Um bebé que tinha as graças do mar.
segunda-feira, agosto 04, 2014
quinta-feira, julho 31, 2014
Olhando à volta
Encontrei e
roubei esta imagem a um amigo do facebook porque, basicamente, com ela me
identifiquei no que se refere à nova guerra israelo-palestiniana.
Este é um
conflito mais velho do que eu, cresci com ele e envelheço com ele.
Novidades em
2014:
É a primeira
vez que o acompanho nas redes sociais, e também não me lembro de alguma vez ter
sentido tanto a sua dureza.
Os níveis de
violência que chegam até nós são inauditos.
Vejo as
notícias e dizem-me que 90% dos israelitas querem continuar a guerra até ao fim
(não quero, sequer, imaginar o que entenderão eles por “até ao fim”); o Hamas,
por seu lado, espumando da boca, nem aceita tréguas humanitárias para socorrer
a sua gente.
Tento
perceber o que será viver encurralado, sem lugar para onde fugir, e com as
bombas a caírem em cima da minha família. É horror a mais.
Se é óbvio
que ambos os povos têm lideranças que não os merecem (coisa que não acontece só
a nós), isso também não me impede de ver a enorme desproporção de forças, o inenarrável
sofrimento dum povo comparado com a normalidade tranquila do outro (também vi
isso na mesma reportagem da televisão.)
A grande
novidade em 2014 são as redes sociais, que tudo ampliam.
Por lá vejo
gente histérica em defesa dos palestinianos, publicando imagens de todos os
horrores sem saberem de onde realmente provêm, mas também gente a dizer-se não-alinhada,
equidistante, que se entretém a tecer considerações sobre os “alinhados” com a
Palestina − em geral gente apalermada,
incapaz de pensar, de seleccionar informação ou de decidir por si, segundo os
seus doutos critérios.
O ruído
provocado pelos primeiros não ajuda à ponderação, é certo, e também em nada
ajuda a Palestina.
Aos segundos,
fleumáticos sempre dispostos a insultar a inteligência dos outros, começo a dedicar
muito desinteresse e pouca consideração; a estes, acabo por preferir um
terceiro tipo − os assumidamente pró-Israel, opção que me parece mais limpa e
corajosa. Mas o ruído de todos é infernal.
Quanto ao conflito,
esse já acredito que perdurará para além de mim, com cortejos de horrores que doem cada vez mais.
terça-feira, julho 29, 2014
Clara e João, combate de galácticos
A entrevista
de Clara Ferreira Alves a João Magueijo, na Revista do Expresso de sábado passado, não é bem uma entrevista.
Quando se
chega ao fim, percebe-se que aquilo não passa duma batalha verbal entre dois
cabotinos.
Ela exibe-se
formulando perguntas, que mais parecem orações de sapiência, em que consegue
introduzir termos e nomes que todos os leitores do Expresso usam quando vão ao mercado comprar sardinhas. Por exemplo, Margate, englishness, understatement,
Hawking (é uma obsessão), D. Afonso da Maia, stasis. E
ainda encontra espaço para dizer que tem um aluno de doutoramento que é
muçulmano.
Ele vai
respondendo com merda, caralho, foda-se ou cu, q.b.
A dado passo,
abandonando fugazmente a ciência e o vernáculo, Clara pergunta − “o que lê quando
está triste?”. Logo ali me pareceu que a pergunta estava quase, quase, ao nível da mais
famosa pergunta da televisão portuguesa – “o que dizem os seus olhos?”, mas para melhor, claro.
Abreviando,
e para quem não teve oportunidade de ler a entrevista, transcrevo uma pergunta/afirmação,
e respectiva resposta, que resumem magistralmente o tom e conteúdo deste trabalho
jornalístico:
- Vamos falar de Hadron Collider. (diz ela)
- Foda-se! (responde ele)
Um pouco de understatement até nem calhava aqui mal,
pois não?!
Melhor calharia
ainda sermos poupados a seis páginas de pornográfico exibicionismo de dois egos
que se julgam a encarnação única da própria partícula de Deus.
quarta-feira, julho 23, 2014
Qual é a pressa?

Gostava que
alguém me soubesse explicar o que é o que António Costa foi fazer àquela coisa,
promovida pela TSF, com o Rui Rio.
A mim,
pareceu-me que quis, desde cedo, deixar claro, num momento em que algumas
pessoas de esquerda declararam explicitamente que se iam organizar para que o
PS possa governar à esquerda no caso de não conseguir uma maioria absoluta, que,
caso necessite, se encostará sempre à
direita.
Assim como
quem diz: não se macem, filhos, eu não vou desviar-me do melhor estilo dos
partidos socialistas europeus nas últimas décadas.
E esse é,
como sabeis, encostar à direita.
Contudo,
agora pergunto eu: qual é a pressa?
Se ele
esperasse mais um pouco, podia também enganar a esquerda mais um pouco, e,
assim, levar-lhe os votos.
É que da
direita, com o candidato Rui Rio, ele não levará nenhum. A direita não precisa
do Costa para nada. E eu também não.
Por isso
daqui o saúdo − Costa, vai à m@$&a.
segunda-feira, julho 21, 2014
Olha que coisa mais linda

“Um dia, Deus
debruçou-se demasiado sobre um bocado de barro e caiu para dentro do Homem”.
Fragmentos persas
Anónimo,
século I depois de Hégira- Selecção e recolha de Téophile Morel)
In, Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz
Alfaguara, Novembro 2013, 2ª edição
Nota: um bom
texto sobre o livro pode ser lido aqui e começa assim:
Por vezes,
somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos.“Para onde vão os guarda-chuvas” é um dos mais belos livros que li nos últimos anos.
Mário Rufino
Eu estou inteiramente de acordo!
sexta-feira, julho 18, 2014
A pergunta do arquitecto
Li no
Público que o arquivo de Siza Vieira pode vir a acabar no Canadá, mais
precisamente no Centre Canadien
d’Architecture.
Felizmente é
tempo de férias, e isso poupa-nos o enfado de ler um milhão de irados comentários,
todos contra os habituais inconseguimentos da pátria.
Por mim,
acho bem. Há pessoas que não cabem onde nasceram, seja qual for o sítio em que tenham
nascido. O mundo tomou-as como suas, e não vejo nenhum mal em que seja o mundo
a tomar conta do seu legado.
Não sou uma
incondicional apreciadora do trabalho do Siza; amo Serralves ou o Pavilhão de
Portugal, não gosto, nunca gostei do Bairro da Malagueira em Évora.
Mas foi
precisamente em Évora, e por causa da Malagueira, mesmo no seu início, que
conheci Siza Vieira, ao tempo um arquitecto desconhecido da maioria dos
portugueses (eu incluída).
Um dia, nesse
final da década de 1970, Siza foi a minha casa e, observando-me com o meu
primeiro filho recém-nascido ao colo, perguntou mansamente na sua voz sempre
enrolada no fumo:
- O que
sentiu a primeira vez que olhou para ele?
Lembro-me
que não respondi imediatamente. Não é suposto que nos façam perguntas destas. Mas
vasculhei bem no meio da consciência e acabei encontrando a resposta:
- Respeito, disse.
Siza meneou
um pouco a cabeça e nada disse; apenas deu mostras de ter satisfeito uma
curiosidade sua.
Se aquele
homem, quase um estranho, não tivesse ousado fazer-me uma tal pergunta eu, se
calhar, nunca descobriria que tinha divergido do cânone que mandava que
respondesse:
- Amor!
E foi assim
que, para sempre, fiquei a dever a Álvaro Siza Vieira, arquitecto de profissão,
uma das perguntas mais interessantes e esclarecedoras com que fui confrontada na
vida.
Penso que
nunca mais nos encontrámos.sexta-feira, julho 11, 2014
Devíamos...
Há
precisamente um ano, a empáfia da família Espírito Santo não tinha limites.
Ricardo Espírito Santo Salgado dizia que “Os portugueses não querem trabalhar, preferem o subsídio” (aqui)
Cristina Espírito Santo conversava sobre a Comporta com a
Revista do Expresso e dizia que estar ali, na Comporta, em casas simples e no
meio da natureza, era como brincar aos
pobrezinhos.
Esta
conversa deu brado nas redes sociais e também entrei nela.
A estes
portugueses de primeira devíamos ser agora capazes de oferecer não um subsídio,
nem sequer uma reforma confortável.
Antes
devíamos ser suficientemente generosos para lhes proporcionarmos a absoluta
despreocupação com a subsistência para o resto das suas vidas − a elas nas
Mónicas e a eles no Linhó.
quarta-feira, julho 09, 2014
Abata-se
Eu sei que depois do grande desastre futebolístico de ontem já ninguém se lembra do que aconteceu anteontem.
Mas eu
lembro-me, que não sou criatura de me esquecer do que me lixa assim do pé para
a mão.Falo daquele
ajuntamento lá no Mercado da Ribeira à volta do António Costa.
Seiscentos
intelectuais? Gente da cultura? Ora, deixem-me rir. O país não tem nem 60 intelectuais,
quanto mais 600! Gente da cultura? Então aquele Montez que, para além de ser
genro da Cavaco ainda tem uma empresa de fazer festivais de música com um nome
piroso é da cultura? E o Nicolau Breyner que, além de ter sido do CDS, não pára
quieto nos seus encostos partidários e tem uma empresa de fazer telenovelas, se
calhar de nome piroso, mas isso não sei, é da cultura?
Uma pinoia!
Intelectual e culta sou eu, e não fui convidada.
Mas mesmo
que fosse, não ia! Apoiar o Costa? Ora, ora, mais valia que mandasse varrer a
minha rua que anda uma javardice.E aquilo foi
kitsch, kitsch, kitsch, que eu bem vi as fotografias.
Além disso,
o gajo nem sequer é de esquerda. De esquerda sou eu.
Ele não mora
na Beloura? Ou será em Sintra? Ou em Alvalade? Bom, não sei onde é, mas isso
pouco importa, porque o que eu quero mesmo é dizer que ele não tem nenhuma
ideia de cidade (saudades do Abecassis, caramba!), que é um elitista, um
arrivista que já se atreve a dizer que a cultura merece um ministério.
Li no
Expresso, num artigo que adorei (e o Balsemão também) da autoria da Rosa
Pedroso Lima, que o homem “ainda não tem programa mas já tem lei orgânica”. É
assim mesmo, ó Rosinha, dá-lhe forte, acabem lá com a porcaria da boa imprensa
que lhe deram enquanto ele esteve parqueado na Câmara. Agora é para abater!
Eu e os meus
já iniciámos o assassinato de personalidade e vamos continuar, até porque
ninguém me tira da cabeça que por ali anda o fantasma do Sócrates.
Quem é que
eles pensam que são? E como é que a entourage
deste homem teve o topete de fazer um encontro com gente da cultura e não me
convidar?!
O aviso é
sério − estou em luta, e quem quiser que me siga.
De agora em
diante, o meu lema é − Abata-se o Costa, p@$$&!!!
Nota: porque nunca tem mal avisar, este texto é, ou pretende ser, uma ironia.
sexta-feira, julho 04, 2014
Uma fé dos diabos
Dizem que o
Papa Francisco acredita no diabo.
E eu digo
que ninguém tem nada com isso, cada um acredita no que quer, ora essa. Só tenho
pena se ele vier a desiludir tanta gente que por aí anda toda babada com os
seus sapatos pretos e cambados.
Uma prova
desta sua crença, e também da retidão de procedimentos do Papa dos sapatos
pretos será, talvez, a notícia da tvi24, segundo a qual a “Associação Internacional de
Exorcistas, composta por 250 padres que alegam combater as forças do mal em
mais de 30 países, viu os seus estatutos aprovados pela Congregação para o
Clero. A decisão dá reconhecimento legal à prática do exorcismo.”.
Nada como levar
uma vida legal, e o Papa dos sapatos cambados sabe-o; fica-se sem medo da ASAE,
ou da Autoridade Tributária, ou do demo, em suma, vive-se tranquilo, e não há
dinheiro que pague isso.
Agora, com
tudo assim nos trinques, já posso dizer: eles que venham!
Todos! Todos
os padres exorcistas!Nem sei se os 250 chegarão para combater as forças do mal que por aqui estacionaram, mas talvez.
Eu, pelo
menos, confesso, com o exorcismo tratado assim ao mais alto nível em 2014 estou com uma
fé dos diabos.
A ver se arranjo
bilhetes para o exorcismo do primeiro casal.quarta-feira, julho 02, 2014
Ao espelho
Um dos
grandes fascínios que a literatura exerce em mim é poder encontrar-me,
inesperadamente, num qualquer recanto de página e, nesse momento, sentir que
não estou sozinha, ninguém está sozinho, por mais esdrúxula que possa
parecer a identificação encontrada.
Comecei a ler “Para onde vão os guarda-chuvas” de Afonso Cruz (Editora Objectiva, 2013) e, logo nas epígrafes, lá estou:
De certeza que já te
cruzaste comigo mil vezes, mas o teu olhar nunca se fixou em mim. Admiras-te?
Sou assim: não atraio a atenção. Sou um camaleão humano ou algo parecido.
Dissolvo-me no que me rodeia, faço parte da paisagem: não tenho nada em que os
olhos se prendam. Tudo em mim é de tal forma comum que as pessoas olham e não
me vêem.
(Testamento de um poeta judeu
assassinado, Elie Wiesel)
Os que me
são próximos sabem que sinto assim.
Dantes,
talvez porque ainda quisesse deixar uma marca no mundo, havia decepção. Agora,
uma bênção.
Imagem: Girl at
mirror, 1954 – Capa de The Saturday
Evening Post, 6 Março de 1954, de Norman Rockwell
segunda-feira, junho 30, 2014
Bandeiras que me desconfortam
José Mujica,
presidente do Uruguai, é uma dessas “bandeiras” da esquerda que, às vezes, me desconfortam.
Querido das
redes sociais, exemplo a seguir, homem desprendido, a viver pobremente como o
seu povo, um presidente sem mácula e, chega a parecer, concebido sem pecado.
Ultimamente
até vi uma fotografia do senhor, de pé ao léu, à espera de ser atendido numa
sala de espera dum hospital, dizia-se, junto com o resto da maralha.
Afinal, a
foto foi tirada na tomada de posse de um ministro durante uma vaga de calor no
Uruguai.
Confesso
que, depois de tudo o que já li, eu também tenho estado à espera, mas é de ver
anunciar que começou a fazer milagres.
Mujica
mostrou agora, para quem quis ver – e a maioria não quis, que das duas uma: ou
está um velhote tan-tan, ou é mais um populista.
O presidente foi, por estes dias, ao aeroporto, saudar, no regresso
a casa, o tal jogador que morde nos adversários – Suárez, carinhosamente
chamado lá na terra de Luisito.
No momento,
comentando o caso e o castigo que lhe foi aplicado, Mujica disse barbaridades
assim:
” Não o
escolhemos para ser filósofo, mecânico nem para ter bons modos. É um excelente
jogador.” (aqui)
"Sentimos que isto
é um ataque contra os pobres, porque estes golpistas não lhe perdoam [a Luis
Suárez] o facto de ele não ter frequentado uma universidade, de não ter tirado
um curso, e de viver naturalmente as rebeldias e as dores dos que vêm de baixo.
Não entendem nada, não perdoam" (Público)
E assim,
duma penada, José Mujica, o agricultor e ex-guerrilheiro Tupamaro , mostra que também ele não tem bons modos.
Nem sequer boa formação cívica.
Parece que andam a
propô-lo para o Nobel da Paz.
Se ajudar, o Luisito que o morda.
quinta-feira, junho 26, 2014
Notícias do jogo da bola
No Público online de ontem, dois títulos:
“ Paulo Bento não se demite, aconteça o que acontecer”
Paulo Bento é um bom português, digo eu; logo se via que a notícia da sua demissão era manifestamente exagerada.
“Gana
envia para o Brasil 2,2 milhões de euros para os jogadores defrontarem Portugal.
O dinheiro viajou num avião fretado
para o efeito e era uma exigência dos internacionais ganeses para não faltarem
à partida contra os portugueses.”Estes inteligentes ganeses não jogam fiado nem aceitam cheques.
Parece que cresceram numa taberna do Alentejo, penso eu.
Na rádio ouvi, juro que ouvi, ontem logo de
manhã, um tal Ricardo Costa, afirmar que o jogo de hoje com o Gana será
encarado como “o último jogo” da vida deles.
Mais disse,
eu ouvi, juro que ouvi, que, durante este equiparado a último jogo da vida
deles, “umas vezes estaremos por cima, outras estaremos por baixo”.
Eu acho bem.
E bom. E normal!
Contudo, não querendo imiscuir-me nas preferências de cada um, atrevo-me a sugerir-vos, rapazes, que hoje, se não for grande incómodo, seja um pouco mais por cima do que por baixo.
É só para variarmos um bocadinho. Nós, e vocês.
segunda-feira, junho 23, 2014
Hope so!
…no fim de
tudo ficamos modestos, mas, ao mesmo tempo, mais sofisticados.
Sándor Márai,
“A Irmã”
Imagem:
Paimio Chair, Alvar Aalto, 1931-32
sexta-feira, junho 20, 2014
Hoje jogo eu
Nas décadas
de 1960 e princípio de 1970 do século passado, entre as várias actividades que
arranjou para aumentar o ordenado, o meu pai foi correspondente, em Évora, do
jornal “A Bola”.
Ao tempo,
este era o mais respeitado jornal desportivo, sendo igualmente conhecido e
reconhecido pelo seu engajamento contra a ditadura; publicava-se, salvo erro,
três vezes por semana, e era recebido gratuitamente lá em casa.
Lá mais para
o fim dos anos desta colaboração, meu pai sentiu-se orgulhoso e honrado por,
certa vez, ter sido convidado a escrever uma coluna que, usualmente, ia rodando
pelos jornalistas da redacção e que se chamava “Hoje jogo eu”.
Se bem me
lembro, não escreveu sobre futebol, antes escolheu escrever sobre as qualidades
humanas de um jogador do Lusitano de Évora.
Eu, no seu
lugar, julgo que faria uma escolha semelhante – teria dito não ao pontapé na
bola, que até pode ser artístico mas não me prende (ao contrário do que
acontecia com o meu pai), e sim à parte boa, e tão profundamente humana, do que
o futebol também é.
Neste, como
nos outros campeonatos, o que gosto de ver é o que está antes e, se for uma
final, o que está depois, isto é, a festa.
Gosto de ver
as bancadas coloridas e ruidosas, gosto daquela megafesta de caras pintadas, cachecóis,
bandeiras, cabeleiras e camisolas, gosto de ver os jogadores das duas equipas, ainda
no túnel, aos abraços a companheiros de trabalho diário que, dentro de minutos,
serão seus adversários, gosto de ver os seus saltinhos espanta-nervos, gosto da
visível tensão que se lhes acumula por baixo da pele, gosto da entrada das
bandeiras e das equipas, gosto dos hinos e de ver as pessoas a cantá-los, gosto
do sentimento de pertença que nesse momento exibem, gosto de toda aquela
sobrecarga energética. Gosto!
Este ano, gosto
também de ver a determinação de brasileiros e chilenos (não sei se haverá mais),
em enviar um belo manguito à FIFA enquanto cantam os seus hinos por inteiro,
mesmo já sem música, porque inteira é a sua presença ali, plena de autoestima,
orgulho e emoção, características de jovens países ainda capazes de todas as
rebeldias.
Se procuro
que nada do que é humano me seja estranho,
facilmente reconheço que à volta destes grandes encontros futebolísticos há
tanto de admirável como de venal, como em quase tudo na vida.
“Hoje jogo eu”, e até 13 de Julho. Sempre do lado da festa.
quinta-feira, junho 19, 2014
segunda-feira, junho 16, 2014
Fake it
Ontem
percebi que é já para a semana que faço anos outra vez.
“Melhor do que falecer”, pensei, mas
também pensei na fantástica força que continua a ter a narrativa-maravilha
sobre o envelhecimento.
Por toda a
parte se ouve e lê o mesmo discurso, sempre acompanhado das receitas que nos
farão morrer saudáveis e viver o envelhecimento como uma parte maravilhosa da vida,
cheia de beleza, encantos mil, etc. e tal.
Por mim, não
escondo, detesto envelhecer, mas a toda a hora estou a levar com o discurso
oficial e obrigatório, sobretudo para as mulheres:
− Continue
activa, a menopausa, vendo bem, nem existe, a síndrome do ninho vazio só ataca
as outras, as fracas, mantenha a cabeça activa e verá que também o corpo se
manterá em óptimo estado de conservação sem necessidade de usar formol, os
filhos partem, claro, porque não são nossos, são do mundo, dizem.
Segue-se a
receita:
Vá ao
ginásio, saia com as amigas, leia um livro, vá ao cinema, mantenha-se
informada, faça palavras cruzadas, arranje um hobbie.
Os mais
novos acreditam piamente nisto; tanto que até desprezam a tal sabedoria que vem
com a idade no caso de ela ousar responder-lhes que não é bem assim, e que
envelhecer é uma merda.
Confesso que
tempos houve em que também eu acreditei no discurso maravilha, mas agora,
quando levo com ele em cima, tenho sempre vontade de perguntar se me garantem
que lendo um livro a cintura não engrossa, se for ao ginásio as bochechas não
descaem, se sair com as amigas não tenho cataratas, se me mantiver informada as
articulações não emperram, se fizer palavras cruzadas sou capaz de me voltar a
lembrar das linhas de caminho-de-ferro de Angola, e, se até concordo que os
filhos não são nossos, ainda gostava que me ensinassem como se abraça um filho
no Skipe. Qual a app? Onde se compra?
Tretas,
lérias, patranhas, cantigas, paleio fiado, habilidades, trampolinices
discursivas que põem a velharia toda numa de fake it till you make it.
Lamentavelmente,
comigo não dá; por mais que me impinjam a narrativa-maravilha continuo a achar
que envelhecer é apenas, e exclusivamente, melhor do que falecer.
Mau feitio,
claro.quinta-feira, junho 12, 2014
O Marinho e o Hernâni
Outro dia
perguntei como é que o Marinho Pinto tinha conseguido tantos votos se eu, que
me considero informada, não dei pela campanha dele.
- Não houve
sequer debates na televisão, argumentei.
Foi então
que me explicaram, com alguma condescendência, que o novel eurodeputado é
presença frequente nos programas diurnos das televisões onde se entretem, e
entretem os espectadores, com contundentes discursos antissistema.
Fez-se-me
luz, o que se traduziu por um prolongado e apalermado AHHHHHHHH!.
Às vezes
ligo o aparelho de tv uns minutos antes dos telejornais dos canais generalistas
e ainda vejo a parte final de algum programa, mas nunca vi o Marinho Pinto.
Aquilo geralmente termina a dar dinheiro a um telespetador que já está a almoçar
e pronto, é uma alegria. Daí o meu espanto.
Ontem,
porém, vi um pouco mais. Quando liguei (calhou ser a Sic) estava lá um senhor
de nome Hernâni a falar sobre as buscas por Maddie levadas a cabo por polícias
ingleses no Algarve.
Pouco
percebi, não consegui apanhar o fio da meada nem “pesquei” nada do raciocínio
do tal Hernâni mas os apresentadores estavam com caras de caso, e o Hernâni proferia
umas frases curtas logo seguidas duns silêncios que gritavam: sei muitas coisas
mas não vos digo porque isto é tudo muito perigoso.
Eu até tive
pena dele porque acho que ele tem muitas coisas “entaladas”, salvo seja, que
precisava de deitar fora.
Na verdade,
eu própria já me tinha perguntado: que é que Madeleine McCann tem que os outros não têm?
É que se o
governo britânico gastasse com todas as crianças desaparecidas no seu país
tanto como tem gasto com esta, se calhar já se tinha visto obrigado a fazer um
pedido de resgate ao FMI.
Mas o
Hernâni sabe, tenho a certeza, e podia dizer ao governo britânico aquilo que
estava cheio de vontade de nos dizer a nós mas não se atreveu.
Podia,
digamos, “desentalar”.
Depois de o
ver, lembrei-me da explicação que me deram para a eleição do Marinho e fiquei com
a certeza de que, se este homem Hernâni se lembrar de se candidatar a qualquer
lugar político, sem dúvida será eleito, como o Marinho. Claramente este também
é antissistema, e o povo gosta disso.
Conclusão
possível a extrair deste arrazoado: ninguém entende verdadeiramente o país se
não se vir televisão de manhã, à tarde e à noite.
Felizmente
eu já desisti de o entender.
segunda-feira, junho 09, 2014
Sebastianismo
Não sou
apreciadora da cabeça sempre fria nem da perene falta de emoção.
Nem mesmo na
política, ou sequer no jornalismo. Talvez por isso não apreciei o artigo de Ana
Sá Lopes no jornal i, sobre o “sebastianismo” à volta de António Costa.
É um desses
momentos de frieza jornalística em que, deliberadamente, apenas se verifica e
comenta o facto, omitindo sempre, e cuidadosamente, as suas causas. É também
uma visão muito gauche e um bocadão complacente.
. Termina
Ana Sá Lopes escrevendo: Convinha que se
discutisse política. Retirando a saudação à herança Sócrates e uma avaliação
mais correcta das origens da crise, Costa não disse nada que ficasse no ouvido.
Mas parece que a sedução chega.
É bem
possível que tenha razão, que Costa não faça muito melhor que Seguro mas, por
mim, que pertenço ao grupo dos que o preferem mesmo posicionando-me muito à sua
esquerda, a escolha é simples:
- Para
começar, escolho entre um boneco de plástico e um ser pensante, ambos com
provas dadas nesse tão singelo quanto relevante aspecto.
- Depois,
escolho entre o prolongar da agonia e a ténue esperança do doente desenganado.- Finalmente, escolho entre a dúvida razoável e a clara convicção, ou seja, tenho dúvidas que, daqui por um ano, Seguro consiga vencer as eleições e estou convicta que António Costa o conseguirá.
Se tal se
verificar, terei de agradecer a António Costa por nunca mais precisar de ver as
trombas de Passos e Portas no papel que têm vindo a desempenhar denodadamente -
o de guardas sádicos desta coutada onde os nossos “irmãos” ricos da Europa se
têm entretido a caçar pequenos animais − nós. E essa não será pequena dívida.
Não quero
vê-los mais, e a quem mos tirar da frente ficarei eternamente grata.
Dado o ponto
a que chegámos, Ana Sá Lopes, ainda nem é preciso discutir política; basta-me
que mude alguma coisa para que possa acreditar que nem tudo vai ficar, para
sempre, na mesma.
Que venha
Costa, pois. Pior não ficaremos porque, nesse aspecto, pior é impossívelquarta-feira, junho 04, 2014
segunda-feira, junho 02, 2014
Crónica dos dias que passam
Há dias, estando eu no Lidl, parei um pouco naquela zona em que o supermercado tem roupa e outras tralhas muito alemãs, isto é, muito “forte e feio”.
De súbito,
no meio do silêncio, (sim, porque aquele é supermercado silencioso, sem música
ambiente ou outras parvoíces sulistas), oiço a voz duma mulher, do outro lado
da banca, a dizer:
- Jô, tens
aí os teus óculos? Empresta lá!
Olhei e vi
uma mulher alta, bonita, bem arranjada, na casa dos quarenta.
Imediatamente
após o pedido, e sem nunca levantou os olhos do objecto pesquisado (no caso uns
forros para bancos do automóvel), a amiga de Jô acrescenta de si para si, mas
com decibéis suficientes para que todos a pudéssemos ouvir, e com total à
vontade no solilóquio:
- Não vejo
um cagalhão!
Ora, eu
tinha acabado de ler sobre aquele estudo americano (mais um) que afirma que “as
pessoas que dizem palavrões são mais honestas e de confiança”.
Em traços
gerais, o autor do estudo diz que “dizer
palavrões permite às pessoas expressar sentimentos que de outra forma seriam
guardados para si mesmo, ou camuflados com palavras mais ‘corretas’ mas que não
correspondem verdadeiramente à realidade que está a ser sentida. Dessa forma,
dizer palavrões em determinadas situações que o justifiquem pode ser um sinal
de honestidade e significar que estamos perante alguém que não esconde os seus
sentimentos.”
A amiga de
Jô, nem sequer disse propriamente um palavrão, mas eu achei logo que ela deve
ser uma pessoa honesta e de confiança (sou muito crente em estudos), e fiquei
grata por ter um encontro matinal assim, de tanta qualidade.
Saí do néon
para a luz da manhã a pensar como os novos conhecimentos trazidos pelos
estudos americanos podem, por vezes, mudar tudo. Imaginemos que o injustiçado
Tozé Seguro lia o estudo e decidia dizer o mesmo que tem dito mas em modo
palavrão honesto e confiável.
Assim, por
exemplo:
“Não vejo,
nem nunca vi, um cagalhão (ai!) da verdadeira política, mas isso pouco importa
porque, em compensação, sei tudo sobre manobras partidárias; metam todos nos
cornos (ui!) que eu é que sou o cabrão (ai!) do secretário-geral do PS, e que
não me demito, cara…go! (ui!), porque ganhei a porra (ai!) das eleições!
Ouviram, ó seus merdas (ui!)?”
Não tenho
dúvidas que, aí, ficaria logo com o partido na mão – honestidade e confiança, you know – e assim escusava de andar em
círculos, a fugir do Costa, e a arranjar estratagemas para fazer um congresso
daqui por uns dez anos.
E todos
ganhávamos. Sobretudo, tempo!
Alguém lhe
devia mostrar o estudo americano.Nota: imagem de CC tirada daqui
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