quarta-feira, outubro 26, 2011

Medo

O medo é, na sociedade portuguesa, ancestral, fundo e difuso.
Inquisição e ditadura talvez no-lo tenham instilado nos genes e, se nos primeiros tempos de liberdade ele pareceu dissipar-se um pouco, aí está agora de novo tomando conta do que nunca deixou de lhe pertencer.
Não digas, não faças, não vás, fizeram parte da educação de sucessivas gerações e produziram uma sociedade cagarola que, encolhida no seu canto, tanto se atemoriza com os grandes males que já chegaram ou estão para chegar, como com os emails em que nos avisam das drogas que nos darão na rua para nos tirarem órgãos, dos malefícios da água engarrafada em plástico, e do perigo de explosão do isqueiro BIC dentro do bolso.
Estes emails chegam sempre com grandes parangonas – ATENÇÃO! PERIGO! DIVULGUEM!
O medo paralisa, atrofia, cristaliza e serve muitos propósitos políticos.
Em Portugal, hoje, somos todos precários; tudo o que tínhamos como garantido, sumiu – trabalho, reforma, casa, horário de trabalho, cuidados de saúde, escola; até o dinheiro no banco deixa os portugueses amedrontados com a hipótese de o banco falir, e esta insegurança acrescenta novos medos aos velhos medos.
Eles aí estão, cobrindo tudo com o seu manto diáfano que, infelizmente, não permite qualquer fantasia.

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