sexta-feira, novembro 11, 2011

In memoriam

Estava o século XIX a chegar ao fim quando ele nasceu numa aldeia perdia no meio do Alentejo.
Filho de pobre tinha o destino traçado – trabalho rural, a mando dos senhores da terra, mas só quando o havia; invernos de fome, verões escaldantes à soalheira no meio da seara tornada inferno.

Jovem, levaram-no para a Guerra, a 1ª das grandes, e sempre o recordo sorrindo com sarcasmo quando os noticiários, assinalando a efeméride, glorificavam o comportamento dos portugueses na batalha La Lys. De lá trouxe, para sempre, uns olhos vermelhos e lacrimejantes, e dela lhe ficou o nome que lhe deram na aldeia – João Soldado.

Foi na trincheira que aprendeu a ler, trocando a sua ração de cigarros pela aprendizagem da leitura. Não se pode dizer que lia, mas soletrava com tanto afinco que conseguia dar conta do seu jornal, o Século, de fio a pavio.
E assinava.

A guerra era assunto de que nunca ninguém o ouviu falar, e continuava a não falar mesmo quando, certa vez, um filho exaltado com a ditadura vociferou – isto só lá vai com uma guerra. A resposta veio calma mas firme e de olhos nos olhos – cala-te rapaz que não sabes do que falas. E o”rapaz” calou-se.

Num momento em que a miséria se agudizou, tentou ainda o contrabando, mas só lá foi uma vez; dizia, rindo, que se ia borrando todo de medo.

Um invulgar e apurado sentido de humor permitia-lhe rir, com um riso genuíno e contagiante, de tudo o que de caricato acontecia na vida, sobretudo se lhe acontecesse a ele.

O caminho era, então, só um - partir para a cidade; aí chegado, num rasgo de rural quase analfabeto mas inteligente, pôs os filhos a estudar e dedicou-se a mil e uma actividades, o possível, o que aparecia, o que tentava.

Dia sim, dia não, sobressaltava a família, porque, com ou sem razão, só ele enxergava a oportunidade de vender para comprar.

A sua companheira duma vida, lá ia pondo no papel o dedo com que assinava, frequentemente receosa dos devaneios do seu homem. Mas não era por submissão ao macho que o fazia. Era porque sabia que os olhos dele, vermelhos e lacrimejantes, viam mais longe e mais nítido que os dela, aqueles que a todos encantavam com a cor de céu alentejano em dia de sol e frio.

Homem que jogou sempre limpo e esqueceu as dívidas dos que estavam em dificuldades maiores que as suas, viveu feliz, mas morreu pobre. Não tão pobre como nasceu, mas pobre.

Eu disse que morreu? Bom, acho que não completamente. Pois se ainda pr’aqui estou a falar do meu avô João…

Nota final: em 11 de Novembro de 1918 (faz hoje 93 anos) terminou a 1ª Grande Guerra.






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