no fim da entrevista: Pode a escrita ser um fardo?
 
Totalmente. É um trabalho duro. Se escrevo um romance com 55 mil palavras, tenho o mesmo número de decisões a tomar. Cada palavra é uma luta.
 
Quem escreve alguma coisa sabe que assim é.
No caso de Amos Oz é uma luta sempre ganha, e que nunca deixei de lhe agradecer no final de cada livro.
Raça de homem que me fascina.

Nota: Já aqui  falei sobre um dos seus melhores livros

 

25 de novembro de 2013

É hoje

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 




 

O  Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres.

E este ano já morreram 33.

Ser do contra











 
 
Várias organizações, entre as quais o movimento Não Apaguem a Memória, vão realizar, no dia 7 de Dezembro, uma sessão comemorativa do 40º aniversário do III Congresso da Oposição Democrática realizado em Aveiro a 7 de Abril de 1973.

Caracterizado por uma brutal carga policial, e congregando sectores ideológicos democráticos muito variados, aquele foi um importante momento na luta contra a ditadura.

Uma frase proferida por Pacheco Pereira na reunião das esquerdas em defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social, salvaguardando todas as enormes distâncias, lembrou-me esse momento de 1973, quando os portugueses se dividiam em duas grandes categorias – “da situação” e “do contra”.

Nesse “contra” cabia tudo − socialistas, comunistas, maoístas, católicos progressistas, sociais-democratas, democratas cristãos, trotskistas e o que mais houvesse.

Hoje, deixando de lado a política partidária com as suas querelas, mas também com as suas justas e indispensáveis diferenças, os cidadãos comuns agrupam-se, cada vez mais, como em 1973 – há os “da situação” e os “do contra”. 

Daí fazer, para mim, todo o sentido a frase de Pacheco Pereira:

“Neste momento, o que nos deve unir não é aquilo que defendemos, mas aquilo a que nos opomos".

Uma pequena e certeira frase que contém a real dimensão do retrocesso político e democrático português verificado em apenas dois anos e meio.

 

22 de novembro de 2013

Beijos fardados e “às armas” à civil










 
 
 
 
 
 
 
 
Já hoje vi escrito que ainda um dia me vão perguntar onde é que eu estava na noite de 21 de Novembro 2013, dada a importância da data.

Peço licença para discordar da importância e responderei, na eventualidade pouco provável de a pergunta vir a ser feita, que estava em casa a ver televisão. E o que viram os meus olhos?

Uma coreografia policial de pouca qualidade.

Eles subiram, confraternizaram com beijos, abraços e apertos de mão, desceram, e foram jantar que já se fazia tarde.

Foi giro, e eu até fiquei ali um bocado diante da televisão a ver se, afinal, era a bófia que ia rebentar com aquilo tudo, mas qual quê?

Estavam combinados, são todos amigos e gente de paz. Só não sei com que argumentos irão dar na cabeça dos próximos que quiserem subir as escadas.

Também vi, claro, Mário Soares a gritar “às armas” na sua peculiar forma de cantar o hino, e nele vi ainda um idoso, bastante idoso, com muita raiva e cheio de ódio ao outro homem que agora ocupa o lugar que já foi seu – a Presidência da República.

A sala estava cheia de gente duma faixa etária que a coloca mais p’ra lá do que p’ra cá, e que não tenho a certeza que tenha percebido o quanto o mundo mudou, e com ele as pessoas, evidentemente, as suas opções e as suas formas de participação cívica.

De qualquer forma, aquilo deve ter sido um serão tão agradável como inócuo; a prova disso está na ausência de chamadas de capa para a notícia em todos os jornais do dia (apenas o DN o faz).

Devo estar a ficar demasiado céptica, quando não cínica, porque os acontecimentos de 21 de Novembro, aos meus olhos, nada mais foram do que risíveis, e amanhã já ninguém se lembra.

 
Nota: a imagem foi roubada ao João Tunes no Facebook

Coisas que me desaquietam


 
 
 
 
 
 
 
Ainda um dia gostava de perceber porque é que os gajos que têm a mania que são zen, e passam a vida a dizer que é preciso matar o ego, gastam tanta energia a inflar o deles como a pisar o nosso.

 



21 de novembro de 2013

Gosto de abraços, pronto


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Que diferentes somos

"A cadeia sueca de televisão TV4 teve uma ideia bastante simples, mas muito fixe! Colocaram uma câmara sempre a gravar Ibrahimovic e outra sempre em cima de Cristiano Ronaldo, depois foi só juntar os cinco golos – três do português e dois do sueco – num único vídeo com as reacções de ambos." (E não só, digo eu)

 
Ver aqui o vídeo que roubei ao Sérgio Lavos no Facebook
Gosto de abraços, pronto!

 

 

20 de novembro de 2013

O mááááior


 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nos tempos modernos, não conheço nada mais agregador que uma selecção de futebol.

E julgo que não será só aqui no rectângulo.

Novos e velhos, ricos e pobres, letrados e iletrados, da capital ou das berças, autóctones e expatriados, todos torcem, sofrem, rangem os dentes e vibram com a selecção.

Assim deve ter sido ontem pelo mundo inteiro, porque os portugueses são como Deus Nosso senhor, isto é, estão em todo o lado.

Aqui em casa gritou-se golo quando era e quando podia ter sido.
Os meus amigos e amigas do Facebook tiveram palpitações, disseram que não se aguentava, sofreram que nem desalmados, escreveram várias vezes Gooooooooooolo e Ronaaaaaaalllldo.

Escreveram ainda coisas divertidas e entusiásticas como: Ronaldo é o máááior; um verdadeiro campeão; "leva-nos" ao mundial; Ronaldo a presidente já!, e até os mais insuspeitos de perderem tempo com o futebol lhe tiraram, literalmente, o chapéu.

Mas o meu comentário de eleição, porém, foi dum amigo que escreveu:

“Até lhe perdoamos os Ferraris e outras merdas”.
Tendo a concordar.

19 de novembro de 2013

Livre










 

Se o jornalista o diz tão bem...
 
"...A criação de uma nova plataforma política surge assim como o gesto natural e necessário para defender posições que possam ser adoptadas pelo povo de esquerda em geral, que possam ser propostas aos outros partidos e que possam mobilizar os muitos abstencionistas de esquerda. Um novo partido pode roubar votos aos existentes? Pode, mas isso dependerá das propostas que apresentar e da vontade dos eleitores. É importante ter em conta que os eleitores, mesmo quando votam num partido, não são sua propriedade e não podem ser “roubados” por outro partido. Os eleitores deslocam livremente os seus votos, segundo a sua vontade. Se um partido capta eleitores de outro, tem toda a legitimidade para o fazer e tem, provavelmente, mérito. Mas, o que é mais importante, é que o novo partido também pode recuperar para a política e para o voto muitos desiludidos da esquerda e até atrair eleitores de outras áreas políticas.

 

A propósito das críticas (algumas soezes) que o anúncio da criação do Livre suscitou seria importante que os cidadãos de esquerda tivessem presente que criar um partido é algo fundamental numa democracia e um gesto de generosidade cívica. E lembrar que ninguém está obrigado a concordar, a aderir ou a votar no novo partido. Dizer, a propósito da criação de um novo partido de esquerda, que os seus criadores só querem tachos e são oportunistas apenas reproduz o discurso populista antipolítica e antipolíticos que alimenta a abstenção, que alegra a direita tecnocrática e que tem dificultado o apoio popular a um projecto político diferente."
 

18 de novembro de 2013

É sempre bom saber a matéria











É bom avisar logo de entrada que detesto Nuno Crato e as suas políticas; acho-o até um muito perigoso bandido político, dos piores do governo.

Este era o início do post de 7 de Novembro. Repito-o aqui carregado de intenção.

Sendo defensora convicta dos professores, de todos os professores, considero humilhante que docentes contratados há dez, quinze ou vinte anos sejam agora obrigados a prestar uma Prova de Avaliação de Capacidades e Conhecimentos.

Porém, e embora desconfie deste cratino modelo, não me choca, antes pelo contrário, que exista alguma prestação de provas, exactamente para avaliar capacidades e conhecimentos, no momento da entrada na profissão.

E tenho razões para isso.

É que ambos os meus filhos, em algum momento do seu percurso académico, todo ele feito na escola pública, foram brindados com um ou outro professor que não sabia a matéria que era suposto ensinar.

Estou, com isso, a desconfiar das escolas que formam os professores?
Estou sim, pelo menos de algumas!

15 de novembro de 2013

Foi só uma lembrança


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Senhor presidente Costa dá licença? Desculpe o incómodo.

Talvez tenha lido este meu postzinho, e se não leu não sabe o que perdeu, sobre as suas louváveis diligências, antes das eleições de Setembro, para informar os lisboetas sobre buracos que não eram da sua competência.
Eu até mostrei, na foto ali de cima, os adizeres que vexa mandou pôr para a gente saber que o Metropolitano de Lisboa é que tinha a responsabilidade.

 
Acontece que já choveu e ventou de novo, vexa já foi eleito e bem eleito, e agora os adizeres voaram e tornaram-se lixo. Ainda por cima caíram todos de borco e já não se consegue ler nada. A “paisagem” ficou assim:

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 















 
 
 
 
 
Eu, confesso, estou muito entusiasmada porque, se chover mais um bocadinho, não será preciso muito mais tempo para estarmos ali sentados à espera do autocarro e a ver lá em baixo quantos minutos faltam para a chegada do próximo comboio. Fixe, não é?

Agora a porcaria dos seus papelões é que não está com nada, de tão inúteis que se tornaram.
Não quer ponderar a hipótese de os mandar remover? Foi só uma lembrança minha… e se incomodei, desculpe, mas é que tenho a mania que a via também é minha.

14 de novembro de 2013

Palavras – Plúmbeo


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Plúmbeo - cinzento, carregado, opressivo, pesado, sombrio, sufocante.

Dicionário Houaiss de sinónimos e antónimos

13 de novembro de 2013

Um canalha convicto


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Esta notícia quase passou despercebida, mas dizia coisas assim:

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, elogiou hoje as reformas aplicadas em Portugal, Espanha e Irlanda…, e defendeu a necessidade de os Estados "do norte" seguirem este caminho.

…descreveu como um "êxito" as medidas adotadas na UE que permitiram ultrapassar "o risco existencial" que chegou a afetar a zona euro.

"A história dará conta do importante papel que a chanceler Angela Merkel e outros tiveram" nesta fase, realçou.

Depois de salientar a "solidariedade sem precedentes" entre os parceiros europeus durante esta crise…

Será que bebe? Pensei. Ou será antes alguma coisa que fuma?
Talvez beba, talvez fume, talvez quando acorda ponha os óculos ao contrário.

Ou talvez seja, tão-somente, um canalha convicto.

12 de novembro de 2013

Viver do lado de cá


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A 26 de Dezembro de 2004, um descomunal tsunami varreu a costa de vários países do sul da Ásia. Alguns desses locais eram estâncias de turismo onde muitos ocidentais passavam férias de Natal munidos de câmaras fotográfica e iphones; e falavam inglês.

Através dos seus registos de imagens e palavras, tivemos horas de reportagens televisivas, onde quase podíamos tocar o pânico, a dor, a perda e também o heroísmo.

Em Agosto de 2005, o furacão Katrina destruiu boa parte da cidade de New Orleans. Era a América nas suas imensas contradições. As televisões assentaram arraiais e forneceram centenas de horas de reportagem sobre o pânico, a dor, a perda e também o heroísmo. Todos falavam inglês.

Há poucos dias, o tufão Haiyan levou literalmente consigo a vida de milhares de filipinos – uns porque morreram, e outros porque ficaram sem passado.

As televisões mostram algumas imagens nos telejornais, entre declarações de treinadores de futebol, declarações de Rui Machete, e outros desastres.

Aqueles filipinos são todos pobres, e não falam inglês.
O pânico, a dor, a perda e o heroísmo também lá estão, mas por baixo da pele ou atrás das pálpebras.
Teremos que os adivinhar, se quisermos. Geralmente não queremos.

Neste caso, teríamos também que falar a sério de alterações climáticas e, geralmente, também não queremos.
Porque vivemos do lado de cá da vida e, se necessário, até falamos inglês.

 

 

11 de novembro de 2013

A estrela




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O PCP está a comemorar o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, e faz muito bem. Além de ter sido seu líder, Cunhal foi uma figura incontornável do século XX português.

Entre várias efemérides, contou-se, ontem, um comício no Campo Pequeno, em Lisboa, antecedido dum desfile.
Mas não foi um desfile comum. Veja-se aqui como foi programado:

O comício tem início marcado para as 15 horas, mas as celebrações começam antes, nas ruas em redor do Campo Pequeno. Às 13h45 arrancam para o local do comício quatro desfiles, que prometem dar a estas comemorações uma vibrante expressão de rua: quem venha dos distritos de Lisboa, Leiria e Santarém concentra-se em Entrecampos; os oriundos dos concelhos da Península de Setúbal partem da Avenida de Berna, junto à Fundação Calouste Gulbenkian; os que venham de Évora, Beja, Portalegre e Litoral Alentejano iniciam a marcha na Avenida de Roma; e a JCP começa a desfilar na Praça Duque de Saldanha. A chegada dos desfiles ao Campo Pequeno será, seguramente, um momento particularmente emocionante.

Segundo uma das televisões, o objectivo era fazer uma estrela.
Deve ter sido bonita de ver, a coreografia. Mas de helicóptero, claro.

Os comunistas sempre me garantiram que Cunhal tinha horror ao culto da personalidade, e que lhe dava um combate sem tréguas.
Posso até acreditar nisso, mas fica óbvio que não só perdeu essa batalha em vida, como continua a perdê-la depois de morto.

Ter-lhe-ia sido mais fácil se não tivesse uma presença tão magnética.
E sexy, já agora.

Nota: Foto de Rui Ochôa, retirada daqui

8 de novembro de 2013

Ver e Experienciar


 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


A parte boa da década de 1960 aqui representada pelo Canavial de Albert Carneiro (1968).

Já todos passámos por este Canavial, como escreve hoje Luísa Soares de Oliveira no suplemento Ípsilon (Público); por isso, o que é novo aqui, nesta exposição, não são as obras em si, “mas a abertura de sentidos que a sua conjugação provocará”

Com obras de Pedro Diniz Reis, Susana Themlitz, Armanda Duarte, Jorge Queiroz, Pedro Sousa Vieira, João Queiroz, rui Toscano, Alberto Carneiro, António Ole, Lourdes Castro, José Escada, Bruno Pacheco, Helena Almeida, Ana Jotta, Gaëtan, Jorge Molder, Julião Sarmento, Álvaro Lapa, Francisco Tropa, Noronha da Costa,, Rui Sanches, Rui Chafes, Michael Biberstein, Ana Vieira, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft, José Loureiro e René Bértholo, a exposição “Sentido em deriva”  é o olhar do curador Bruno Marchand sobre a colecção da Culturgest (CGD), e a sua proposta para que a nossa visita, muito mais do que o mero acto de ver, seja uma experiência e uma descoberta dos possíveis, e surpreendentes, diálogos entre obras e artistas.

Uma coisa boa para ver em Lisboa.
 
 
 
 
Culturgest/Lisboa, até 12 de Janeiro 2014
Ao domingo a entrada é livre.

 

 

7 de novembro de 2013

O estado da interpretação


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É bom avisar logo de entrada que detesto Nuno Crato e as suas políticas; acho-o até um muito perigoso bandido político, dos piores do governo.

Porém, um destes dias, o homem defendeu a austeridade do orçamento para 2014 e explicou, como se fossemos muito burros, que sem essa austeridade, para pagar a nossa enooooooooorme dívida, "teríamos de trabalhar mais de um ano sem comer, sem utilizar transportes, sem gastar absolutamente nada só para pagar a dívida “.

A partir daqui, o jornal i titulou: "portugueses precisam de trabalhar um ano sem comer para pagar a dívida”.

Que faz a populaça em fúria com tudo e com todos? Vai ler o artigo e tentar perceber aquilo que à primeira vista parece um disparate? Não. Toda a gente interpreta como dá jeito ao seu ódio, ou seja − o fdp quer que a gente deixe de comer durante um ano.

A culpa, neste caso, nem foi da iliteracia, embora ela se faça sentir com grande vivacidade nas redes sociais; como parece óbvio que ninguém iria sugerir que morrêssemos todos para pagar a dívida, foi a irracionalidade do ódio e a satisfação com a superficialidade da informação absorvida que conduziram a comentários do tipo:

- Vómito.
- Ele devia passar um ano sem comer.
- Sujeito abjecto, desprezível.
- Um escarro com poder!
- Asqueroso
- Uma aberração! A estupidez típica deste regime: trabalhar um ano sem comer...
- Este tipo consegue é comer um ano sem trabalhar. Malandragem.
- Puta que o pariu
- Ficamos sem comer para dar milhões a colégios privados

É só uma pequena amostra.

Já é grave para um país ter um ministro como Crato; mais grave ainda é ter um população que não busca a verdade, que não quer entender, que não se esforça por se informar, que deturpa tudo para o lado que lhe dá jeito, que, no fundo, aceita iludir-se a si mesma.

Mas o mais preocupante de tudo é que, não raro, estes comentários têm início em pessoas que, apesar de terem responsabilidades na sociedade portuguesa, parecem ter desistido da boa-fé num combate político em que já vale tudo.

Não, as crises nunca são oportunidades. Para nada.
E sempre trazem ao de cima o que de pior há em nós.
Posto isto, claro que a conversa do Crato é cretina.
 

6 de novembro de 2013

Manias minhas








 

 
 
 
"Nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário".

Isto escreveu o juiz Rui Teixeira, ao recusar-se aceitar um relatório escrito segundo o Acordo Ortográfico 1990. Os funcionários do Ministério da Justiça, obrigados por lei ao uso da nova ortografia, tiveram de reescrever o documento, infringindo a lei, sob pena de coima por parte do juiz.

Se é certo que os tribunais não estão ainda obrigados a cumprir o AO, devia ser igualmente certo que a magistratura estivesse proibida de acolher criaturas que se comportam como os palermas semianalfabetos que enxameiam as redes sociais a escrever coisas semelhantes.

Já aqui o disse: não gosto do acordo, não o uso quando não sou obrigada e ainda tenho esperança que se autodestrua.

Porém, dos três exemplos dados pelo juiz, apena acta sofre, de facto, alteração. Até os cágados já deviam saber isso.

Talvez alguns dos opositores do AO achem graça a que um alto magistrado assim proseie. Eu acho que o juiz Rui Teixeira faz mal à causa.
E continuo a não gostar de juízes desinformados, prepotentes e, ainda por cima, armados em engraçadinhos.
Manias minhas!

5 de novembro de 2013

Palavras - Diáfano






























 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Diáfano – delgado, delicado, frágil, transparente, claro, límpido, luminoso, translúcido (entre outros).

Dicionário Houaiss de sinónimos e antónimos
 

4 de novembro de 2013

O que eu não saberia dizer










…o escritor Claudio Magris diz que a Itália – esse laboratório de experiências políticas e sociais – assistiu na era Berlusconi ao triunfo de uma lumpen-burguesia “que tanto no plano intelectual como moral perdeu o sentido da decência e do respeito”. Esta categoria de lumpen-burguesia não é uma invenção de Magris, mas ele dá-lhe um novo sentido: é uma classe que vive a euforia de uma nova inocência, porque a vergonha, o mais íntimo sentimento do EU, é um bem que ela não possui. E por isso é incapaz de experimentar qualquer sensação de embaraço.
António Guerreiro, Público, 1/11/2013

Talvez eu ainda não esteja aí. Porque fico muito embaraçada.