29 de dezembro de 2012

Ano Novo

Há quantos anos andamos, por esta altura, a dizer uns aos outros – “Bom Ano Novo, já que este não deixa saudades. Esperemos que o próximo seja melhor!”?
Talvez há mais de uma década. E as nossas esperanças num ano melhor foram sempre adiadas… por mais um ano.

Chegados ao final deste insano 2012, quase parece uma piada de mau gosto desejar um bom ano de 2013 a alguém.

Porém, se já sabemos dos mimos que os governantes nos preparam, nada sabemos ainda de como este povo, velho e paciente, a eles reagirá.

Nada é para sempre.
Não quero o medo. Não acredito no destino nem em inevitabilidades.
2013 será aquilo que estivermos dispostos a fazer dele, em termos pessoais e, talvez sobretudo, colectivos.

Por agora, é apenas tempo de desejarmos uns aos outros, num exercício de liberdade e insolência, aquilo que, de facto, nos é devido − um BOM ANO NOVO.
Temos 365 dias para o reclamar a quem de direito.


27 de dezembro de 2012

O silêncio das pantufas

Na sua página do Facebook, o Pedro escreveu:

“este não foi o Natal que merecíamos”

Num e-mail recebido há poucos dias, a minha amiga Paula escreveu:

da estrumeira nacional não falo, que estes cabrões não nos merecem.”

Ora aí está: um primeiro-ministro PIEGAS, desapoiado por um povo que está aficar ao estilo “de atacar pelos queixos”. Lol.

26 de dezembro de 2012

“Aconteceu no Oeste”

No final da tarde do dia de Natal, um qualquer canal televisivo passou o filme “Aconteceu no Oeste” que estive a rever.

Realizado por Sergio Leone, com música de Ennio Morricone e protagonizado por Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards e Claudia Cardinale é um dos melhores western de sempre.

Entretida com o filme, não vi nem ouvi Passos Coelho (acho que fiz de propósito, mas não tenho a a certeza). Certo é que o filme pode ser uma metáfora do que por aqui se passa – temos um bandido sem escrúpulos nem alma, um plácido tocador de harmónica que espera o seu momento de acertar as contas com o bandido sem alma, uma mulher de coragem e ainda o bandido Cheyenne que, por não gostar que lhe atribuam culpas que não tem, acaba por evoluir para bandido “bom” e justiceiro.

Ganância pessoal e a soldo dominam o enredo, mas também a coragem e a justiça.
A distribuição das características dos personagens do filme pelos indígenas deste país, deixo por conta de cada um.

Certo, certo, é que gosto muito do personagem Harmónica, e também de metáforas.
E isto aqui não costumava ser a west coast?


21 de dezembro de 2012

Natal, pois claro


Termina um ano carregado de desencanto e indignação.

Reivindico agora, para mim própria, um breve período com direito ao esquecimento, e a uma normalidade perdida no meu país.

Faz-se a árvore de Natal, compra-se o bacalhau, confeccionam-se doces que nos darão o conforto do açúcar sem pecado.

Natal é a celebração por excelência da cultura e civilização em que nos inserimos. Crentes, ateus ou agnósticos, poucos lhe escapam.

Como é próprio de todas as celebrações, o Natal é agregador, às vezes até reconciliador, reforça laços, une, quebra rotinas.

Terminado (à força) o tempo da lamúria contra o consumismo da época, e terminado, para muitíssimos, qualquer tipo de consumo, só a sua parte imaterial nos pode agregar como colectivo.

Celebremos então o imaterial – os afectos, a magia da luz, o sentimento de pertença.

Por estes dias, o importante, mesmo, é que cada um celebre um Natal que seja verdadeiramente o seu.
É o que vou fazer.

BOM NATAL.

20 de dezembro de 2012

Amigas

Amigas são melhores que irmãs − Amigas não trazem na bagagem histórias de família, competição pelos afectos, roupa, beleza ou homem.

O calendário não manda nas Amigas, salvo se elas assim o decidirem.
Amigas riem, choram, concordam, discordam, contradizem, viram do avesso.

As melhores amigas são muito diferentes de nós, e entre si também.
Há uma dor que as Amigas nunca têm, é no cotovelo, porque Amiga nunca tem inveja de nada em nós.
Amigas interessam-se. E cuidam. Sempre.

Não importa que as Amigas estejam longe muito tempo porque, quando chegam perto, são a negação do próprio tempo.

Mesmo assim ele passa, e é quando deixam de pedir café e optam pela tisana ou pela água que descobrem, juntas e estupefactas, quão pouco mudaram, e como as grandes questões das suas vidas, toscamente “descascadas” anos antes, permanecem quase inalteradas. Voltam repetidamente as elas, acompanhando a tisana ou a água, mas sem pressas, sem pinças e sem luvas.

E falam, falam, falam, cavalgando as horas; e riem, choram, concordam, discordam, contradizem, viram do avesso.

A vida, na sua muito própria sabedoria − que por vezes não descarta a injustiça, não anda por aí a distribuir Amigas ao desbarato. Nem outras Graças.

Para as conceder exige atenção, porque, como muito bem percebeu o Vinícius − Amigo(a) a gente não faz, Amigo(a) a gente reconhece.

 

19 de dezembro de 2012

Em tempo de cólera


Quando, há tempo, Passos Coelho disse “que se lixem as eleições”, eu, por uma vez, acreditei nele, e continuo a acreditar.

Passos veio para cumprir um programa ideológico de destruição do que de melhor tínhamos construído, deixando ficar e fortalecendo tudo o que é tóxico na nossa sociedade. Uma legislatura chega para isso.

Até sobra. Depois do trabalhinho feito, ele não quererá mais ser político, coisa que só dá chatices, e certamente terá bons lugares à sua espera. Talvez até fora do país, talvez até sonhe com a Goldman Sachs, quem sabe.

É por isso que acredito nele quando brama - “que se lixem as eleições”.
Os jornais escrevem: Passos garante que a venda da TAP ficará decidida na quinta- feira. Em que condições, não sabemos. Mas é amanhã.

18 de dezembro de 2012

Havemos de ser todos alemães


Querida Senhora Merkel

No passado domingo li e ouvi que a senhora está preocupada com a lentidão do nosso “ajustamento”.

Antes de mais, deixe-me dizer-lhe o quanto admiro a sua capacidade de trabalho – nem ao domingo descansa. Só tenho pena que também não nos deixe a nós descansar de si.

Somos um pouco lentos, é certo, mas já percebemos que, para seu contento, um dia havemos de ser todos alemães.

Eu, para aprender mais depressa, até fiz uns bonecos que tenho sempre diante de mim e que lhe venho mostrar; à esquerda, o que somos, à direita, o que seremos.

Por isso, tenha calma. Havemos de lá chegar.
Auf wiedersehen, liebe frau.

 
 
 
 
 






PS: imagens recebidas por e-mail
 
 
 
 
 

17 de dezembro de 2012

Suportes que ele não suporta

Um bom indicador do envelhecimento é a incapacidade para ser, no mínimo, tolerante com o novo, mesmo que não o entendamos completamente ou não nos consigamos adaptar a ele.

Essa é uma das razões por que a entrevista que Vargas Liosa dá ao Ípsilon da passada sexta-feira é tão deprimente.
Apocalíptico em sentido lato, reserva para si e para a literatura o papel de  salvadores do pensamento e da escrita, mas apenas, e repito APENAS, no formato de livro.

Llosa afirma : se os tablets e os ecrãs roubarem todo o protagonismo ao livro, assistiremos a um extraordinário empobrecimento da linguagem, haverá uma deterioração da comunicação e da racionalidade, as máquinas passarão a pensar por nossa conta e isso poderá trazer consequências gravíssimas, nomeadamente o desaparecimento da liberdade”.

Um susto, estas afirmações (reiteradas), vindas dum Nobel da Literatura que só tem 76 anos.

No que me diz respeito, gosto de livros. Gosto mesmo muito. E, apesar de reconhecer o prazer quase sensual de os manusear, cheirar etc. não fujo do digital como o diabo foge da cruz. Há livros que quero ter fisicamente ao pé de mim. Sempre. Esses, quero-os em papel. Há muitos outros que leio e esqueço. São os que podem vir em suporte digital − um dia vou apagá-los para dar lugar a outros. Esta mania de que as coisas não podem coexistir, nunca a entendi, até porque o passar do tempo nos vai mostrando que é o contrário que é verdadeiro.

Vargas Llosa ficou, precocemente, velho.
Compare-se a sua postura face ao ecrã com a da minha mãe, que no dia dos seus 86 anos recebeu livros, mas também foi à internet descobrir um truque para fazer crescer as farófias.
Quem é mais novo, quem é?
E, já agora, quem parece mais inteligente e disponível para a vida?

PS: sobre o mesmo assunto, recomendo o post de Rui Bebiano no seu blog A Terceira Noite

14 de dezembro de 2012

Há silêncios que entristecem

A TAP é mais um “luxo” que não podemos ter, está visto, e 20 milhões chegam para nos resgatar do vício.

O que eu estranho mesmo, é o silêncio dos pilotos e outros profissionais da TAP sempre tão prontos (desde o 25 de Abril) a fazer greve quando mais doesse aos passageiros e, sobretudo, às tentativas de recuperação financeira da empresa.

Não há uma grevezinha para o Natal? Nem sequer uma ameaça clara ou velada? Nem um comunicado com uma tomada de posição? Estarão contentes de ir trabalhar para o tal Efromovich, ou estarão a enfiar o rabinho entre as pernas?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Mas que o silêncio deles é ensurdecedor, lá isso é. E triste!

Boa informação sobre as contas desta venda, aqui

13 de dezembro de 2012

De Caranguejo para Sagitário














Que laço tão forte é esse que nos une, apesar das diferenças tão grandes que nos separam?
Quem o deu?
Quem o apertou assim?
A ciência não explica, mãe.
Talvez, afinal, nem precise.

Imagem daqui


12 de dezembro de 2012

O Caderno Vermelho

A propósito do post de ontem, e das coisas estranhas ou difíceis de explicar que nos acontecem, lembrei-me do livro “O Caderno Vermelho” de Paul Auster.

São pequenas histórias, todas verídicas, segundo o autor, que assentam, sobretudo, no acaso (tema que lhe é caro), narrando acontecimentos bizarros e coincidências quase do outro mundo. São histórias que em algum momento da vida podem acontecer a qualquer pessoa, que impressionam no momento, mas depois esquecemos. Contudo, o escritor não esqueceu, e com elas compôs um pequeno e delicioso livro.

Quando, nos dias que correm, entro numa livraria, tenho frequentemente a sensação de que o mundo da edição, por aqui, é consumidor regular de cogumelos alucinogénicos; outras vezes, penso que adoptaram o modelo das fábricas de enchidos – entra porco e, logo, logo, sai salsicha.
Tantos livros, tantos autores, tanto colorido, tanto design kitsch, tudo reduzido a picado daí a poucas semanas.

Não estranhei, por isso, não ter encontrado, nas buscas que fiz na internet, O Caderno Vermelho”, livro publicado há já um bom par de anos, mesmo sendo este um país de leitores fiéis de Paul Auster.
Apenas a livraria Bulhosa me diz: “Disponível entre 3 a 5 semanas (sujeito a confirmação) ”, pelo preço de 1,50 €.

Assim sendo, este é um daqueles livros que vale a pena procurar na biblioteca pública. É tão pequeno que podemos ficar lá a lê-lo, e sair daí por uma hora com sentimentos misturados de encantamento e espanto.
E ainda com um sorriso nos lábios.

11 de dezembro de 2012

Eu não acredito em bruxas

Um destes dias, saí lampeira com o meu carrinho de compras para ir ao Pingo Doce cá do sítio comprar pão, legumes, fruta e pouco mais.

Não é uma loja grande, nem tinha muita gente.
Feitas as compras, escolhi, para pagar, a caixa central, que é a terceira de cinco. Larguei o meu cesto cinzento com rodinhas atrás da senhora que ia começar a fazer o seu pagamento e fui buscar o meu carrinho de compras, deixado na entrada a não mais de 7 ou 8 metros. Podia vê-lo, e devo ter demorado 30 segundos, ou menos.

Quando voltei, o meu cesto já não estava onde o tinha deixado. Olhei à volta e não o vi, perguntei ao segurança, ali especado como de costume, se tinha reparado em alguém que levasse o cesto por engano; que não. As pessoas à volta, ouvindo a conversa, em todas as filas de caixa começaram a olhar os seus cestos para verificar se não se teriam enganado. Nada.

Esperei um pouco. Que diabo, quem pegou no cesto por engano rapidamente se havia de dar conta disso. Nada. Resolvi eu própria dar uma vista de olhos aos cestos dos clientes que estavam nas filas. Nada. Venci a inércia e percorri todos os corredores do supermercado a olhar todos os cestos. Nada. Decidi voltar a fazer todas as compras sempre de olho nos cestos dos outros. Nada. Já de cesto cheio, voltei a percorrer todos os corredores, sempre espiando cestos. Nada. Voltei para a caixa e perguntei de novo ao segurança se alguém tinha dado sinal de se ter enganado. Nada. Paguei e saí.

Esta é uma daquelas situações em que, se persistirmos em encontrar uma explicação razoável, dado que compras não pagas não podiam interessar a ninguém, corremos o risco de ficar maluquinhos. O melhor mesmo é pôr uma pedra no assunto. É o que tenho tentado fazer, mas sem lograr completo sucesso – volta cá, volta lá, lá estou outra vez a pensar no mistério da cesta desaparecida.

Resolvi, pois, contá-la, como quem exorciza fantasmas.
É que eu não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!

10 de dezembro de 2012

Barroso Twist, um contorcionista português

Há dez anos, foi como a foto mostra – Barroso Twist a fazer de porteiro aos três delinquentes que nas Lajes, nesse dia, decidiram a invasão do Iraque.

Hoje, Barroso Twist, ou o grande contorcionista português, igualmente bem acompanhado, vai receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz, atribuído à Europa.

Do trio de presidentes (Barroso, presidentes da Comissão Europeia; Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu e Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu), dois não foram eleitos por ninguém. A Europa que eles representam, por sua vez, que já foi o território da esperança de milhões de homens e mulheres tem hoje 120 milhões de pessoas em risco de emergência social e 26 milhões de desempregados.

Uma verdadeira fábrica de fazer pobres em permanente laboração.

Barroso, Rompuy e Schultz são três bostas, dignos representantes da bosta que criaram.
Vou desligar a televisão. Esta não é a minha Europa e eles não me representam.

Quanto à Academia Sueca, depois de velha virou prostituta.
Como se pode ver, hoje a minha tolerância resolveu não se levantar.


7 de dezembro de 2012

Calafrios

No DN online de hoje, duas notícias  provocam-me calafrios.
Acho que encontro demasiadas semelhanças nos objectivos.
Gostava de estar só a ver "coisas".
















Pussy Riot colocada em cela isolada para reeducação

















Nuno Santos foi suspenso da RTP  (depois das declarações que fez no Parlamento)

Dois casos em que poder não olha a meios para dar o exemplo.

Filha de Rousseau

Deixando de lado as questões da pedagogia e do saber, e apesar de já ter idade para ter juízo, sei que ainda hoje, lá bem no fundo do fundo, sou um pouco “filha de Rousseau”, no sentido de acreditar que o homem é naturalmente bom.

Estúpido isto, eu sei que é estúpido, porque a toda a hora se demonstra que o contrário é que é verdadeiro, mas, como cada um tem direito à sua dose de parvoíce, eu tendo a tomar como seguro que os gestos bonitos nascem da bondade de corações puros. Pois!

O exemplo mais recente foi o da tal Adriana na manifestação de 15 de Setembro; achei que o sortudo do fotógrafo tinha conseguido captar um momento de fraternidade universal, em que o coração duma boa (!) garota ansiava pela paz e concórdia entre os homens, não temendo botas cardadas, bastões ou viseiras para alcançar tão nobre objectivo.
Vai na volta, viu-se que afinal a miúda tinha inclinação para o showbiz.

Daí que tenha estremecido quando li esta frase no Público, a propósito do polícia nova-iorquino que foi comprar umas botas para o sem-abrigo descalço:

Jeffrey Hillman ficou famoso como o sem-abrigo descalço a quem um polícia ofereceu um par de botas numa noite fria. A fotografia do momento emocionou o mundo. Mas nem tudo é o que parece.

Pensei: lá vem bomba de fragmentação para cima da minha fé nos homens. Até tive medo de ler. Mas li, e ainda bem. Afinal o polícia é mesmo um polícia bom, de coração puro e compassivo, e o sem-abrigo é apenas alguém, ou mais um, que perdeu o tino durante uma das muitas guerras americanas. Ufff…

Bom fim-de-semana para todos os corações bons e compassivos.

6 de dezembro de 2012

Coragem, gosto

Coragem intelectual é um bem escasso por aí.
Coragem física, idem.
Mas aprecio as duas, quer nos homens, quer nas mulheres.

Há dias critiquei aqui a “coragem” do fulano que chegou a mandar, num só dia, mais de 100 SMS a um outro que lhe assediou a mulher. Tinha a coragem toda na ponta dos dedos e atrás do telemóvel.

A José Mourinho, pelo contrário, não se pode negar coragem.
Não encontrei o vídeo que vi num noticiário mas encontrei a notícia. Resumindo-a, “o treinador do Real Madrid avisou que ia entrar sozinho em campo antes do dérbi com o Atlético para ser “assobiado à vontade”.

E assim fez. Quarenta minutos antes de o jogo começar, Mourinho ofereceu o “peito às balas” e ali ficou sozinho, especado, ouvindo assobios e aplausos. Entendeu que, se a causa da discórdia é ele, então ele vai aparecer sozinho para que a equipa não sofra os assobios que o têm como destinatário.

Teatral? Talvez, mas todo o espetáculo vive disso também.
 
Porém, se coragem se define como firmeza de ânimo na adversidade, goste-se ou não do estilo (e eu até nem sou fã), não se poderá nunca dizer que este homem não tem tudo en su sitio.

5 de dezembro de 2012

O Henrique e as malhas da Ti’ Maria


Quando eu levava a sério o Henrique Raposo, embirrava um bocado com ele mas, no momento em que percebi que o rapaz não podia ser levado a sério e que aquilo era mais ou menos um intermezzo humorístico do Expresso, passou a ser, para mim, o autor da semanal croniqueta light.

No sábado passado, voltou às origens e às camisolas de malha da Ti’ Maria, que lhe eram oferecidas no Natal e na Páscoa, e davam um jeitaço porque eram quentinhas e coloridas e tricotadas com amor e passavam de tronco para tronco.

Eram bons tempos, na perspetiva do Raposo, e estão de volta, com a graça de deus.

Então ter as tias todas a tricotar furiosamente para os ganapos ali à volta da braseira não é um ideal para o século XXI, para a refundação da família cristã e do próprio país?

Se o Henrique fosse um pouco mais velho ainda se havia de lembrar, com prazer, dum texto do livro único do Salazar para a escola primária.

Mas eu conto: era uma vez um menino mau que foi aos ninhos e rasgou as suas únicas calças. A irmã, depois de o admoestar por tão feia acção, e para que a mãe não percebesse, pegou na agulha, não a de tricotar da Ti’ Maria, mas a outra, a de coser, e arranjou as calças na perfeição. O texto terminava dizendo: “Que lindas que são as meninas que sabem costurar”.

Ó Henrique, caraças, isso é que eram bons tempos. Já viu só, se conseguisse juntar a Ti’ Maria a tricotar e a mana a coser para si? Era o paraíso na terra.

Porcaria de país este, que meteu na cabeça que havia de ir à Benetton comprar malhas.
Mas os “ontem que cantam” na cabeça do Henrique são um verdadeiro farol para o futuro do país.


4 de dezembro de 2012

A senhora na nuvem

Durante uns bons vinte anos, todos somos filhos de alguém. O menino ou a menina A ou B são filhos do senhor C e da senhora D.

Algures num tempo incerto, tudo se inverte − o senhor C e a senhora D passam a ser os pais de A ou B.

Profunda alteração, esta, que, muito prosaicamente, se pode resumir dizendo que os meninos já são adultos e os pais já estão a ficar velhos.

Se isto não tem lá grande piada, certo é que também pode proporcionar uma segunda e insuspeitada “existência”.

Por exemplo, a mãe do Herman José não teria existência pública sem o filho; Helena Sacadura Cabral sempre a teve, e continua a ter, mas ela foi potenciada pela subida à ribalta dos seus dois filhos.
Contudo, para o resto das suas vidas, ambas permanecerão, em grande medida, as mães do Herman, do Miguel e do Paulo.

Mesmo a um nível isento de exposição mediática, um filho respeitado e estimado no seu meio, quer pela seriedade e qualidade do trabalho que desenvolve quer pelo seu carácter, pode transformar o aparecimento da sua mãe numa espécie de descida à terra de Nossa Senhora da Conceição poisada na nuvem. Dar-lhe uma “existência” não expectável.

E isso é bom para quê, pode perguntar-se.
Pois, é bom para a alma, seja lá isso o que for.

Verdade, verdadinha, que dispenso o séquito de anjinhos e querubins que sempre acompanham a imagem da santa, mas lá que eu gosto muito de descer à terra encarrapitada na nuvem, lá isso gosto. E ponto final.

 

3 de dezembro de 2012

Posso escolher com quem ando?

O peditório do Banco Alimentar contra a Fome correu bem. Ainda bem.

Esta organização sempre foi muito acarinhada cá na família, com doações e respeito.
As já célebres declarações de Isabel Jonet que, aos meus olhos, não foram nada infelizes mas completamente genuínas, fizeram abanar os alicerces do afecto e empatia.

Afinal, as ideias dela nada tinham que ver com as minhas; eu pensava que o Banco era uma organização movida pela solidariedade e fiquei a perceber que o combustível era a caridade.

Nunca fui adepta da caridade, mas respeito-a como um pilar da fé católica – cada um gosta do que gosta.

Nestes tempos difíceis, é preciso acorrer a quem não tem comida no prato e por isso nem me passa pela cabeça deixar de o fazer. Tenho, porém, o direito de participar como e com quem eu quiser, e decidi ser preferível fazê-lo com quem nunca quis parecer aquilo que não é. Refiro-me à Igreja, através da sua organização Cáritas, que faz um trabalho que em nada fica a dever ao Banco, só que em surdina, sem happenings bianuais.

Assiste-me ou não o direito de escolher a companhia para atravessar o pântano? Entendo que sim, e por isso acho triste ver um certo fanatismo alarve, beato e leviano vertido para texto, como neste caso:

“Ser solidário é importante.
...e não se preocupem com a maltinha bem-pensante que vos vai dizer que ajudar o Banco Alimentar (eles dirão "tia Jonet") é fazer caridadezinha.
De facto, eles estão mais preocupados em ser coerentes com o próprio e adorado umbigo e é gente que nunca deu nem dará nada a ninguém, nem um beijo, nem um abraço, nem a ponta de um corno, nem nada...”
(retirado do Facebook)

Pensar pela própria cabeça e fazer escolhas de acordo com as convicções de toda uma vida parece transformar-nos em “bem-pensantes”, termo sempre usado com enorme carga negativa, e, simultaneamente, nuns estupores que nunca deram nada a ninguém.

Se é costume dizer que as acções ficam com quem as pratica, eu acrescento que as palavras desnudam quem as profere − seja a Isabel Jonet na televisão ou um cidadão anónimo no Facebook.
É por isso que elas, as palavras, são tão perigosas.