20 de março de 2015

O pau











 
 
 
Há um novo brinquedo no mercado – o pau de selfie.

A chegada desta nova geringonça vai acabar com mais um antigo e divertido ritual do turista – escolhia-se um asiático, turista como nós, com a máquina fotográfica ao pescoço, e pedia-se-lhe: would you, please, take us a picture?

Ele (a) sorria, ou não, respondia sure, a gente fazia pose e, no fim, despedíamo-nos todos com simpatia, como o engenheiro Sousa Veloso no tempo do TV Rural.

Aquela foto, tirada pelo asiático criteriosamente escolhido, era a prova provada, e com grande probabilidade a única, de que tínhamos estado mesmo lá, e juntos.

A partir de agora, basta sacar o tal pau de dentro da mochila, e disparar.

A posteridade deduzirá, talvez, que esta foi a época de ouro das relações, porque os casais em férias surgirão, em milhares de fotografias, juntinhos e risonhos.

E pronto, e assim se acabou também com a interacção fotográfica com turistas asiáticos.

Só nos últimos anos já vi desaparecer tanta gente, tantas ideias, tantos costumes, tantas profissões, tantos modos de fazer que às vezes penso que vivo mas é num buraco negro – num daqueles com muita massa, que tudo sugam e tudo fazem desaparecer.
Medo!

15 de março de 2015

O rei vai nu









Não posso negar que a visão de Varoufakis na varanda foi, para mim, o equivalente a um murro no estômago.

Nas redes sociais, a esquerda, maioritariamente, remeteu-se a um silêncio de sepulcro. Alguns, poucos, trataram de usar a velha argumentação – um marxista não precisa de ser pobre, um marxista pode ser um bon vivant, um marxista pode gostar, e comprar, as coisas boas e caras da vida.

Por mim, acrescento ainda que um marxista do século XXI tem também direito a gostar de reportagens pirosas, a ter os seus dez minutos de fama, a fazer o seu marketing pessoal (e o da sua mulher), a ser vaidoso e a fazer parvoíces.

São direitos inalienáveis das pessoas, de esquerda ou de direita, mas, neste caso, e como argumento de defesa, acho fraquito. E faz sorrir.

Olho aquelas foleiríssimas imagens e pergunto-me: se Varoufakis decidisse viver como um franciscano isso adiantava alguma coisa aos gregos e à Europa?
 
Não! Nada, nadinha!

Exibir uma vida boa numa reportagem fútil e pirosa faz mal aos gregos à Europa?

Neste momento histórico, faz!

Não porque ele não tenha direito a uma vida boa, mas porque passa uma mensagem de futilidade e falta de concentração que em nada contribui para aumentar a credibilidade do ministro. Nem fomenta o respeito dos adversários com quem está a ter duras negociações sobre o futuro do seu país.

As nuvens adensam-se. Não vou negar que já achei esdrúxula a ideia de pôr estudantes, donas de casa e turistas a fazer de fiscais das finanças mas, ainda assim, dei o benefício da dúvida. Esta rosada reportagem, porém, foi como levar com um inopinado par de cornos.

Além do mais, almocinhos na varanda com brinde para a fotografia da revista sempre foram alvo de chacota e desprezo por parte da esquerda.

Doeu. E fez medo. Entre outros, fez nascer o medo de que Varoufakis seja apenas mais um flop em vez de ser, finalmente, alguém de quem nos possamos orgulhar.

Neste episódio, a maioria calou-se, alguns optaram por dizer que o fato do rei é lindo e que ele tem todo o direito de usar o que lhe apetecer.

A mim, porém, parece-me apenas que o rei vai nu.

 

PS: acabo de ler aqui que Varoufakis já se arrependeu de ter feito a reportagem. Uma boa lição para os seus defensores lusos.

 

13 de março de 2015

Mais uma escandaleira, é o que é.





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Esta notícia - PS pagou a Costa em 2007 para ser assessor político - que desde ontem está em todos os jornais, que me aparece no Facebook post sim, post não, e que, de facto ninguém lê para além do título, deixa-me muito revoltada.

Como se pode admitir que um partido, neste caso o PS, tenha pedido a um dos seus, por acaso, ao tempo, um ministro, que deixasse o lugar e se candidatasse à Câmara da capital do país sem o advertir imediatamente de que, entretanto, até ser eleito (ou não) teria que viver na indigência por uns dois meses?

O PS devia ter deixado o António Costa sem trabalho, sem dinheiro, sem camisa, e em jejum.

Só assim evitaria que, daí a oito anos, um qualquer estarola se lembrasse de fazer, sobre o tema, uma não-notícia induzida por um título idiota.

Além do mais, o que é que o PS tem que contratar um dos seus para assessor político?
Isso é imperdoável nepotismo!

Devia era ter contratado, p’raí, sei lá… o Nuno Melo.
Isso sim, era decente.