terça-feira, abril 15, 2014

Deve ser nostalgia



 
Deve ser nostalgia o que me ataca.

O ar, por estes dias, anda saturado de fotografias a preto e branco cheias de gente hirsuta de camisa estreita, com gola alta ou colarinho bicudo, saias curtas ou calças boca-de-sino.

Há-as também com soldados-meninos carregando metralhadoras e sorrisos, ruralidades cândidas e assombradas, dentes podres ou ausentes, que carne para canhão não precisava de tratamento dentário nem era suposto aparecer na fotografia

Deve ser nostalgia, suponho.

Dos dias alucinantes e alucinados, de nunca estar ninguém em casa, da ingenuidade, do rádio-prótese auditiva 24 horas por dia, do boato, do golpe, do pseudo-golpe,  do contra-golpe, das conquistas, das batalhas verbais, dos megafones, do canto-livre, dos plenários, assembleias, comissões e discussões, dos incontáveis caminhos do Alentejo, dos ganhos e perdas, emoções e desilusões, amores e desamores, dos amigos e dos reaças, dos fuzas,  dos páras e dos capitães.

Deve ser nostalgia, sim.
E a culpa é das fotografias.

Foto: Alfredo Cunha

sexta-feira, abril 11, 2014

Humor (muito) negro à sexta-feira











 
 
 
 
 
Ainda mais más notícias para os pobres: segundo a agência de notação Fitch talvez deixe de se encontrar dívida portuguesa no lixo.

Boa notícia, mesmo, era que a Fitch e companhia fossem morrer longe, mas essa não saiu nas notícias.

quinta-feira, abril 10, 2014

Resultados eleitorais do Livre


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Depois de aqui ter perguntado pelo resultado das primárias do Livre, depois de alguns me terem explicado que se saberiam apenas no dia 9 devido ao tempo para votação por correspondência, depois de outros se terem “picado” e anonimamente terem roçado o insulto, é justo que aqui deixe o link para a página do Livre que apresenta os resultados da votação e a ordenação dos candidatos na lista.

Quero apenas acrescentar que mantenho tudo o que disse, desejar felicidades ao Rui Tavares na peleja eleitoral que se avizinha e arriscar um vaticínio − Rui Tavares não será eleito.
A minha grande curiosidade reside agora no pós-isso.

quarta-feira, abril 09, 2014

Quer factura com número de contribuinte?









 
 
 
 
 
 
Hoje em dia, nem que eu compre só um parafuso e uma porca, sempre me perguntam se quero factura com número de contribuinte.

A cena é tão caricata quanto absurda, mas ilustra suficientemente os nossos dias para que não nos esqueçamos, nem por uma comprinha, que temos um governo que inventou, só para nós, a economia da tômbola (temos pena, mas não chega para ser de casino).

A invenção é simples: a gente pede todas as facturas, policiamo-nos uns aos outros, e o governo sorteia um carro para nós como dantes faziam os Inválidos do Comércio ou os Bombeiros de Santa Comba quando precisavam de fundos.

Indignidade é a palavra que me ocorre.
A grande indignidade na forma de governar.

A boa notícia é que o inverso, ou seja, a dignidade, ainda vive por cá e encontrou respaldo nas palavras de Alexandra Lucas Coelho aquando da aceitação do prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

Vale a pena ler um discurso que vai directo ao assunto, é frontal nas críticas e manda às malvas o respeitinho salazarento.

"O meu país não é deste Presidente nem deste Governo", disse, e parece que o Secretário de Estado da Cultura não gostou. Tanto pior para ele.

Não creio que o premiado romance − E a Noite Roda − mereça o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (aliás, nisso, estou muito bem acompanhada pela própria autora) mas, só para ler o seu desassombrado discurso até perdoo os estranhos equívocos da APE.

terça-feira, abril 08, 2014

“O Peso do Paraíso”


 


Já aqui tinha feito um breve comentário às esculturas de Rui Chafes que estão no jardim da Fundação Gulbenkian, e não estava entusiasmada.

Agora, fui ver a exposição no interior do CAM.

Aquela enorme nave central, ainda por cima cheia de ruído arquitectónico, não facilita o trabalho de nenhum artista.

Nela, Rui Chafes dispôs as suas peças como pôde, sem recorrer a qualquer divisória do espaço, apostando em que cada uma delas falasse e valesse por si.

Como sempre, de tudo o que vemos, gostamos de modo desigual.

Há peças que nos encantam outras que nos assustam, umas que traríamos para casa de boa vontade e outras que nos desconfortam mas, creio, não há lugar para a indiferença do visitante.

Muito física e perturbadora, mas no bom sentido, esta é uma exposição que, afinal, gostei de ver.

Nota 1: imagem Gulbenkian

Nota 2: igualmente perturbador foi verificar que uma iniciativa dos serviços educativos da Gulbenkian que estava a decorrer tinha a participação de cerca de uma dúzia de crianças, mas todas raparigas. Não me contive e falei nisso a uma animadora do grupo. Disse-me que foi um acaso, porque geralmente a distribuição meninos/meninas é mais equitativa.
E eu saí mais animada. Ou menos perturbada.

 
 
 
 
 
 

segunda-feira, abril 07, 2014

Alguém sabe do Livre?



Desde ontem às sete da tarde que procuro notícias sobre a votação nas primárias do Livre.

Estive lá na sábado, na livraria Pó dos Livros. Aquilo foi fraquito, mas também admiti, para mim própria, que foi o possível.

Até às onze horas da manhã de hoje não encontrei nada sobre a votação de ontem, nem nos jornais, nem na página oficial do Livre, cuja última postagem data do dia 5, nem na sua página no Facebook, onde a última postagem tem já 15 horas.

Que os meios de comunicação social não noticiassem, já era mau; era sinal de que a mensagem não passava, mas que o próprio partido tenha emudecido parece-me gravíssimo.

Aquilo, por acaso, era um grupo de amigos que se serviu duma data de gente para fazer um partido para o Rui Tavares ser candidato às europeias?

Não acredito; havia, certamente, muita gente empenhada em fazer alguma coisa de novo na política portuguesa, mas hoje, a esta hora, é o que, realmente, parece.

Estou danada, sim, estou. Não que me tenha empenhado seriamente no projecto, mas, mesmo assim, não gosto de me sentir usada.
Pode não ser o caso, dou ainda o benefício da dúvida, mas, como se sabe, à mulher de César não basta ser séria, deve parecê-lo também.

sexta-feira, abril 04, 2014

Viajando no sofá





Assim que se chega ao Saara, seja pela primeira ou pela décima vez, atenta-se na imobilidade. Um silêncio incrível, absoluto, prevalece fora das povoações; e dentro destas, mesmo em locais de azáfama, como os mercados, há nos ares uma qualidade de silencioso recato, como se a pacatez fosse uma força consciente que, ressentindo-se da intrusão do som, minimizasse e dispersasse o som de imediato.

Seguidamente há o céu, comparado com o qual todos os outros céus parecem esforços de corações débeis. Sólido e luminoso, ele é sempre o ponto focal da paisagem.

Ao crepúsculo, a sombra precisa, encurvada, da Terra ergue-se para ele rapidamente no horizonte, dividindo-o em secção luminosa e secção escura.

Quando toda a luz do dia já desapareceu e o espaço está pejado de estrelas, ele continua a ser dum azul intenso e ardoroso, mais escuro directamente por cima e empalidecendo em relação à Terra, pelo que a noite realmente nunca se torna escura.

Deixa-se o portão do forte ou da povoação para trás, passa-se pelos camelos deitados cá fora, sobe-se ao alto das dunas, ou sai-se para a planície dura e pedregosa e fica-se algum tempo em pé, a sós.

Daí a pouco, ou se estremece e se regressa a correr para dentro das muralhas, ou se continua ali em pé e se permite que nos aconteça algo de muito peculiar, algo que toda a gente que aqui vive já sofreu, e ao qual os franceses chamam le baptême de la solitude.  É uma sensação única, e nada tem a ver com a solidão, pois a solidão pressupõe memória. Aqui, nesta paisagem inteiramente mineral iluminada por estrelas que parecem clarões, até a memória desaparece; nada resta a não ser a nossa própria respiração e o som do bater do nosso coração. Um estranho, e indubitavelmente agradável, processo de reintegração começa dentro de nós, e temos a opção de lutar contra ele, e de insistir em permanecer a pessoa que sempre fomos, ou de o deixar seguir o seu curso. Pois ninguém que haja ficado no Saara durante algum tempo é exactamente o mesmo que quando ali chegou.

 
Paul Bowles
“Baptismo de Solidão” em Viagens
Quetzal Editores, 2013

quinta-feira, abril 03, 2014

Bateu com a cabeça


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Não, não e não. Apesar do assunto destes dias ser, de novo, a Jonet, eu recuso-me a falar da criatura.

Acho de mau gosto andar a atacar alguém que é doente.

Digo isto porque acredito piamente que, algures durante a sua vida, a senhora bateu com a cabeça e fez uma daquelas lesões cerebrais em que o doente perde o filtro social e diz tudo o que lhe vem à cabeça.

Por exemplo, imagine-se alguém que vai ao Banco Alimentar buscar o que lhe faz falta, chega lá e diz:
- Venho buscar o cabaz, mas antes quero dizer-lhe, D. Isabel, que a senhora é feia, má e cheira mal dos sovacos. Agora dê-me lá o cabaz que tenho mais que fazer.

Ora, uma coisa assim é muito desagradável, mas teria que se desculpar e pensar: é a doença.
Pois é exactamente isso que eu penso da D. Isabel Jonet – que é doente.

E por isso disse, e reafirmo: não falo dela, mas enquanto não a internarem para tratamento fugirei dela, e de tudo o que a rodeia, a sete pés. 

Até amanhã, com novos e estimulantes assuntos no menu nacional.

Notícia aqui

 

terça-feira, abril 01, 2014

O livro, a leitura, os escravos de ontem e de hoje












 
 
 
 
 
 
 
Uma criança pergunta ao seu avô:
- Porque começas todas as histórias por “era uma vez”?
- Para ter a certeza – disse o avô – de não me enganar nas datas.
(Recolhido por Jean-Claude Carrière)

 
1. Era uma vez, pois bem.

Em alguns países, em tempos não muito antigos, entre os castigos mais violentos estava este: quando algum escravo era apanhado a aprender a ler, era chicoteado dezenas de vezes. Um castigo muitíssimo severo. Ler era mais grave do que roubar.

Começar a ler era como começar a preparara a fuga. Começar a preparar a vontade de fuga, a necessidade de fuga. Eis o mais perigoso. Aprender a ler era como treinar os músculos da perna da fuga ou como treinar a disparar a arma que ameaçará o dono.

Eis, pois, o perigo – o livro. Objecto que era sempre colocado longe dos escravos (como se fosse uma arma, precisamente).

Aprender a ler era para levar a sério, era uma forma de contestação. Não era uma atividade de crianças. Era uma atividade que anunciava um homem forte.
Era, pois, para começar, uma possível definição de livro: um objecto que tem a potência de libertar da escravidão.

Gonçalo M. Tavares
Catálogo da exposição “Tarefas Infinitas”, FCG, 1012

 
Notícia dos modernos escravos que não quiseram aprender a ler:

"Em Marselha, Stéphane Ravier da Frente Nacional, foi eleito com votos de magrebinos, a população desprezada pela Frente Nacional."
Público, 31 Março 2014

 
Imagem: peça de Fernanda Fragateiro (1962), Estante e colecção de livros de autores que se suicidaram, 2000, exposta na mesma exposição “Tarefas Infinitas”, FCG, 1012


 

segunda-feira, março 31, 2014

"Os Czares e o Oriente"










 
 
 
 
 
 
 
 
 
Recomenda-se muito.
 
Uma exposição que não nos pede nada mais que os olhos, e só para os encantar.
 
Na galeria de exposições temporárias do Museu Gulbenkian, “Os Czares e o Oriente” – Ofertas da Turquia e do Irão no Kremlin de Moscovo.
 
Ao domingo de manhã a entrada é livre. E está cheia!
 
Nota: imagem retirada do site da FCG
 

sexta-feira, março 28, 2014

O problema genético do Livre













Simpatizei, desde o início, com a ideia do partido Livre; até ajudei a arranjar assinaturas para a sua formação. Na verdade, se o Movimento 3D tivesse decidido passar à acção em vez de se recolher sem mais explicações, teria feito exactamente o mesmo.

Esta pulverização da esquerda não me incomoda nada, visto que apenas põe à vista a sempre incómoda verdade – a divisão faz parte do ADN da própria esquerda.
O que me estava a perturbar, e muito, era a ausência de novas formações políticas depois destes 3 anos dum regime de terror.

Acabaram por surgir, mas o Movimento 3D revelou-se uma falsa partida, antes de o ser já o não era, e o Livre, apesar da persistência e empenho demonstrados para a sua criação, parece-me não possuir ele próprio o élan de que necessitaria para convencer uma sociedade profundamente desiludida e fragilizada.

Acresce que o Livre nasceu com um grave problema genético – ser “o partido do Rui Tavares” e, por mais que este o negue e actue em conformidade, os seus adversários políticos não perderão uma oportunidade para lhe chamarem oportunista e afirmarem que criou o partido apenas para continuar a ser deputado europeu.

Neste contexto, Rui Tavares só tinha uma atitude a tomar: autoexcluir-se, desde o início, da candidatura, e optar pela luta política interna.
Não o fez. Estão agora a decorrer as primárias do partido e, como era expectável, Rui Tavares é a pessoa mais votada para a lista de candidatura às eleições europeias.

E ouso o prognóstico: a lista vai formar-se, Tavares vai encabeçá-la, será eleito ou não, mas o Livre não passará dum cadáver adiado.
No estado de raiva, descrença e cinismo em que os portugueses se encontram, só actos inesperados, claramente desprendidos e contra tudo o que é habitual, os poderão acordar, devolver-lhes alguma esperança na política e nos políticos e mobilizá-los, mais que não seja, para votar.

Talvez por ingenuidade, Rui Tavares não percebeu isto.
Certo, certo, é que não teve o “rasgo”, a visão política, ou a vontade necessária para entender que, hoje, a credibilidade, para se ganhar, exige grande dose de sacrifícios.
Vaticino, pois, ainda que com enorme pena que, se o Movimento 3D antes de ser já o não era, o Livre logo depois de ser já o não será.

Mas, oxalá me engane.

quarta-feira, março 26, 2014

Que é que vamos fazer?




Lá venho eu outra vez com o António Guerreiro, mas o facto é que ele sempre tem alguma coisa para me ensinar.

Desta vez ensinou-me o que é a síndrome burn-out.

Citando-o, direi que “é uma doença da civilização exclusivamente ligada aos aspectos que caracterizam a organização contemporânea do trabalho”, e que apresenta os seguintes sintomas: fadiga até ao limite do esgotamento, ansiedade, incapacidade de controlar o stress, despersonalização e impotência.”

Continuando a citar o artigo de AG:

“Em média, o tempo de trabalho é hoje superior ao que vigorava no século XIX” e o progresso tecnológico em vez de libertar o homem "forneceu utensílios que acabaram por aumentar o tempo de trabalho com vista ao aumento da produção e do lucro."

Os actuais métodos de gestão “submetem, controlam, pressionam e induzem a uma competição que quebra solidariedades e cria delatores”.
“Não há exterior ao tempo de trabalho” e não há classe profissional que não sofra de burn-out, ou, em linguagem de rua, já ninguém consegue “ter uma vida”, digo eu.

A juntar a este mal global, o governo português, nos últimos três anos, legislou arduamente para aumentar o horário de trabalho, descer salários, aumentar as rendas de casa, aumentar o IMI, cortar nos apoios sociais e levar a cabo um enorme aumento de impostos.

Desregulamentar o trabalho, incitar à emigração e tornar as nossas vidas cada vez mais precárias foi uma aposta ganha pelo governo.
Assim sendo, não espanta que os dados sobre a natalidade em Portugal sejam assustadores.

Joaquim Azevedo, docente não sei do quê, disse que, a continuarmos assim, em breve estaremos nos níveis populacionais da idade média, o que torna o país inviável.

Aí o governo interroga-se: Que é que vamos fazer?

A mim apetece-me logo responder como o Pedro Abrunhosa, mas não o faço.
Primeiro, porque sou uma senhora, e segundo porque fiquei muitíssimo descansada quando li no jornal ionline:

“O docente (Joaquim Azevedo) foi apresentado recentemente pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, como coordenador de uma equipa de trabalho sobre questões de natalidade que irá trabalhar o tema e apresentar propostas ao Governo.”

Ah, pronto, com mais um grupo de estudo isto resolve-se. Alguma dúvida?

PS: Ó mãe, não abra o link do Abrunhosa

segunda-feira, março 24, 2014

João Tabarra e o abismo















João Tabarra é um artista visual nascido em Lisboa em 1966.
Tem, portanto, 48 anos, e tem também agora, no CAM da Gulbenkian, uma exposição que eu ainda não vi.
Mas li o extenso artigo,de duas páginas, que  escreveu sobre o filme “Fúria de Viver”, e que o Ípsilon de 21 de Março generosamente (?) lhe publicou.
Digo “generosamente” porque dir-se-ia estarmos perante um texto de amador, caso não se soubesse que o seu trabalho inclui a escrita sobre cinema em revistas da especialidade.
Tendo por base as experiências dos seus múltiplos visionamentos do referido filme, aproveita para escrever algumas trivialidades contra a iliteracia, a decadência intelectual do país, as horríveis pipocas no cinema, e também algumas considerações pessoais e existenciais.
Tudo muito levezinho e superficial, assim tipo blogue.
Sobre o 25 de Abril escreve “Sabemos hoje que este foi o mais efémero de todos os sonhos, se é que o chegou a ser, destruído pela chegada dos políticos e pela apressada organização dos seus jogos de poder”.
Ora, então, cá está a “conversa de taxista” pela pena do respeitável artista.
Tendo o 25 de Abril chegado quando Tabarra tinha 8 anos, e sendo de família modesta como afirma, apetece-me perguntar-lhe quem terá criado, neste país, as políticas que permitiram tratar-lhe de borla as amigdalites ou o sarampo, o vacinaram de borla, lhe proporcionaram desporto de borla se o quisesse, e estudos de borla até que quisesse?
Quem terá, afinal, criado as políticas que lhe permitiram ser muito daquilo que hoje é, a custo  mais ou menos zero para a sua família de origens modestas?
Talvez tenham sido os políticos que João Tabarra despreza tão global e levianamente; desresponsabilizar-se, não fazer distinções, crucificar os políticos tout court é conversa de taxista, sim.
Lá mais para o final do artigo, conta o artista que a última vez que reviu o filme foi no dia 7 de Agosto, e escreve: “Notei muitos outros pormenores cinematográficos em que não tinha reparado antes, daqueles que é melhor deixar para os autoproclamados especialistas…”
Eu não percebo muito bem onde ele quer chegar.
Notar “pormenores que é melhor deixar para os autoproclamados especialistas” quer dizer exactamente o quê? Então ele não é especialista? Parece que é! Então e não viu antes? Mas, afinal, viu depois? E porquê autoproclamados?
Não tenho a certeza, mas parece-me que, depois de tão claramente demonstrar desgosto pela miséria intelectual a que chegámos, também João Tabarra cai no abismo, e mostra que não tinha imunidade a um vírus, altamente patogénico, que por aí circula, e que é causador de muita da nossa actual miséria intelectual – aquele que despreza, e até hostiliza, os que aprofundam conhecimentos em campos de estudo subjectivos.
Ele chama-lhes “autoproclamados especialistas”, o vulgo chama-lhes pseudo-intelectuais. É uma praga.
Terei que ir ver a exposição de João Tabarra. Talvez goste mais do seu trabalho do que das suas ideias, quem sabe.
 
Nota: artigo disponível aqui



sexta-feira, março 21, 2014

O trabalho que a sorte me dá




















Ontem começou a Primavera.
Numa peça do telejornal da hora de almoço, para além de se falar da efeméride, foi também dito que já existe o dia da felicidade; não percebi se coincidem, a Primavera e a felicidade, mas não me admiraria nada, porque os 365 dias do ano já não são suficientes para assinalar tudo e mais um par de botas como agora parece ser obrigatório.

A reportagem seguiu para a rua para perguntar aos “populares” o que era para eles a felicidade. As respostas foram as de sempre – ter saúde, amar a família, ter trabalho ou dinheiro, etc.

Pertencendo eu aos “populares”, se me tivessem interrogado teria dado as mesmíssimas respostas, acrescentando, talvez, a falta que me faz um Inverno mais ligeiro que este último, uma democracia mais saudável e um governo que me envergonhe menos.

Apesar destes últimos “azares”, não me queixo.

Ora, se um português não se queixa, para além de ser uma pessoa feliz, só pode ser uma pessoa que tem sorte, e isso é sempre dito ao não queixoso.
Por mim, trato logo de concordar com veemência.

Só nunca digo que ter sorte é das coisas que mais trabalho me tem dado nesta vida.

quarta-feira, março 19, 2014

“Um bom homem é difícil de encontrar”









 

 
 
 
 
 
“Um bom homem é difícil de encontrar” é o título dum excelente livro de contos da escritora americana Flannery O’Conner.

É também um belo título mas, tomada na generalidade, a sentença não é verdadeira.
Todas as mulheres encontram, na sua vida, pelo menos um bom homem, mas geralmente até encontram vários.
Não é raro, porém, que estejam distraídas.

Eu sou das que encontraram vários, pese embora a enorme possibilidade de também ter estado distraída algumas vezes.
O primeiro homem bom da minha vida apareceu logo cedo, porque era meu pai.

Há já 28 anos que não o abraço neste dia que inventaram para os filhos saudarem os pais, nem em qualquer outro.
Porém, não passa um único dia em que eu não reforce a certeza que foi ele, com a sua vida exemplar, que me fez  dar atenção, e  me deu  confiança para  acreditar que, afinal, um bom homem até é fácil de encontrar.

sábado, março 15, 2014

Afinal, a vida é bela


















 
 
 
 
Durante a semana passada muito se falou no “Manifesto dos 70”, o tal que assume que a dívida portuguesa, assim, não é pagável.
Acontece que aqueles 70 portugueses querem pagar a dívida, e por isso defendem que ela tem de ser reestruturada.

Isto parece-me elementar, e tem sido prática corrente entre os homens ao longo de séculos, mas por cá gerou grande reboliço.
Não que houvesse discussão séria, isso não, que não vale a pena, mas no que toca ao insulto foi do bom e do melhor.

Partindo do princípio de que nada de novo será feito, Cavaco Silva já tinha vindo dizer que a austeridade vai manter-se até 2035, porque só então a dívida pública estará nos 60% do PIB.

Eu não me assustei nada com isso.

Hoje, o Expresso escreve que Passos faz contas diferentes e que, com números de crescimento mais modestos, conclui que a dívida é sustentável, mas que só ficará nos tais 60% do PIB em 2159, isto é, daqui a 145 anos.

Se não me tinha assustado com a conversa do Cavaco, agora então, confesso que até me apeteceu dançar.

É que, sendo assim, há esperança de que o Manoel de Oliveira ainda possa ter o subsídio por que espera para fazer o seu novo filme e eu, nessa altura, em 2159, acho que também ainda me abalanço a fazer a tal licenciatura em ciência política, mesmo que já venha a precisar de mais uns anitos para a terminar.
Afinal, a vida é bela.

sexta-feira, março 07, 2014

Números, números e mais números











 
 
 
 
 
 
 
Em Janeiro deste ano, 425 mil desempregados perderam o subsídio de desemprego.
Em Janeiro deste ano, 388 mil desempregados tiveram subsídio de desemprego.
O país está melhor!

Em 2013 houve 532.042 ordens de penhoras de salários e vencimentos por dívidas ao fisco.
Em 2013, o total das ordens de penhora foi de 2.070.315.
O país está melhor!

Américo Amorim, o português mais rico segundo a revista Forbes, detém o equivalente a 2,5% do produto interno bruto (PIB) português.

Por seu turno, Bill Gates, o mais rico do mundo, não consegue deitar as unhas a mais do que 0,5% do PIB norte-americano, e mesmo juntando os cinco mais ricos dos States eles não alcançam o feito do Amorim porque só têm 1,6% do PIB do país deles. (no i)

O país está melhor, portanto, e mais equitativo.

Ainda sobre números e cifrões: a Europa vai pagar metade dos dois mil milhões de dólares da dívida energética que a Ucrânia tem para com a Rússia; suponho que seja sob a forma de doação porque não ouvi falar em empréstimo.

Se assim for, é a realização dum velho sonho meu - dar dinheiro meu a fascistas para pagar dívidas de corruptos.

 
Fotografia de Tomas Brugger

quarta-feira, março 05, 2014

Uma mão estendida
















 
 
 
De vez em quando, muito de vez em quando, uma notícia reaviva um pouco a minha fé nos homens.

Ainda muito, mas muito mais de vez em quando, essa notícia chega pela mão dum político.
Foi o caso desta, que veio pela mão de Jorge Sampaio.

Tirar estes jovens de dentro do conflito para virem estudar, ainda que por um ano, é fazer a (boa) diferença na vida dos outros. E, para variar, em modo não assistencialista.

E foi assim que também eu ganhei qualquer coisa porque, subitamente, veio-me à memória um poema que foi quase um mantar na minha juventude, e de que há demasiado tempo me tinha perdido.

 
Et un sourire

La nuit n'est jamais complete.
Il y a toujours puisque je le dis,
Puisque je l'affirme,
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte,
Une fenêtre éclairée.
Il y a toujours un rêve qui veille,
Désir à combler, faim à satisfaire,
Un cœur généreux,
Une main tendue, une main ouverte,
Des yeux attentifs,
Une vie, la vie à se partager.

 
Paul Eluard.

Nota: os não francófonos que me perdoem hoje.

 

segunda-feira, março 03, 2014

Um outro 2 de Março



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Cumpriu-se ontem um ano sobre a segunda grande manifestação organizada pelo movimento “Que se lixe a troika”.

Alguém afirmava no Facebook que, nesse dia, éramos um milhão e meio em 40 cidades do país.
Não éramos, como foi óbvio para quem lá esteve com olhos de ver, mas os pequenos vídeos da manifestação que por aí correm relembram “aventuras”, desventuras e protagonistas deste ano passado.

Desde logo, e em tão pouco tempo, ficámos sem Relvas e ganhámos Relvas outra vez.

Victor Gaspar foi-se embora no verão dizendo que o seu plano se tinha revelado uma merda, mas já reapareceu, antes do Carnaval, dizendo que não, que não era merda nenhuma. E foi promovido.

Portas demitiu-se irrevogavelmente porque “não ia à bola” com a Albuquerque, mas revogou a irrevogável demissão e, juntinhos e cúmplices, dão conferências de imprensa auto-congratulatórias sobre o estado a que isto chegou. Também foi promovido.

O FMI mudou algumas moscas das que nos visitam regularmente mas continua a dizer que os portugueses estão bem demais. Cortem!

Muitos milhares dos jovens que se vêem nos vídeos levantando cartazes cheios de humor espalharam-se, entretanto, pelo mundo. Já cá não estão.
Os velhos, ainda cá estão, mas ficaram mais velhos, perderam reformas, certezas e, sobretudo, perderam alegria.

Não adianta escamotear a questão − não haverá mais manifestações assim, nem reais nem ficcionadas.
A energia então mobilizada esvaiu-se, foi para parte incerta, e se a verdade pode doer, mesmo assim precisa de ser encarada – eles quebraram-nos. E ganharam!