20 de abril de 2012

Ai, o amor

Os jornais noticiam que, no livro com a sua biografia a sair brevemente, Otelo Saraiva de Carvalho revela que tem duas famílias. Com uma (Filomena) vive de 2ª a 5ª feira, com a outra (Dina), vive de 6ª feira a domingo.
Atendendo às declarações que vem fazendo, isto, cá para mim, tem mais ar de “guarda partilhada”.
E, mesmo assim, parece uma missão impossível.

19 de abril de 2012

Toda a nudez será premiada

É comum ouvir dizer que os jovens de hoje não se interessam por política, mas interessam-se, e muito, por causas.
Em boa verdade, causas não faltam por aí – há-as para todos os gostos e temperamentos.

Acontece que, de há um tempo para cá, as pessoas, com larga vantagem numérica para as mulheres, deram para chamar a atenção para as suas causas, despindo-se.

Não tenho dúvidas de que o método é bom e chama realmente a atenção.
Só não sei é se é mesmo, mesmo, para as causas.


18 de abril de 2012

Uns “vizinhos” com sorte

Tomei conhecimento de que a comissão Europeia abriu um processo contra Portugal por causa das condições de vida de metade das nossa galinhas poedeiras.
Elas não têm o conforto exigido pela Europa, que determina que as gaiolas têm de prever para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais". Notícia aqui

Eu acho muitíssimo bem.
Entretanto, só por curiosidade, fui deitar uma olhadela, à socapa, a dois sem-abrigo que são muito cá do sítio, para verificar se as condições em que vivem são "capazes de satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais".

Verifiquei que, quando deitados, ocupam mais de 750 cm2, porém, não vi cama e muito menos poleiro. Quanto ao “dispositivo adequado para desgastar as garras” também não me parece que exista, dado o estado em que as mesmas se encontravam.

Os meus dois “vizinhos” agradecem à Europa que só se preocupe com os animais. É que parece que teremos de abater as galinhas que não têm condições de vida decentes.
Sorte a deles, hem?

Posto isto, os amigos e defensores dos direitos dos animais podem chamar-me os nomes todos que quiserem.

17 de abril de 2012

Ó Júlio, já chega

Já disse aqui, a propósito de Pedro Rosa Mendes, que tenho, há muitos anos, o hábito de ir ouvindo o programa da manhã da Antena 1.

Não sei em que ano começou o programa de Júlio Machado Vaz, “O Amor É”, nem isso interessa; sei que dura há tantos anos que deve estar em competição com “O Preço Certo”.

Se durante muito tempo o ouvi com agrado e simpatia, confesso que agora já não o aguento.
O homem já deu várias vezes a volta a tudo o que podia dizer, e aquilo actualmente mais parece uma missa diária que apela à continuação do bocejo matinal.
Não se aguenta, seis dias por semana - programas curtos de 2ª a 6ª e programa de uma hora ao domingo.

Não sei o que leva a Antena 1 a manter o programa, mas se foi tão expedita a despachar o Rosa Mendes and friends, por mim não entendo um tal apego ao Júlio.
Por outro lado, o Júlio também não se enxerga, e não percebe que ele e aquele modelo já deram o que tinham a dar. É preciso saber partir, deixar o palco quando chega a hora, mas isso é ruptura muito difícil para a maioria dos egos.

Naqueles cinco minutos, seria bom ouvir vozes diferentes com assuntos diferentes. Seria bom ouvir, por exemplo, um escritor ou crítico recomendar um livro, um artista ou um curador escolher uma exposição, um cinéfilo entusiasmar-me com um filme, um melómano apontar-me um CD.

Júlio Machado Vaz e a RDP parecem o Carreras a Brightman no dueto Amigos para Siempre; porém, como quem paga essa amizade sou eu, tenho o direito de dizer que estão a abusar da minha paciência, e todas as manhãs me apetece dizer BASTA.

16 de abril de 2012

A escola do Nuno

Não se pode negar que o Ministro da Educação tem lá as suas ideias sobre a escola. Homem certamente saudoso do tempo feliz da sua infância nos longínquos anos 50/60 do século passado, imagina as maravilhas do regresso a essa escola. Por isso decide:

- Turmas de 30 alunos, e de 26 para o 1º ciclo.
Para se aproximar mais da escola do seu tempo podia até fazer turmas com as quatro classes, como antigamente acontecia lá na aldeia onde uns aprendiam e outros iam guardar porcos.

- Exames da 4ª classe.
Antigamente a 4ª classe era o fim da linha de estudos; agora ainda vão estudar mais oito ou dez anos mas é bom que se habituem a chumbar logo cedinho.

- Turmas de crânios e turmas de burros.
Aqui o ministro foge às regras do passado – os burros lá atrás e os espertos à frente; mas talvez esta seja uma nova forma de escola inclusiva, quem sabe.

- Fim das provas especiais para alunos especiais.
Esta é mesmo inclusiva. Não queremos cá estigmas, aqui é tudo igual (e desumano) como no tempo do senhor ministro.

E pronto, com umas poucas ideias bafientas se reforma o ensino do século XXI à luz do maravilhoso ensino de meados do século XX.

Se bem entendo, para o senhor ministro a vida não mudou nada, a sociedade não mudou nada, a escola (seu reflexo) não mudou nada, e o melhor mesmo é voltarmos aos saudosos anos 1950.
Ditosa pátria que tais ministros tem.


14 de abril de 2012

Corrente






















Vem da Ana Cristina esta é daquelas correntes que não pode mesmo ser quebrada! Camaradas Bloggers, obedecei ao que é pedido na imagem e sereis felizes. Se não para sempre, pelo menos durante uns tempitos.

Recebi-o assim de Joana Lopes e eu seja ceguinha se vou quebrar a corrente.





Sem título (cada um que escolha o seu)

13 de abril de 2012

Regresso à fisga

O léxico governamental português é pobrezinho. Resume-se, de facto, a três verbos – proibir, taxar, cortar.

O verbo proibir foi na 4ª feira conjugado, mais uma vez, na Assembleia da República, desta feita pelo Dr. Macedo que, depois de, há uns anos, muito usar o verbo taxar nas finanças, passou a usar os verbos proibir e cortar na saúde.

Este homem é o paradigma.
Decidiu o Macedo que vai proibir o fumo dentro de carros particulares que levem crianças; bom, eu há muito tempo que não tinha um ataque de riso tão convulsivo.

Estou a imaginar o polícia a abeirar-se do carro e dizer – cheira-me aqui a esturro, o senhor esteve a fumar com a criança no carro, eu senhor guarda, nada disso, pela sua saudinha, eu nem fumo.

Se o ridículo matasse, o ministro tinha saído da AR levado pelo INEM (se ele chegasse a tempo, claro), mas a fúria proibicionista é de tal ordem que nem deixa margem para pensar.
Uma campanha publicitária, tendo em vista quem ainda fuma no carro com crianças lá dentro, seria bem-vinda. Mas, qual o quê, eles gostam é de proibir e pronto.

Depois disto, fico à espera que me proíbam de fumar na minha própria casa. É só já o que falta.

Nessa altura, quando a ressuscitada polícia de costumes, alertada pelo pivete ou por denúncia de vizinho malvado, me bater à porta, não a receberei de caçadeira porque tenho horror a armas, mas uma boa fisga de caçar pardais vou ter na mão, de certeza. (Para a ter sempre à mão vou passar a usá-la no pé, como se vê na imagem).

E só espero ainda ter pontaria para lhe acertar nas nalgas.
Assim mesmo, bem à alentejana.


12 de abril de 2012

Uma agenda para a humilhação

Podemos dar quinhentos “abraços” à Maternidade Alfredo da Costa, podemos gritar e espernear, podemos provar por A+B+C+X+Y que é um erro fechá-la; porque é excelente, porque nela se investiu muito, porque é património emocional dos lisboetas, porque a sua existência nos dá segurança.
Ela vai fechar na mesma, porque o governo já decidiu.

Já tínhamos percebido, neste governo, uma agenda bem definida de protecção de grandes interesses, de empobrecimento colectivo, de precarização geradora de medo. Aos poucos, vamos descobrindo uma agenda escondida para a infelicidade geral.

Uma agenda para a humilhação, sem a ajuda da troika.

Se nós gostamos, se temos orgulho, se queremos, então o governo decide que é para acabar, fechar, destruir.

São as bastonadas no orgulho, na confiança e nos afectos colectivos que nos vão destruindo por dentro, fazendo perder o ânimo e a vontade de reivindicar um futuro.

Não se estranha, pois, a apatia generalizada, a indignação que definha, deixando em seu lugar apenas a uma “austera, apagada e vil tristeza” que por todo o lado se vai sentindo.

Nós não temos apenas um mau governo. O caso do fecho da Maternidade Alfredo da Costa prova que temos um governo macabro.

11 de abril de 2012

No comboio descendente

Que diz Seguro sobre o tratado orçamental que coloca a obrigatoriedade do défice em 0,5%? Que tem ali uns pozinho não sei de quê que quer juntar à receita mas que, com pozinhos ou sem pozinhos, ele vai dizer que SIM.


Quando imagino uma reunião do governo em que se fale da oposição/PS,  apetece-me logo cantar:

No comboio descendente
Vinha tudo a gargalhada
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada

Quando imagino uma reunião da comissão política do PS, apetece-me logo cantar:

No comboio descendente
Mas que grande reinação
Uns dormindo outros com sono
E os outros nem sim nem não

Já não há bilhetes para o comboio descendente.

10 de abril de 2012

Nós não somos a Grécia

Em Janeiro tivemos a notícia de que, entre 2010 e 2011, desapareceram dos registos do fisco 111 000 crianças que estavam “a cargo” de muitas famílias portuguesas. O desaparecimento deu-se, precisamente, quando passou a ser obrigatório atribuir número de contribuinte aos menores para os pais os poderem declarar no IRS.


Na ilha de Zakynthos (Grécia), descobriu-se que dos 700 cegos declarados e que, como tal, recebiam subsídio, apenas 50 são de facto invisuais. (DN)

Não, é claro que nós não somos a Grécia.

Haverá muitas semelhanças no caminho que levamos mas as diferenças também são óbvias - por lá abundam os cegos, enquanto por cá o que não falta é olho vivo.

É apenas um detalhe na tragicomédia que nos é comum.


9 de abril de 2012

No limbo

Parece que já toda a gente tomou uma posição definitiva sobre o Acordo Ortográfico, excepto eu.

Comecei por ficar mais ou menos indiferente, e de raciocínio mais ou menos preguiçoso, no pressuposto de que já houve outros acordos a que toda a gente se habituou. O computador tratou do assunto e mesmo agora eu escrevi excepto e ele comeu-lhe logo o p; como insisti, ele marca-me erro.

Comecei, então, a escrever segundo o acordo, mas verifiquei que não sou capaz de escrever espetador em vez de espectador, ou para em vez de pára, entre outras.

Desta feita, já que, afinal, uns dizem que está em vigor e outros dizem que não, decidi voltar à escrita antiga até que os mandantes se entendam. Porém, isto de estar sempre a desfazer o que o computador me desfaz é muito cansativo.

Às tantas, e com todas as excepções, acho que já nem sei escrever, fico cheia de dúvidas atormentadoras. Será assim? será assado? levará hífen? dobrará a consoante? perdeu o acento? Uma canseira.

Leio jornais com Acordo e jornais sem Acordo, livros com Acordo e livros sem Acordo, legendas com Acordo e legendas sem Acordo. Só ainda não testei a bula dos medicamentos.

Dantes, com regras bem definidas ainda se percebiam os erros. Agora, cada um escreve como quer está sempre bem.

Podemos estar a viver no purgatório mas quanto à escrita, já não há “pecado”. O país escrevente vive no limbo, e eu com ele.

5 de abril de 2012

A fulanização de ideias e causas

Na semana passada, circulava no FacebooK a verdadeira caça ao polícia, o tal que andou pelo Chiado à bastonada. Critiquei a atitude aqui. Segundo notícia de ontem, o MAI decidiu abrir um processo disciplinar ao referido agente da PSP, e é assim que deve ser.
Agora, a propósito da vinda ao Coliseu do repelente rapper Sizzla, que incita o público a matar homossexuais, pergunta-se se alguém sabe quem é o dono do Coliseu.
Há na pergunta uma velada ameaça, como quem diz – “vamos-te fazer a cama, porque contratas um tipo execrável, de quem não gostamos”.

Se, na política, há evidentes sinais de deterioração da democracia, na sociedade civil não há menos.

Acho normal um movimento de repúdio pela contratação de tal personagem, e também acho normal que declaremos alto e bom som que, para nós, alguns visitantes não são bem-vindos.
Porém, já não acho nada normal, ao contrário, acho preocupante, que se fulanizem assim ideias políticas e causas. E isto está a ficar demasiado frequente.

Tenho o direito de dizer que, para mim, Sizzla não é bem-vindo, e que não gosto mesmo nada dum empresário voraz que o contrata mas, é tudo; aí acabam os meus direitos.
Pode argumentar-se que tudo não passa de brincadeira ou leviandade de espíritos “revolucionários”, mas continuo a achar que, mesmo nesse caso, são coisas que passam pela cabeça das pessoas, são sinais, e de muito mau gosto.

4 de abril de 2012

Maia





















É um herói da minha geração. Faz hoje vinte anos que morreu.

Um exército de crianças

Esta pequena notícia do DN, se bem atentarmos nela, indigna tanto como outras, a que se dá grande destaque, sobre o uso e abuso de crianças. Mas, para a comunidade internacional, a Coreia do Norte só é notícia importante quando ameaça com o seu poder nuclear ou quando nos oferece o espetáculo da morte do querido líder.

Ora, segundo a notícia, o exército norte-coreano passou a aceitar mancebos com a altura de 142 cm, em vez dos anteriores 145 cm, devido ao raquitismo da nova geração provocado pela grande fome dos anos 1990.
Este exército, o quarto maior do mundo, é composto por 1,2 milhões de soldados com 16 e 17 anos, que cumprem o serviço militar por um período mínimo de 10 anos.

Quando imaginamos rapazes/meninos de 16 anos, com um metro e quarenta e dois de altura, de arma na mão, cumprindo treino militar, quais os sentimentos que nos dominam? Muitos e todos desagradáveis.
Mas são meros sentimentos individuais, porque o mundo, como um todo, nem olha; e se olha pensa – que se lixe.
São as notas de rodapé no nosso dia-a-dia.


Nota: para quem quiser saber melhor o que foi a grande fome na Coreia do Norte volto a recomendar o livro que já referi aqui.

3 de abril de 2012

Confirma-se


"Troika não descarta corte definitivo dos subsídios de férias e de natal" (JN)


Confirma-se: os gajos decidiram ficar a mandar aqui para o resto da vida.

"Vieram como andorinhas"

As minhas leituras nunca se tinham cruzado com William Maxwell; calhou agora, e só posso lamentar que tenha sido agora.
Em menos de 130 páginas o autor aborda, em “Vieram como andorinhas”, a vida duma família americana no pós-1ª Guerra Mundial e no momento da pandemia de gripe espanhola que matou milhões de pessoas em todo o mundo.
Uma mãe, um pai, dois filhos rapazes e um ou outro elemento colateral da família. A história conta-se dando a vez a cada um dos filhos e ao pai.

Bunny, o filho mais novo é tão sensível e tem uma tão forte ligação à mãe que nos lembra Proust. Robert, o mais velho mas ainda um pré-adolescente, sofreu um acidente e tem uma perna de pau. O pai, James, é um pai à maneira da época – poucas falas, um tanto temido pelos filhos, nada de exprimir afetos.

Relacionamo-nos sobretudo com os filhos e, quando ouvimos Bunny achamos Robert arrogante e agressivo; quando ouvimos Robert achamos Bunny mimado e manipulador.

Quando a mãe, epicentro quase mudo da narrativa, morre, encontramos James confrontado consigo mesmo.
O que acontece quando o elemento aglutinador da família e dos seus afetos desaparece?
É a pergunta que fica no ar com o equilíbrio perfeito da simplicidade.
De mestre.

Sextante Editora, 2011




2 de abril de 2012

Deu-lhe para ser foleiro

Quando ouvi dizer que Ribeiro e Castro tinha votado contra a nova legislação laboral, deitei as mãos à cabeça e pensei – valham-me todos os santos que o homem virou à esquerda. Depois, lá acalmei porque percebi que, afinal, ele só está contra o fim do feriado de 1 de Dezembro por ser o dia da recuperação da independência.

Vem de lá o Paulo Portas, questionado sobre o assunto, e diz, mais coisa menos coisa – “para mim, o mais importante é cada um de nós, no dia da independência de Portugal, dar o seu contributo para que Portugal recupere a sua independência”.

Ó Paulo, é bem verdade que uma desgraça nunca vem só.
Se este fosse o tempo em que você vestia a roupinha de latifundiário patriota e telúrico, a gente ria-se e havíamos de o ouvir dizer que os patriotas, consigo à cabeça, estavam escandalizados com o fim do feriado em dia por demais importante para a nação.
Agora que tanto precisamos de rir, você trata de vestir a roupa de estadista e de debitar discursos tão patrioteiros como foleiros, que nem dão para rir.

O menino não imagina o tamanho do desejo que tenho de o ver voltar rapidamente ao armário para tirar o boné e o capote da naftalina.
Isso é que eram boas notícias.