segunda-feira, junho 16, 2014

Fake it













 
 
 
 
 
Ontem percebi que é já para a semana que faço anos outra vez.

Melhor do que falecer”, pensei, mas também pensei na fantástica força que continua a ter a narrativa-maravilha sobre o envelhecimento.

Por toda a parte se ouve e lê o mesmo discurso, sempre acompanhado das receitas que nos farão morrer saudáveis e viver o envelhecimento como uma parte maravilhosa da vida, cheia de beleza, encantos mil, etc. e tal.

Por mim, não escondo, detesto envelhecer, mas a toda a hora estou a levar com o discurso oficial e obrigatório, sobretudo para as mulheres:

− Continue activa, a menopausa, vendo bem, nem existe, a síndrome do ninho vazio só ataca as outras, as fracas, mantenha a cabeça activa e verá que também o corpo se manterá em óptimo estado de conservação sem necessidade de usar formol, os filhos partem, claro, porque não são nossos, são do mundo, dizem.

Segue-se a receita:

Vá ao ginásio, saia com as amigas, leia um livro, vá ao cinema, mantenha-se informada, faça palavras cruzadas, arranje um hobbie.

Os mais novos acreditam piamente nisto; tanto que até desprezam a tal sabedoria que vem com a idade no caso de ela ousar responder-lhes que não é bem assim, e que envelhecer é uma merda.

Confesso que tempos houve em que também eu acreditei no discurso maravilha, mas agora, quando levo com ele em cima, tenho sempre vontade de perguntar se me garantem que lendo um livro a cintura não engrossa, se for ao ginásio as bochechas não descaem, se sair com as amigas não tenho cataratas, se me mantiver informada as articulações não emperram, se fizer palavras cruzadas sou capaz de me voltar a lembrar das linhas de caminho-de-ferro de Angola, e, se até concordo que os filhos não são nossos, ainda gostava que me ensinassem como se abraça um filho no Skipe. Qual a app? Onde se compra?

Tretas, lérias, patranhas, cantigas, paleio fiado, habilidades, trampolinices discursivas que põem a velharia toda numa de fake it till you make it.

Lamentavelmente, comigo não dá; por mais que me impinjam a narrativa-maravilha continuo a achar que envelhecer é apenas, e exclusivamente, melhor do que falecer.
Mau feitio, claro.

 

quinta-feira, junho 12, 2014

O Marinho e o Hernâni












 
 
 
Outro dia perguntei como é que o Marinho Pinto tinha conseguido tantos votos se eu, que me considero informada, não dei pela campanha dele.
- Não houve sequer debates na televisão, argumentei.

Foi então que me explicaram, com alguma condescendência, que o novel eurodeputado é presença frequente nos programas diurnos das televisões onde se entretem, e entretem os espectadores, com contundentes discursos antissistema.

Fez-se-me luz, o que se traduziu por um prolongado e apalermado AHHHHHHHH!.

Às vezes ligo o aparelho de tv uns minutos antes dos telejornais dos canais generalistas e ainda vejo a parte final de algum programa, mas nunca vi o Marinho Pinto. Aquilo geralmente termina a dar dinheiro a um telespetador que já está a almoçar e pronto, é uma alegria. Daí o meu espanto.

Ontem, porém, vi um pouco mais. Quando liguei (calhou ser a Sic) estava lá um senhor de nome Hernâni a falar sobre as buscas por Maddie levadas a cabo por polícias ingleses no Algarve.

Pouco percebi, não consegui apanhar o fio da meada nem “pesquei” nada do raciocínio do tal Hernâni mas os apresentadores estavam com caras de caso, e o Hernâni proferia umas frases curtas logo seguidas duns silêncios que gritavam: sei muitas coisas mas não vos digo porque isto é tudo muito perigoso.

Eu até tive pena dele porque acho que ele tem muitas coisas “entaladas”, salvo seja, que precisava de deitar fora.

Na verdade, eu própria já me tinha perguntado: que é que Madeleine  McCann tem que os outros não têm?

É que se o governo britânico gastasse com todas as crianças desaparecidas no seu país tanto como tem gasto com esta, se calhar já se tinha visto obrigado a fazer um pedido de resgate ao FMI.

Mas o Hernâni sabe, tenho a certeza, e podia dizer ao governo britânico aquilo que estava cheio de vontade de nos dizer a nós mas não se atreveu.

Podia, digamos, “desentalar”.

Depois de o ver, lembrei-me da explicação que me deram para a eleição do Marinho e fiquei com a certeza de que, se este homem Hernâni se lembrar de se candidatar a qualquer lugar político, sem dúvida será eleito, como o Marinho. Claramente este também é antissistema, e o povo gosta disso.

Conclusão possível a extrair deste arrazoado: ninguém entende verdadeiramente o país se não se vir televisão de manhã, à tarde e à noite.

Felizmente eu já desisti de o entender. 

segunda-feira, junho 09, 2014

Sebastianismo














Não sou apreciadora da cabeça sempre fria nem da perene falta de emoção.
Nem mesmo na política, ou sequer no jornalismo. Talvez por isso não apreciei o artigo de Ana Sá Lopes no jornal i, sobre o “sebastianismo” à volta de António Costa.

É um desses momentos de frieza jornalística em que, deliberadamente, apenas se verifica e comenta o facto, omitindo sempre, e cuidadosamente, as suas causas. É também uma visão muito gauche e um bocadão complacente.

. Termina Ana Sá Lopes escrevendo: Convinha que se discutisse política. Retirando a saudação à herança Sócrates e uma avaliação mais correcta das origens da crise, Costa não disse nada que ficasse no ouvido. Mas parece que a sedução chega.

É bem possível que tenha razão, que Costa não faça muito melhor que Seguro mas, por mim, que pertenço ao grupo dos que o preferem mesmo posicionando-me muito à sua esquerda, a escolha é simples:

- Para começar, escolho entre um boneco de plástico e um ser pensante, ambos com provas dadas nesse tão singelo quanto relevante aspecto.
- Depois, escolho entre o prolongar da agonia e a ténue esperança do doente desenganado.
- Finalmente, escolho entre a dúvida razoável e a clara convicção, ou seja, tenho dúvidas que, daqui por um ano, Seguro consiga vencer as eleições e estou convicta que António Costa o conseguirá.

Se tal se verificar, terei de agradecer a António Costa por nunca mais precisar de ver as trombas de Passos e Portas no papel que têm vindo a desempenhar denodadamente - o de guardas sádicos desta coutada onde os nossos “irmãos” ricos da Europa se têm entretido a caçar pequenos animais − nós. E essa não será pequena dívida.
Não quero vê-los mais, e a quem mos tirar da frente ficarei eternamente grata.

Dado o ponto a que chegámos, Ana Sá Lopes, ainda nem é preciso discutir política; basta-me que mude alguma coisa para que possa acreditar que nem tudo vai ficar, para sempre, na mesma.
Que venha Costa, pois. Pior não ficaremos porque, nesse aspecto, pior é impossível

 

 

 

segunda-feira, junho 02, 2014

Crónica dos dias que passam




















Há dias, estando eu no Lidl, parei um pouco naquela zona em que o supermercado tem roupa e outras tralhas muito alemãs, isto é,  muito “forte e feio”.

De súbito, no meio do silêncio, (sim, porque aquele é supermercado silencioso, sem música ambiente ou outras parvoíces sulistas), oiço a voz duma mulher, do outro lado da banca, a dizer:
- Jô, tens aí os teus óculos? Empresta lá!

Olhei e vi uma mulher alta, bonita, bem arranjada, na casa dos quarenta.
Imediatamente após o pedido, e sem nunca levantou os olhos do objecto pesquisado (no caso uns forros para bancos do automóvel), a amiga de Jô acrescenta de si para si, mas com decibéis suficientes para que todos a pudéssemos ouvir, e com total à vontade no solilóquio:

- Não vejo um cagalhão!

Ora, eu tinha acabado de ler sobre aquele estudo americano (mais um) que afirma que “as pessoas que dizem palavrões são mais honestas e de confiança”.

Em traços gerais, o autor do estudo diz que “dizer palavrões permite às pessoas expressar sentimentos que de outra forma seriam guardados para si mesmo, ou camuflados com palavras mais ‘corretas’ mas que não correspondem verdadeiramente à realidade que está a ser sentida. Dessa forma, dizer palavrões em determinadas situações que o justifiquem pode ser um sinal de honestidade e significar que estamos perante alguém que não esconde os seus sentimentos.”

A amiga de Jô, nem sequer disse propriamente um palavrão, mas eu achei logo que ela deve ser uma pessoa honesta e de confiança (sou muito crente em estudos), e fiquei grata por ter um encontro matinal assim, de tanta qualidade.

Saí do néon para a luz da manhã a pensar como os novos conhecimentos trazidos pelos estudos americanos podem, por vezes, mudar tudo. Imaginemos que o injustiçado Tozé Seguro lia o estudo e decidia dizer o mesmo que tem dito mas em modo palavrão honesto e confiável.

Assim, por exemplo:
“Não vejo, nem nunca vi, um cagalhão (ai!) da verdadeira política, mas isso pouco importa porque, em compensação, sei tudo sobre manobras partidárias; metam todos nos cornos (ui!) que eu é que sou o cabrão (ai!) do secretário-geral do PS, e que não me demito, cara…go! (ui!), porque ganhei a porra (ai!) das eleições! Ouviram, ó seus merdas (ui!)?”

Não tenho dúvidas que, aí, ficaria logo com o partido na mão – honestidade e confiança, you know – e assim escusava de andar em círculos, a fugir do Costa, e a arranjar estratagemas para fazer um congresso daqui por uns dez anos.

E todos ganhávamos. Sobretudo, tempo!
Alguém lhe devia mostrar o estudo americano.

Nota: imagem de CC tirada daqui

sexta-feira, maio 30, 2014

Maus pensamentos









 
 
 
 
 
 
 
 
Li ontem no Expresso:

Foi convocada uma greve de todos os funcionários da câmara (de Lisboa) para o dia 12 de junho (véspera de Santo António). No dia 14, haverá paralisação dos trabalhadores da limpeza urbana, entre a meia noite e as cinco da manhã. Entre 13 e 22 de junho, estes funcionários farão greve a todo o trabalho extraordinário. (aqui)

Ora bem, dia 12 de Junho é uma quarta-feira e véspera de feriado em Lisboa. Uma greve para todos os funcionários da Câmara vem mesmo a calhar.
Dia 14, logo após o feriado, é sexta-feira, e uma greve à recolha do lixo também vem mesmo a calhar.

Isto quer dizer que não haverá recolha de lixo em Lisboa durante cinco dias, sendo que neles se inserem as festas da cidade.
Entre 13 e 22 de Junho haverá greve às horas extraordinárias.

Depois disso, mais uma semaninha para dar conta do estrago e as ruas da cidade estarão, finalmente, limpas.

Estragada mesmo, e à séria, fico eu quando dou comigo a pensar:

Se é para irem votar, não vão. Se é para se manifestarem, também não vão. Disponíveis estão apenas para nos deixarem no meio da merda no Natal e no Santo António. Ora vão para a pata que os pôs!

Maus pensamentos, estes! E reaccionários!
Haverá alguma dúvida de que a culpa só pode ser do Costa?

terça-feira, maio 27, 2014

“O PS ganhou as eleições!”, ouviram?!


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na noite das eleições, e no discurso de victória, António José Seguro repetiu várias vezes que “o PS ganhou as eleições”.
 
Na segunda-feira, e numa entrevista pirosa na rua, no carro e no Rato, voltou a repetir que “o PS ganhou as eleições”.

Na Antena 1, hoje, ouvi Ana Gomes dizer, talvez em eco, que “o PS ganhou as eleições”.

Maria de Belém também veio lembrar que “ o PS ganhou as eleições” e seria pouco inteligente desvalorizar isso, como disse Augusto Santos Silva.
Acho que estão todos com medo que a gente não tenha percebido.

Mas a gente percebeu.
Lamentavelmente, esta rapaziada e mulherada é que parece que não percebeu duas coisas essenciais que os portugueses lhes quiseram dizer:

1- Nas condições actuais, se o secretário-geral do PS fosse o Rato Mickey ganhava também com 4 pontos de diferença, ou mais.
2 – Que os portugueses não gostam, não acreditam, não querem e não votam no Tozé para Primeiro-Ministro.

Teremos que fazer desenhos explicativos além das tradicionais cruzinhas?

segunda-feira, maio 26, 2014

E depois do adeus

A noite de ontem foi confusa e perturbadora. Ouvi muita gente a falar e comentar, mas eu só tenho uma certeza: ontem assisti ao momento em que a Europa fez a inversão de marcha. Continuo confusa. E não nego a perturbação também.

quarta-feira, maio 21, 2014

À rasca









 
 
 
 
 
 
 
É já no domingo, e ainda estou no Voto o quê? Voto em quem?

Obviamente, para mim só existem três hipóteses de voto: PCP, Bloco de Esquerda e Livre.
Estou-me aqui a lembrar que já votei PS quando, salvo erro em 1985, Maria de Lourdes Pintassilgo foi sua cabeça de lista para o Parlamento Europeu. Grandes tempos, grandes listas. Adiante!

Matuto, então:
- O PCP defende a saída do Euro, e acho que até voltou a ser antieuropeu, mas não explica se é para ficarmos orgulhosamente sós num mundo organizado em grandes blocos ou se será para aderirmos ao Mercosul.
Depois, o João Ferreira tem menos carisma que uma cebola − a cebola sempre me faz chorar, ele, nem isso.

- O Bloco de Esquerda propõe-se desobedecer à Europa da austeridade.
Acho bem, mas também ainda não percebi como o vai fazer, e o que esperam que aconteça no pós-desobediência. Será que tudo acaba na segunda-feira, como o Carnaval acaba na quarta, e adeus até daqui a cinco anos?
Também acho que a Marisa Matias precisa que isto acabe depressa…

- O Livre está cheio de boas ideias e quer aprofundar a democracia na Europa. Isso é que era mesmo bom, mas se para o fazer está disposto a mandar o “pai” emigrar deixando o recém-nascido sozinho por aqui, aí já acho mal. Quero o Rui Tavares por cá, na política nacional.

De modo que, certeza, tenho apenas a de concordar completamente com o que Pacheco Pereira escreveu no Público:

Hoje, a União Europeia é um monstro híbrido e perigoso, controlado por uma burocracia que detesta a democracia e que acha que “ela” é que sabe como se deve “governar” a Europa e cada país em particular. (aqui)

Muito bom, não é? Mas como contrariar isto? Continuo à rasca.

segunda-feira, maio 19, 2014

RAP é LIVRE






















Neste país não se pode nem falar, nem estar calado.
Se fala é porque fala, se cala é porque cala.

Ricardo Araújo Pereira decidiu apoiar publicamente o partido Livre nas eleições europeias, e pronto, grossa fatia do país de esquerda está desiludida.

E a que se deverá tal desilusão?
Talvez todos tivessem esperança que ele fosse “dos nossos” visto que, como se sabe, para a esquerda portuguesa, quem não é por nós, é contra nós. E não se deve rir com o inimigo.

Por mim, vejo “o caso” assim:
- RAP pertence a uma geração pouco engajada com a política, muito desconfiada dos políticos e que encara a abstenção como um modo válido de lhes “falar”.
Se a decisão de se assumir como apoiante de um partido ajudar a aumentar o número de votantes da sua faixa etária, tanto melhor: terá prestado um serviço à nossa comatosa democracia.

- As razões que RAP invoca para votar LIVRE são tão válidas como as que eu invoco para não votar LIVRE. É a democracia, pá!

- O facto de ser uma figura pública muito popular não lhe retira nenhum dos seus direitos cívicos constitucionalmente garantidos.

- RAP é corajoso; podia estar quieto, mas resolveu sair da “sua zona de conforto”, dar o peito às críticas, à inveja, às “desilusões”.

Qual será, então, o problema?
O problema − e como eu lamento dizer estas coisas! −  deve ter que ver com fanatismo e intolerância, doenças que atacam uma esquerda cansada, que não se move um milímetro ano após ano, que parte para cada novo acto eleitoral a ver se perde por poucos.

Ricardo Araújo Pereira, com a sua decisão, veio mostrar que, entre muitas outras qualidades, não só não foi contagiado pelas ditas doenças como até tem uma “saúde” de ferro.
Como de costume, o bem de uns é o mal de outros, e a “saúde” de RAP acaba a provocar dores em muito boa gente. No cotovelo, claro.

quarta-feira, maio 14, 2014

Portugal 2014








 
 
 
 
 
 
 
 
 
Olhei para esta fotografia da campanha eleitoral da coligação PSD/PP e fiz-lhe uma legenda mental: um bando de bêbados em festa.

Se a legenda é abusiva, a imagem é ofensiva – estes políticos em campanha eleitoral assemelham-se irrevogavelmente a um bando de javardos assaz satisfeitos com a sua falta de decoro.

Aqui e agora, sinto-me toureada por porcos.

Definição de javardo segundo o dicionário Priberam online:

ja-var-do
Adjectivo e substantivo masculino
Que ou quem revela falta de asseio. = BADALHOCO, PORCO
Que ou quem é mal-educado, indecoroso. = GROSSEIRO, IMUNDO, NOJENTO, PORCO

segunda-feira, maio 12, 2014

Isso é que era!









 
 
 
 
 
 
 
Sonolenta reflexão numa tarde de domingo:

A minha geração, quando as coisas não corriam bem no país, sentia que tinha o DEVER de as tentar mudar. E tinha.

A geração a seguir à minha, quando as coisas não correm bem no país, sente que tem o DIREITO de se ir embora. E tem.

E então? Moral da história?
Bom, isso não sei; se calhar nem tem.

Também nem sei por que me pus a pensar nestas parvoíces em vez de tentar perceber se a barba do tavesti que ganhou o festival da canção é real ou pintada.

Melhor ainda seria começar a alertar as redes sociais, que ainda não perceberam nada, para o facto de a victória do travesti barbudo ser parte integrante do pacote de sanções da Europa à Rússia.

Isso é que era! Mas afinal acabei por passar pelas brasas.

quinta-feira, maio 08, 2014

Cheiro a bafio












 
 
 
 
 
 
Se o meu pai fosse vivo teria quase 90 anos.
Durante toda a minha meninice, aos domingos, o meu pai pegava no meu irmão e iam os dois ao futebol.
Eu e a minha mãe ficávamos em casa, ou visitávamos a minha avó.
Só me lembro de o meu pai me ter levado ao futebol uma vez − era um jogo de futebol feminino.

Não sei se é o jogo em si que me chateia, ou se o meu inconsciente o rejeita por o associar aos domingos chatos da minha infância; certo é que nunca consigo ver um jogo de futebol inteiro, mesmo que seja da selecção, mesmo que seja de arrancar o coração, e mesmo se sou capaz de reconhecer que um bom jogo de futebol pode ser um espectáculo tão bom com qualquer outro.

O meu pai era, na sua essência, um homem do seu tempo, e no seu tempo as coisas eram assim.

Como se entretanto não tivessem passado algumas vertiginosas décadas da segunda metade do século XX, e mais quase década e meia do século XXI, ontem topei com este texto de José Mourinho, tão mau que até dói. Escreve ele:

 
"Sei que este espaço é para comunicar com os adeptos, mas um de vocês é o meu filho. Quero agradecer-lhe por estar comigo cada segundo de cada jogo, poucos metros atrás de mim, saltando a cada golo, sofrendo com cada momento difícil. Obrigado, miúdo, por seres o meu filho. Sempre que olho para ti, vejo-te, mas também vejo a tua irmã e a tua mãe, ambas em casa a torcer por nós, à espera que cheguemos a casa para sermos o que somos - uma família extraordinária... Como a família azul, apoiando-se uns aos outros"

 
Que cheiro a bafio, credo!

Claro está que a mulher e a filha de Mourinho podem não ter paciência para ver um jogo inteiro, como eu, mas, mesmo que seja esse o caso, o que ele escreve é todo um programa próprio dum homem fora do seu tempo, ao contrário do meu pai.

O que escreveu cheira a passado, à doutrina veiculada pelos textos dos livros de leitura da escola do Estado Novo, aos ensinamentos da Mocidade Portuguesa.

Lido este seu textozito kitsch, e não querendo ser exagerada na adjectivação, fica-me a sensação de que Mourinho, fora do futebol, não passará de um grandessíssimo inconseguimento. 

segunda-feira, maio 05, 2014

Um querido


 
 
 
 
 
 
 
 
 
Lá na minha terra, quando se está meio distraído, diz-se que se “está com um olho no burro e outro no cigano”. É bem possível que isto seja um bocado xenófobo, mas deixo ficar assim mesmo; a imagem é boa para ilustrar o modo como oiço a maior parte dos comentadores políticos hoje em dia – “um olho no burro e outro no cigano”.

Assim estava eu, mais uma vez, no sábado passado, enquanto Marques Mendes perorava na SIC.

De súbito, Mendes desata a elogiar Jerónimo de Sousa com tal convicção que fui levada a pôr, de novo, os dois olhos no burro (maneira de dizer, claro)

É que não é o único a fazê-lo. Todos os comentadores de direita adoram o homem. Que é muito simpático, afável, uma pessoa encantadora, obladi, obladá.

Percebo que por detrás desta” louvaminhice” unânime está uma mal disfarçada complacência dos doutores para com o ex-operário, e também a inabalável certeza de que o PCP dirigido pelo simpático nunca lhes causará incómodo de monta.

Mas, caramba, irrita-me muitíssimo que o líder do partido que representa uma grossa fatia da esquerda portuguesa nunca, nunquinha, seja capaz, por sua vez, de irritar a cambada.

Se não precisa de dar ares de quem coma criancinhas, por mim também dispenso um avô fofinho e consensual no lugar de representante máximo dos comunistas portugueses.

sexta-feira, maio 02, 2014

Quem sabe


 


Porque será que algumas pessoas, usando as redes sociais, decidem, a toda a hora, esfregar na nossa cara os seus mortos e a sua infelicidade?

Terão medo que a gente julgue que não sofrem?
Quererão a nossa piedade?
Terão medo de se encontrarem a sós com eles?
Precisarão ainda que lhes digam que eram lindos?
Precisarão que os outros vejam que tiveram uma vida?
Ou será que não suportam a solidão e o silêncio?

Seja qual for a resposta, é mau, é sempre mau. E falta ali pudor, sinto.
Na vida das gentes, há coisas que nunca deixarão de ser pessoais, intransmissíveis e indivisíveis − a dor da perda é uma delas.

E quem não percebeu isso, talvez ainda tenha percebido pouco.
E ao dizer isto, talvez esteja eu a ser moralista, quem sabe?

quarta-feira, abril 30, 2014

Eu tive um sonho



 
Já o tive de outras vezes e agora voltou, certamente pelo que vou ouvindo nas notícias − eu queria ver os finlandeses na merda.

Lá, teriam que repetir indefinidamente: a Europa é um projecto solidário!

Como julgo que iriam perguntar “o que quer dizer solidário?”, exigiria que dissessem muitas e muitas vezes até aprenderem o significado:

Que tem interesses e responsabilidades mútuas.

Era só isso. Um sonho simples, como se vê.

segunda-feira, abril 28, 2014

Olhe, Miguel, peço desculpa.



Pode a escrita de um homem envelhecer (não amadurecer) com ele?
Pode.

Nas semanas em que leio-não lei, leio-não leio, leio! o Miguel Sousa Tavares, quando acabo a leitura parece que terminei a visita a um lar de idosos.

Em compensação, quando acabo de ler o Pedro Santos Guerreiro, mesmo que não goste da conversa, gostei da esplanada e da revigorando bebida fresca com muito gelo, picos no nariz, palhinha e tudo.

Plagiando-o, Miguel, − “Peço desculpa”.

sábado, abril 26, 2014

A gente saiu à rua











Nestes três últimos miseráveis anos, eu “pecadora” me confesso: tendo deixado as militâncias políticas há muito tempo, foi nas redes sociais que encontrei companhia para enfrentar a infâmia que é esta forma de governar.

Não só com este blogue, que me permite pensar “alto” tudo o que me apetece, mas sobretudo no Facebook, de reacção mais rápida e mais interactivo.

Foi lá que encontrei muitos que não conheço, nem nunca conhecerei, mas que sentem como eu, se preocupam como eu, ou se divertem com o mesmo que eu. Amamos a liberdade e a democracia, e o 25 de Abril é uma data querida que carregamos com desvelo e carinho para onde quer que vamos.

Nestes três anos de insultos e destruição, muitos foram os momentos em que parecia que íamos morrer de tristeza ou inconsequente indignação.
Talvez por isso, e ao contrário, a celebração dos 40 anos do 25 de Abril acontecida ontem, trazia no ar benignos pólenes de primavera e de festa − a rua foi nossa; a alegria e a cumplicidade também.

No Expresso, o jornalista Fernando Madrinha sugeria: “que este 25 de Abril, além de um cravo na lapela, consiga pôr em cada rosto um sorriso. Ainda que nostálgico.”

Houve cravos e sorrisos, sim, mas não eram nostálgicos. Eram simplesmente sorrisos de gente que celebra um dia que é seu, prenhe de memórias e sonhos.

E celebrar é preciso.

No Facebook encontrei comentários e depoimentos lindos e sentidos de “amigos” que estão longe ou longíssimo, de “amigos” que sofreram a prisão na ditadura, de “amigos” que eram ainda crianças em 1974, mas os melhores, os que mais alegria me trouxeram foram escritos por duas jovens mulheres da família, filhas, já, do 25 de Abril.

Escreveram elas:

Hoje é o dia.... 40 anos!
A todos os que contribuíram para que eu pudesse viver, pensar e falar em Liberdade, Muito Obrigada.  E agora também cabe a Nós defendermos esses valores e lutarmos pelos mesmos.

 ......

Obrigada Avô!
Obrigada Pai, Mãe, Avós, Tios e Tias. Pelo 25 de Abril e pelos valores que trago comigo. A vós os devo.
Obrigada aos outros, mais e menos anónimos.
Abril não vai morrer.

Ah! Como é bom saber que o Abril que amamos tem quem tome conta dele no futuro. É que isso, ainda por cima, também quer dizer que alguma coisa acertada fizemos.

Nota: na imagem, celebração na minha terra – Évora – que há muitos anos parecia uma bela adormecida.

quinta-feira, abril 24, 2014

Ontem, hoje e amanhã













 
 
 
 
Ontem à tarde, na Fundação Gulbenkian, terminava a conferência de dois dias sob o tema “A Ditadura Portuguesa, porque durou, porque acabou”.

O painel de oradores era variado, terminando com os três ex-presidentes.

Fui. E as minhas expectativas não saíram defraudadas porque houve excelentes intervenções embora, por vezes, os oradores se tenham repetido uns aos outros, o que até não se estranha dadas as balizas impostas pelo tema.

Porém, pelas sete da tarde lamentei não ter feito um estágio em Cuba ouvindo os discursos do Fidel. É que, a essa hora, eu já “papara” quatro horas e meia de discursos (não houve nunca diálogo com a plateia) e onze oradores. E ainda faltavam Mário Soares e Jorge Sampaio.

Tenho a certeza que foi nesse o exacto momento que corpo e mente, em uníssono, disseram: chega, vai-te embora! E fui, deixando lá, com pena, dois presidentes por ouvir.

Entre a assistência estavam muitas caras conhecidas, mas uma havia que queria ser vista por todos. Uma jornalista recentemente premiada como escritora, e muito aplaudida pelo seu discurso de aceitação do prémio (inclusive por mim), abria a plumagem, exibia sorriso de diva em estado de beatitude e não dava conta dos cabelos − para cá, para lá, numa dança de sedução feminina tão velha como o tempo.

Decerto toda a gente a viu, até porque, pela sua idade, destoava um pouco da restante plateia.

A foto ali de cima mostra as cabeças que eu podia observar do meu lugar e, ao vê-las, obrigatoriamente nos comparei àqueles grupos de velhinhos que faziam romagens ao cemitério a cada 5 de Outubro, e de quem ríamos com juvenil desdém.

Está em formação acelerada a brigada do reumático que comemorará o 25 de Abril até ao fim. Integro-a com gosto e, por isso, amanhã lá irei ao Largo do Carmo ouvir o Vasco Lourenço ou outro qualquer.
É que, para mim, falar em Capitães de Abril ou MFA ainda me dá frisson.
Ontem, como hoje, ou amanhã.

Bom 25 de Abril. Sempre!