segunda-feira, novembro 05, 2012

Obama

Há quatro anos, por esta altura, o mundo estava expectante com as eleições americanas. Depois dos oito anos de chumbo de G. W. Bush, ansiávamos por algo de novo, mais leve e promissor, que viesse daquele lado do mundo. Podia ser uma mulher ou um negro, e isso, só por si, já era uma radical mudança, mas mesmo o candidato republicano tinha uma dignidade reconfortante.

Por mim, fui totalmente apanhada pelo carisma de Obama, e podia ficar horas a olhar para o homem na televisão.
Após a euforia da eleição, percebi quão difícil seria para aquela criatura satisfazer as expectativas de tanta e tão diversa gente.

Com os pés no chão, comecei a desejar apenas que ele não nos desiludisse muito.
Obama é homem do sistema, e a política é arte do possível, logo, não haveria espaço para transformações profundas.

Quando foi eleito, já tinha começado a crise do subprime, mas estávamos longe de saber como ela iria ser exportada para a Europa, e como iria mexer dramaticamente com as nossas vidas.
Chegados aqui, virados para dentro, lambendo as feridas, pouca atenção temos dispensado à eleição de amanhã, mas ela continua a ser importante também para nós.

Não sei em que proporção, internamente, Obama se saiu bem ou mal, mas sei que, cá fora, o ar continua mais respirável e menos ameaçador.
Romney tem-se apresentado como um homem de negócios de sucesso e um bom gestor. Acontece que, transportar a gestão para a política quase sempre dá mau resultado; a política, ainda mais numa potência, precisa de muito mais que gestores, precisa dos que são políticos até ao tutano.
 “Voto” Obama.


sexta-feira, novembro 02, 2012

Ulrich saído da caixa

Há dias em que olho para Ulrich e vejo uma picareta falante. Noutros vejo um boneco de mola saído da caixa com a incumbência própria do bobo da corte – bandear-se e fazer rir os cortesãos, seus donos. Tomou o gosto à coisa, que é como quem diz, a fazer palhaçadas e a dizer alarvidades, e já nem quer outra vida.

Está em todas, nem deve ter tempo para ir ao banco.

E como ele está contente consigo próprio, e como ele gosta de dizer tudo o que lhe vem àquela cabeça pouco esperta, e como ele sente a impunidade, e como ele gosta de achincalhar, e como ele é provocador.

“Aguenta, aguenta”, diz o boçal Ulrich sobre a nossa vida, e eu pensei logo em ir fechar a continha lá na loja onde ele trabalha mas, confesso, fiquei um bocado aflita.

Pensei, vou-me embora para onde?

Do BCP já fugi há anos, da Caixa Geral de Depósitos nunca me aproximei porque não gosto de marajás com um séquito de burocratas, ao Salgado não comprava nem uma vespa em segunda mão e, no que toca aos poucos restantes, era só mudar as moscas.

Resolvi ficar, até porque, hoje, abrir uma conta num banco é muito mais complicado, moroso e cansativo do que despedir 600 pessoas ou declarar falência.

Outra razão para não me dar a esse incómodo é que me parece que, qualquer dia, qualquer coisa, que não só as montras gregas, se vai partir bem perto do palerma do Ulrich, e isso vai assustá-lo tanto que até talvez fique gago.

Nesse dia, os donos do palhaço mandam-no bugiar e contratam outro.
Sempre mudam as moscas.


quinta-feira, novembro 01, 2012

Se calhar, já foi

Hoje é feriado e por isso não quero incomodar ninguém. Venho aqui só mesmo para exprimir uma dúvida:

Será que ainda temos Presidente da República, ou já emigrou também?

Há pouco tempo li este título na Imprensa Falsa:
 
“Enfermeiro escreveu a Cavaco a dizer que ia partir. Cavaco respondeu a pedir para ir com ele”.
Se calhar já foi, digo eu, sei lá.


quarta-feira, outubro 31, 2012

Nova Iorque

A tempestade que se aproximava de Nova Iorque no início da semana, era, diziam, a tempestade perfeita, e prometia causar danos.

Começámos a “vê-la” dias antes nos telejornais, com os repórteres na rua, e na segunda-feira, na internet, podia até ver-se a cidade ao minuto.

Tanta foi a atenção dispensada ao assunto que quase parecia que nós mesmos teríamos que ir fechar portas e entaipar janelas, por ser a nossa casa e a nossa cidade que estavam no olho do furacão.

Metaforicamente, não se andava longe.

Congregação de grandezas e misérias humanas, plataforma de todas as raças e credos, cidade dos sonhos, do vidro e do aço, da arte e da música, da inovação e do luxo − tanto quanto da degradação e miséria, Nova Iorque é património e símbolo maior de toda a civilização ocidental a que pertencemos.

No nosso imaginário, e para sempre, a literatura, mas sobretudo o cinema, ajudaram a fixar-lhe as curvas e os ângulos, a violência e a poesia, os recantos e os grandes espaços.

Nova Iorque está colada à pele duma civilização e duma cultura.
Por isso é casa, sim, e é também nossa.

 

Aviso à navegação: não serão publicados comentários que, embora não sejam ofensivos, nada têm a ver com o que aqui foi escrito.
Igualmente não serão publicados comentários escritos numa linguagem vagamente semelhante ao português.


terça-feira, outubro 30, 2012

A superfície das coisas

Na sua crónica no Expresso de 27 de Outubro, Clara Ferreira Alves traça o perfil dum subgrupo de jovens portugueses, que, no poder ou perto dele, está a querer destruir tudo o que é público sem nunca ter posto os pés na escola pública, por exemplo; serão possuidores dum MBA caro, feito com o dinheiro dos pais, e profundos desconhecedores da realidade que querem destruir.
Chama-lhes, “senhoritos dos mestrado de luxo”.

Joana Lopes pega nesse artigo e escreve o post “Os nossos jovens felizes”. Refere que os vê à hora de almoço, “bem trajados” (suponho que seja de fato e gravata) e que, ouvindo-os, se percebe que a crise lhes passa ao lado.

Sim, não o nego, o subgrupo existe, e está por aí bastante activo.

Porém, há no tom usado, sobretudo por CFA, um perfume a desdém pelos mestrados e MBA, como se isso fosse sinónimo de cabeça oca e neoloberalismo de pacotilha.

Não é, e, pessoalmente, estou convencida que muitos dos jovens referidos foram alunos medíocres, em escolas tanto públicas como privadas, e não fizeram nenhum mestrado ou MBA − nem de luxo nem pelintra.

Os seus percursos académicos são mais do tipo Passos e Relvas.

Por outro lado, se quisermos ter um olhar um pouco mais abrangente, poderemos encontrar jovens, desses “bem trajados”, que estudaram na escola pública da pré-primária ao último ano da universidade, arranjaram trabalho quando a coisa estava ainda um pouco menos difícil, e fizeram a sua própria poupança para com ela fazerem o tal MBA caro.

Eles também existem, e até os vi no 15 de Setembro, de jeans e t shirt, batendo furiosamente tachos e panelas enquanto gritavam as mesmas palavras de ordem que os desempregados.

No reverso da medalha, não os conhecendo, sei que há muitos “alternativos” com um pensamento neonazi.

Bem ou mal trajados, com ou sem MBA, há de tudo, como na farmácia.
A superfície das coisas é que é muito enganadora.

 

segunda-feira, outubro 29, 2012

Professor-modelo

O que é um professor-modelo?
O que é um médico-modelo?
O que é um metalúrgico-modelo?
O que é um padeiro-modelo?

Eu não sei, mas um iluminado e variado painel de respeitáveis cabeças, sob os auspícios do DN e duma empresa portuguesa de nome inglês, acha que o sabe, e vai escolher o professor-modelo, ou o professor do ano.

O referido painel é um verdadeiro melting pot - Adriano Moreira, Viriato Soromenho-Marques, Roberto Carneiro. Alice Vieira e o inevitável presidente das associações de pais, Albino Almeida (tudo ao molho e fé em deus!).

Porquê os professores? Trata-se, porventura, duma profissão em perigo de extinção como os amola-tesouras, dum subgrupo dos humanos, ou dum remeloso grupelho em que encontrar um “modelo” é como encontrar agulha em palheiro?

Distinguir um professor por ano parece-me uma brincadeira de mau gosto, desrespeitosa, até, para com os milhares de professores, competente e empenhados, que temos.

Se não fossem eles, a escola, no seu conjunto, sujeita permanentemente a experimentalismos e taras políticas, já teria dado um enorme estoiro.

A eleição de miss-qualquer-coisa sempre serviu, exclusivamente, para alimentar vaidades pessoais, e o que os professores exigem, e merecem, é respeito e condições de trabalho, coisas que cada vez têm menos.

E a defesa da escola pública também passa por aí.
Eu não gosto nada da eleição do caniche mais lindo da pradaria.
Eu gosto muito dos professores.


sexta-feira, outubro 26, 2012

A nódoa


Era uma vez uma nódoa.
Não se sabe exactamente donde veio, sabe-se apenas que veio da Europa.
Como no melhor pano cai a nódoa, esta caiu no Terreiro do Paço.
Faz aparições regulares, tipo Nossa Senhora de Fátima, mas em versão malévola.

É uma nódoa falante; fala em staccato, coisa própria de algumas patologias.
Há patologias neurológicas em que o doente perde a noção do que pode e não pode dizer, e diz tudo o que lhe vem à cabeça. Esta nódoa que fala em staccato também padece dessa patologia, bem como de megalomania, o que a leva a acreditar que vai ficar no Terreiro do Paço talvez vitaliciamente (já conhecemos outra nódoa com a mesma mania) mas, no mínimo, até 2015.

É uma daquelas nódoas tão irritantes que está disposta a não nos sair da vista, a menos que cortemos o pano.
Quando nos decidirmos por esta derradeira e radical solução, veremos quem é o melhor a fazer “cortes”.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Mater

Em verso ou em prosa, com música ou sem música, com pincéis ou sem pincéis, com voz ou sem voz, já tudo se disse sobre as mães.
Disse-se isto, aquilo e o seu contrário, e tudo é verdadeiro porque, por mais díspares que sejam as afirmações, sempre haverá uma mãe a quem assentam bem. Caso para dizer: cada mãe é uma mãe.

A minha sempre foi guerreira, desdobrando-se em todas as frentes de batalha, socorrendo cada flanco em dificuldades, cada batalhão em perigo de ser dizimado.
Inteligente e despachada, sempre teve a arte de multiplicar pães, que nunca transformou em rosas porque ninguém come rosas.

No que toca ao açúcar, com ela sempre foi como na culinária – qb − mas a dose era largamente reforçada quando estávamos doentes.
Aí, não havia limite, e ele era-nos dado em pó, granulado, em ponto pérola, caramelo ou rebuçado, branco, amarelo ou mascavado.

Deve ser por isso que, ainda hoje, maduríssima que sou, suspiro por essas carradas de açúcar quando me dão uma porcaria duns pontinhos na boca.

Olá mãe, parece que há um ponto de açúcar que faz bolinhas quando se sopra e se chama Ponto de Voar.
Pode ser desse hoje?


quarta-feira, outubro 24, 2012

Parece no Togo, mas não é



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Caro Presidente da CML

Com alguma regularidade, uso a passagem superior sobre a linha do comboio na zona do Hospital Curry Cabral.

É alta. De um lado tem 47 degraus, e do outro tem 38.

Como é natural, tem dois elevadores, um de cada lado. Infelizmente, como também é natural, é raro que os elevadores funcionem.

Se se tratasse dum particular a desrespeitar assim as leis da mobilidade já tinha apanhado uma série de multas, mas como o infractor é a Câmara, tomamos isso como uma fatalidade do ser português.

Aquilo é um dó d’alma, ver idosos de bengala, senhoras com carros de compras, ou jovens mulheres carregadas de filhos, sacos e carrinhos, no difícil exercício de subir e descer tantos degraus.

O senhor presidente já imaginou, se fosse a sua mãezinha com o carro das compras, ou o seu avozinho de bengala, ou a sua filha com os meninos, sujeitos àqueles tratos? Não gostava, pois não? Então por que se está nas tintas para os que não pertencem à parentela e até o elegeram?

Calculo que a pronta justificação para a constante inactividade do elevador será que não há dinheiro mas, se puxar por esse argumento, juro que vou achar que todas as taxas e taxinhas que pagamos servem apenas para pagar tachos e tachinhos dentro da Câmara.

Posso lá agora acreditar nisso!
Cuide da sua gente, senhor presidente, sobretudo daquela que mais precisa de ser cuidada.
E, se puder, de caminho “lave a cara” ao “bicho”, que bem precisa.

 
PS: a fotografia ali de cima não foi tirada no Togo ou na Guiné-Bissau. Acredite-se ou não, é o referido elevador lisboeta.

segunda-feira, outubro 22, 2012

Sou um estado de alma

Os alentejanos gostam de dizer que “ser alentejano é um estado de alma”.

Nós, alentejanos, somos comedores de pão, inventores da cozinha do nada e do “cante”, gente curtida pelo desalmado sol de verão e “enrijada “ pelas manhãs de geada, contadores de anedotas sobre nós mesmos, geralmente curtas, incisivas e espelho do destinatário, somos de poucas palavras e, regra geral, não temos pressa.
Somos, sobretudo, orgulhosos do que somos, e temos a particularidade de na lonjura nos encontrarmos, porque é sempre “já ali adiante”.

Não basta ter nascido no Alentejo para ser alentejano − pode-se sê-lo tendo nascido longe, porque ser alentejano é, de facto, um estado de alma.

Ora, se assim é, e se Relvas disse no Parlamento que não há espaço para estados de alma, a conclusão lógica, acho eu, é que não há espaço para os alentejanos.

Mas há, o ministro está enganado. O que não falta no Alentejo é espaço.

O senhor ministro que venha cá que a gente mostra-lhe a terra a perder de vista, os sobreiros, as azinheiras, os “montes”, a vinha, as oliveiras, as ovelhitas a pastar, tudo à larga.

E mais ainda: até temos umas grutas ali no Escoural que estamos mortinhos para lhe mostrar.
E pode ficar a ver o tempo que quiser, que agente fecha a porta por causa das correntes de ar que, volta não volta, se fazem sentir aqui no descampado.


sexta-feira, outubro 19, 2012

Um grande senhor












Manuel António Pina partiu hoje, deixando-nos ainda mais pobres e mais tristes.

Chamar nomes é feio, eu sei, mas...

Primeiro vieram as tropas dizer que, no estado em que as coisas estão, as forças armadas não estarão em condições de “defender a soberania do país”.
Independentemente das razões que possam assistir às tropas, perguntei aos meus botões – qual soberania?

Os botões responderam que podíamos tentar rapar o fundo do tacho a ver se ainda encontrávamos alguma, mas só isso.

De seguida, vem a notícia de que a Merkel reclama o direito de ingerência nos orçamentos dos outros Estados.
Aí, já nem perguntei nada aos botões; só exclamei de dentes cerrados – grande CABRA!
Acho que eles concordaram.


quinta-feira, outubro 18, 2012

Do título em inglês para a asneira em português

Volto ao Expresso de 13 de Outubro, jornal que dá direito a quase tantos comentários como os amuos do CDS, e que, na sua Revista, tem uma “coisa” que se chama login. Entende-se –o português é língua de fracos recursos!

No último sábado, a página foi dedicada à mudança de direcção do Museu de Serralves, que passará a ser assumida por Suzanne Cotter, substituindo João Fernandes.

Neste tal login, o director cessante passou a “chamar-se” João Gonçalves, e por duas vezes.

Não parece gralha, pois não?

João Fernandes está em Serralves desde 1996 e foi seu director nos últimos oito anos. Fez um trabalho tão notável que saiu para sub-director do Museu Rainha Sofia em Madrid, e, pasme-se, até foi condecorado pelo Governo francês como Cavaleiro das Artes e das Letras.

É portuguesinho de gema, com trabalho reconhecido “lá fora”, mas o jornalista do Expresso não lhe sabe o nome, e o editor também não, e o revisor também não e, se calhar, o director também não.

Analfabetismo cultural será, mas é sobretudo preguiça, muita preguiça.
Está tudo na internet, senhores jornalistas.

E, já agora, deixo ali em cima a fotografia de João Fernandes, para que o jornalista do Expresso, quando o vir em Espanha, o possa identificar correctamente, e não lhe venha a chamar Juan Fernandez, ou Gonçalvez, ou coisa que o valha.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Troika lusa


É claro que eu não li a proposta de orçamento, mas colhi no Público online de ontem a seguinte informação:

A Saúde desce 19,8% e a Educação e Ciência 0,4%, o Subsídio de doença 5,3%,  mas a Defesa Nacional aumenta 10% e a Administração Interna 12%.

Mais palavras para quê? Está à vista a matriz ideológica da troika lusa − Passos +Gaspar + Relvas.

Mas eu hoje queria mandar um recado ao “troiko” Gaspar.

Disse ele, na conferência de imprensa, que está aqui para retribuir o dinheiro que o país gastou com a sua educação.

Só posso falar por mim, claro, mas gostava de lhe dizer que sou pessoa desprendida, que paguei com satisfação os estudos dele, os dos meus filhos e os de alguns milhares de outros jovens portugueses. Pena que a cabecinha dele não tenha dado para ir além do Excel, mas paciência. Não quero nada em troca, acho que deve considerar a dívida saldada e, pela minha parte, pode e deve ir embora o mais depressa possível.

Sei que não irá. Nem ele nem o resto da troika lusa, porque o trabalhinho que vieram fazer ainda não está pronto.

A grande questão que se põe é saber se seremos nós capazes de lhes dar um belo pontapé no traseiro. Não sorrateiramente, como quem não quer a coisa, mas bem às claras como QUEM-QUER-A-COISA.
 
Eles merecem a nossa frontalidade.



terça-feira, outubro 16, 2012

Sousa Tavares e a Fundação Saramago

No seu artigo de opinião do Expresso de 13 de Outubro, Miguel Sousa Tavares escreve, muito bem como de costume, sobre a carga fiscal que aí vem. No fim, entende fazer um PS em que goza com o Congresso das Alternativas (reunião de marretas de esquerda, segundo ele) e, aproveitado o facto de este ter sido encerrado por Pilar del Rio, termina escrevendo:

Saberão os “alternativos” quanto já nos custou a Fundação Saramago e o que fez em troca pelo bem comum? Ou não lhes interessa saber?

Alternativos ou não, julgo que interessa a todos saber, mas eu lembro-me de sobre o assunto ter lido, por exemplo aqui, que a fundação não iria ter dinheiros públicos.

É certo que a obra na Casa dos Bicos foi levada a cabo pela Câmara de Lisboa; estava aos ratos, e sendo monumento nacional, não vejo por que não seria o dinheiro público a financiar a obra.

Ora, eu não sou mesmo nada admiradora da Presidenta (?) Pilar, mas ela é a mulher que Saramago escolheu para viver e para ser presidente vitalícia da sua fundação. Qual o mal? O senhor Gulbenkian não escolheu Azeredo Perdigão para presidente vitalício da fundação que leva o seu nome?

Se alguma coisa se modificou no financiamento da Fundação Saramago e o Miguel Sousa Tavares o sabe, é bom que o diga por inteiro, para todos sabermos, e não se limite a deixar no ar perguntas insidiosas que já contêm em si a resposta.

Fale, homem, eu quero saber a verdade, e um jornalista pode descobri-la muito mais facilmente que eu.

Fico à espera do esclarecimento para dar a mão à palmatória, se for caso disso. Caso ele não venha, vou continuar a pensar sobre o Miguel Sousa Tavares o que sempre pensei – excelente jornalista, quase sempre certeiro, mas, quando movido por ódios pessoais, pode espalhar verrina e suspeições de duvidosa seriedade intelectual.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Relatório

Relatório do dia 13 de Outubro para a Rute

Pois, lá fui outra vez a caminho de Praça de Espanha mas, confesso, fiquei pouco tempo.

Estavam-me a dar demasiada música para tanta raiva.
Os artistas fizeram o seu papel; contudo, aquilo pareceu-me mais um espetáculo de rua do que uma acção de protesto. Mas gostei muito, por exemplo, de ouvir a Maria do Céu guerra dizer um poema da Ana Hatherly, grande poeta e artista visual que quase ninguém conhece neste país. Mas isso já é o costume, nem vale a pena lamuriar.

Era este o poema:

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
 
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
 
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
 
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
 
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
 
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
 
NENHUMA!
 
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente


Sabes, eu acho que aquilo teria sido uma coisa bem diferente se a CGTP tivesse feito desaguar a marcha contra o desemprego lá, na Praça de Espanha. Mas isso teria sido um verdadeiro sismo nos estereótipos da CGTP. E depois como é que o Arménio falava, como é que se mostrava a força da Intersindical?
Lá por aquela banda, tudo como dantes − nós somos nós, quem quiser que venha atrás.
Nada a fazer.

Olha, esta história de andar sempre na rua também proporciona outras experiências - faz com que encontremos pessoas que já não víamos há muito tempo. E, caraças, como ficamos contentes de nos encontrarmos, e ainda mais de nos encontrarmos naqueles sítios.
Dias agridoces, os nossos, por aqui. Até breve.
Fim de relatório

 
PS: Aquela ali em cima é a Ana Hatherly há uns bons anos atrás. Escolhi-a em homenagem a todos os desprezados artistas deste país.


sexta-feira, outubro 12, 2012

Ena, pá, Seguro foi a Paris.




Seguro foi a Paris falar durante 30 minutos com François Hollande. Grande Seguro, isso é d’homem, e até parece alta política.

De que terão falado, interrogo-me. De política e de Europa não deve ter sido, visto que nenhum deles tem qualquer ideia firme naquelas cabecinhas sobre tais assuntos.

Hollande já mostrou que é mero “encarregado de negócios” dos patrões franceses e da Merkel (ao assinar o pacto de estabilidade que tinha jurado não assinar).

Seguro, por sua vez, sabe que nunca chegará a chefe de quadrilha, e os ensinamentos de Hollande nem lhe devem interessar por aí além; por isso me parece que o jovem estava com vontade de ir rever o outono em Paris e, de caminho, tomou um cafezinho no Eliseu.

Foi simpático, certamente, e fica bem no currículo, naquela parte da “experiência internacional”. Talvez se prepare para emigrar, quem sabe?!

PS: não encontrei fotos do encontro; por isso ponho outra, visto ser indiferente.

quarta-feira, outubro 10, 2012

Vivendo com a diferença

Ainda gosto de a recordar menina.
Baixinha, viva, olhos verdes e míopes, vaidosa, leitora compulsiva, parecia uma bailarina de caixa de música posta a tocar para que mostrasse graciosas habilidades.
O auditório familiar sonhava sonhos grandes para ela, menina com brilho extra, leitora precoce de Althusser e Rosa Luxemburgo.

Quando, adolescente, sobreveio o breackdown, e que raio seria isso, foi como uma bala no meio do peito do embevecido público. Havia de passar, havia de se curar.
O tapete vermelho passou a rampa de perigoso ângulo, resvalando para as alucinações, o real imaginário, os imprevisíveis humores, a esquizofrenia.
Como se um espírito mau tivesse puxado o fio do tricô tão laboriosamente tricotado, este começou a desfazer-se em brigas de amor-ódio, agressões verbais, fugas, relações cada vez mais perigosas com a vida, e lenta implosão familiar.

Nos dias bons, parodiava-se a normalidade, nos dias maus encetavam-se buscas ansiosas em pensões sórdidas da Baixa onde nunca estava só, e nem sequer aparecia, mas mandava recado, dizendo que ainda não era tempo de voltar para casa. Iniciava-se então o regresso, com uma dor que não devia ser permitida a nenhuma menina, para informar que parecia que sim, que estava viva, mas não se sabia dizer quanto.

Havia de passar, havia de se curar. E o plano inclinado cada vez mais íngreme, escorregadio e imprevisível.
Mas ainda gosto de a recordar menina.

 
PS: hoje é Dia Mundial da Saúde Mental


terça-feira, outubro 09, 2012

Que se lixe a troika e o Gaspar - duas exposições


Esta exposição é um ensaio.
Um ensaio, ensinou-nos Montaigne, é um texto que explora um objeto por tentativas, e que assim se acerca do próprio ensaísta – sem a pretensão de argumentar uma tese metódica e conclusiva. (…) – assim poderá ser uma exposição.
Paulo Pires do Vale no catálogo da exposição Tarefas Infinitas.

Foi assim que as vi, como ensaios, as exposições de Renato Ferrão, no Chiado 8, e de Carlos Nogueira no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.
O primeiro ganhou o Prémio de Artes Plásticas União Latina 2010 e, na actual exposição, continua o seu trabalho de exploração do espaço e de mandar às malvas os conceitos clássicos de escultura.
Tudo nesta exposição é movimento tenso e repetido, tudo é frágil e pode cair-nos em cima – um belo ensaio sobre os “tempos modernos”.

A retrospectiva de Carlos Nogueira no CAM é, por sua vez, o culminar do ensaio que tem sido todo o seu percurso artístico.
Sistematicamente fora do mainstream, é autor duma obra tão consistente como coerente, e, para mim, das mais originais da sua geração.
Prova dessa coerência, ao fim de mais de 40 anos de trabalho, a afirmação proferida de que não faz distinção entre o que produziu na adolescência e o que faz agora – “ Faço sempre uma única obra”.

Melhor do que Xanax, mais barato e higiénico.
E, sim, há vida para além da troika e do Gaspar.

segunda-feira, outubro 08, 2012

Duas mulheres



Naquelas lamentáveis comemorações do 5 de Outubro, duas mulheres ousaram romper o anel protector do medo que o poder político levantou em redor de si mesmo.

Quase tudo foi mau demais naquele dia, e enquanto a maioria de nós ficou em casa a rir da bandeira de pernas para o ar ou a abrir a boca com a estupidez do discurso de Cavaco, aquelas duas mulheres – Luísa Trindade e Ana Maria Pinto, movidas pelo desespero, uma, e pela indignação, outra, tiveram a coragem de estragar o fino velório.

Entretanto, o inefável Jorge Sampaio dizia que não comentava nada porque já há ruído a mais.

Pois a mim parece-me que ainda há ruído a menos, e que os ouvidos ainda lhe vão doer por excesso de decibéis.
Estou grata àquelas duas mulheres por terem quebrado a paz de cemitério que reinava no Pátio da Galé.
 

quinta-feira, outubro 04, 2012

Desaparecido (s)em combate

Não, não ando à procura do Portas, que eu bem o vi lá na AR, caladinho, é certo, mas presente. Procuro o Viegas, esse carismático escritor e editor que aceitou ser Secretário de Estado da Cultura.

Anda desaparecido. Deve entrar e sair de parapente – ninguém o vê, ninguém o procura, e, provavelmente, já ninguém se lembra que ele existe, excepto eu.

A verdade é que a criatura existe, foi convidada para a governação (ih! ih!), encheu o peito (já de si um pouco cheio), e até repetiu aquela coisa linda de “fazer mais com menos”. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o Viegas mas quero recordar que, no seu blogue, e antes das eleições, escreveu um texto de incitamento e apoio implícitos a Passos, que terminava com uma citação/recomendação assim:

 
Quando ofereceram o poder ao Mestre de Avis, explicaram-lhe: prometa o que não pode, ofereça o que não tem e perdoe a quem não o ofendeu. Aprendam. Aprendamos.

 
A coisa prometia, mas foi fogo de palha. É que nem mesmo agora, com aquela trapalhada das fundações, o ouvi lamentar o “inevitável” corte em Serralves, Casa da Música, Museu Paula Rego, Culturgest, Museu Vieira da Silva etc., enfim, aquelas casas que ainda se esforçam por não deixar que este retângulo se transforme num enorme deserto cultural.

Nada. Sumiu. Escafedeu-se.

Temo, por isso, que depois de ter escrito um policial que dava pelo nome de “Morte no Estádio”, possa estar agora a escrever, nas suas muitas horas vagas, a sequela − “Morte no Palácio da Ajuda”.

Novo modelo IRS



quarta-feira, outubro 03, 2012

Que se lixe a troika – um livro

FOME, de Knut Hamsun (1859-1952), Prémio Nobel da Literatura em 1920, é um livro soberbo. Na edição da Cavalo de Ferro, tem um longo prefácio de Paul Auster, que quase me fez desistir da leitura; não por ser mau, ao contrário, mas por achar que me ia mete com um louco, e estar farta deles.

Romance quase sem história nem personagens (apenas o narrador) conta-nos os dias difíceis dum aspirante a escritor na cidade de Kristiania, actual Oslo.

Na mais negra miséria, o jovem deambula pela cidade, para cima e para baixo, ou em círculos, escreve, ou tenta escrever, gela e alucina quando possuído pela fome de vários dias, descrita duma maneira tão vívida que dá medo.

As suas atitudes desconcertantes, pautadas por juízos pouco lógicos para quem está em tão terrível situação, fazem-nos, por vezes, pensar que está alienado, que busca a morte. Falso.

O instinto de sobrevivência acaba por falar mais alto, talvez porque o narrador tenha terminado a busca de identidade, e o teste aos limites, através da mais dolorosa das experiências físicas – a fome.

Livro publicado em 1890, não podia ser mais moderno; e o facto de o homem ter sido simpatizante nazi, aquando da ocupação da Noruega, não retira nem um pouco de valor à obra.

terça-feira, outubro 02, 2012

Crises são oportunidades?

Está na moda dizê-lo, mas, pessoalmente, entendo-a como uma frase estouvada, perigosa e imoral, destinada, bastas vezes, a criar culpa nas vítimas.

Crises são oportunidades para quem já teve muitas oportunidades na vida.

Quem, por meios lícitos ou ilícitos, conseguiu amealhar um razoável pecúlio pode, durante as crises, aumentá-lo, geralmente cavando mais no sofrimento e desespero de outros. Pode comprar pechinchas, que, após a crise, valerão muitas vezes o preço por que foram compradas.

É assim que alguns fazem, ou aumentam, fortunas. Mas são apenas alguns.

A grande massa dos que são apanhados na malha apertada da crise não possui esses meios, prévios e indispensáveis, para agarrar as oportunidades – viveu sempre do trabalho assalariado ou da pequena empresa familiar, coisas que apenas dão para ir levando o dia-a-dia e criando os filhos com mais ou menos sacrifícios.

Para esses milhões que alastram pela Europa, crise é desemprego e desespero, em muitos casos para o resto da vida.

Crises são oportunidades? Uma ova!

E o bando de papagaios que por aí anda a repetir o slogan inventado pelos mesmos que os vão lixar, melhor faria se o trocasse pela única frase do papagaio Jacob − o Jacob é burro, burro, burro.

 

segunda-feira, outubro 01, 2012

Claro que fui

Fui, pois. Como não ir?
A Praça estava cheia como um ovo?
Não, mas estava cheia.

Foi então uma boa manifestação?
Foi, mas eu senti-me apenas a cumprir um dever, longe do que vivi há duas semanas - espontaneidade, desordem organizada, humor, convicção cívica e tomada pacífica, mas assertiva, da rua.
Seja assim ou seja assado, muito asfalto temos para calcorrear.
Ainda agora começámos.


sexta-feira, setembro 28, 2012

Vida e morte dos portugueses

Eu, confesso, não gosto muito deste nosso espírito, por vezes demasiado pequenino, que nos faz tomar como ofensa tudo o que seja o bem-estar dos outros.

Porém, quando a revolta com a magnitude das injustiças toma conta deste pedaço que sou eu, também sou capaz de resvalar para a demagogia e populismo.
Logo, eu pecadora me confesso.

Vem isto a propósito da conclusão do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida que defende que o Ministério da Saúde pode e deve limitar o acesso aos medicamentos mais caros para tratar doenças como o cancro ou a sida.

Diz o médico Miguel Oliveira da Silva, presidente do dito Conselho : "não só é legítimo como, mais do que isso, desejável. Vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível, em termos de cuidados de saúde, todos terem acesso a tudo" (notícia aqui).

Sabemos, de experiência feita, que para os 21 elementos deste órgão e seus familiares, nunca haverá desperdícios. Quanto ao resto da escumalha, eles decidirão caso a caso quem deve viver e quem deve morrer.

Apetece-me gritar: valha-me nossa senhora que estamos entregues a um bando de bestas que diz tudo o que lhe vem à cabeça, mas, ao evocar a santa, logo  me ocorreu perguntar o que pensará disto, por exemplo, monsenhor Feytor Pinto, Coordenador Nacional da Pastoral da Saúde, e que ainda na quarta-feira vi entrar na sede do Movimento de Defesa da Vida, ali na Rua da Beneficência, saído dum belo Audi prateado, com motorista e vestido por Rosa e Teixeira ou aparentado; o cabeleireiro não sei quem será mas posso assegurar que o corte era excelente. Lá ia ele, todo lampeiro, defender a vida.

Desperdícios, são muitíssimos, sim, mas é com as mordomias deles todos.
Pata que os pôs, que até me fazem ser populista e demagoga.

PS: parece que a pilha da indignação já está quase carregada, e ainda bem.
Preciso da carga toda para amanhã.


quinta-feira, setembro 27, 2012

Quando Gaspar foi à escola


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Daqui  Peço desculpa, mas hoje só me apetece avacalhar.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Sem pilha

A minha pilha da indignação acabou-se, e ainda não a consegui recarregar. Talvez por isso, comecei, ainda que temporariamente, espero, a ver as declarações deste governo mais pelo lado do anedotário nacional.

Quando o Miguel Macedo veio com a conversa de haver muitas cigarras para poucas formigas, eu só me lembrei do Arnaldo Matos.

Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar, recordo que Arnaldo Matos era dirigente máximo do PCTP-MRPP nos idos de 1974/75 e, na propaganda do seu partido, apresentava-se como o grande educador do proletariado português.
O homem intitulou-se assim enquanto durou a festa, depois foi tratar da sua vida e fez muito bem.
Delegou em Garcia Pereira que é ambidestro – trata da sua vida e faz política de quatro em quatro anos.

Eis que agora, na segunda década do segundo milénio, surge um governo todo ele formado por educadores do povo em geral, e não só do proletariado, que é coisa que até já nem existe. Diria, pois, que é o grande educador de todos os colaboradores.

Já nos deram aulas ensinando que não podemos ser piegas, nem preguiçosos, nem histéricos, nem cigarras, que crises são oportunidades, que ficar na zona de conforto é para maricas, etc., tudo muito bem explicadinho.

Eles tentam afincadamente, mas tenho para mim que, para educador de cigarras, o Matos tinha mais jeito.

terça-feira, setembro 25, 2012

Prof. Marcelo e Água das Pedras ao serão de domingo

É-me difícil evitar o professor Marcelo e a sua missa dominical, posto que não vivo sozinha.

Porém, a cada semana que passa, sou mais atacada por azia, enfartamentos, e outros padecimentos digestivos, enquanto o oiço.

Náuseas, esqueci-me das náuseas que me provocam os seus recados ao governo tentando desesperadamente ensiná-lo a governar, as suas tentativas de justificar o injustificável, os argumentos fabricados apenas com metade da verdade e da realidade, os seus sorrisos de velha raposa, o seu cenho franzido simulando desgosto de pai desiludido.

Para já não falar das perguntas não formuladas por dona Judite.

A coisa atingiu proporções que me levam a ponderar a hipótese de vir a deitar-me em jejum ao domingo, e ainda antes de abrir aquele enorme pano de cena do teatro político em Portugal.

A representação é péssima, cabotina mesmo, mas o actor arrasta multidões e é bem pago.
Se calhar, é só embirração minha, mas lá que tenho náuseas, tenho.


segunda-feira, setembro 24, 2012

Fechar a porta

Há dias assim. Parece que uma fina cortina de nuvens baixas nos envolve a cabeça e deixa o corpo por sua conta.

Não é tristeza, não é nostalgia.

Não sei o que é. Não sei como se chama esse sentimento que nos vai tomando, sem sobressaltos mas inexoravelmente, quando encerramos um capítulo.

Não sei como chamar à percepção, tão nítida ao sair das nuvens baixas, de que haverá cada vez menos capítulos para ler.

Ainda que ela seja trazida por acontecimentos desejados, conquistados a pulso, e que se podem resumir como felizes, sei que ela vem quando, por exemplo, o último filho fecha a porta da casa; sei que se avoluma, mais tarde, quando somos nós mesmos que fechamos a porta da grande casa vazia.

sexta-feira, setembro 21, 2012

A ultrapassagem da crise política

Segundo e Expresso online:

Cavaco: crise política está ultrapassada

E o fotógrafo estava lá:


Exposição

Abre hoje às 22h00 a exposição de Renato Ferrão no Chiado 8

Lendo o texto do convite, aqui transcrito, parece uma exposição que tem tudo a ver com os tempos actuais.

Texto do convite

A ideia de tensão faz parte do conjunto de interesses que tem dominado as preocupações artísticas de Renato Ferrão (Vila Nova de Famalicão, 1975). Uma parte significativa das obras que apresentou nos últimos anos explorava aquele fenómeno através de instalações nas quais objetos quotidianos eram suspensos por intermédio de cabos extensores, por vezes mesmo, de simples elásticos, criando um jogo de dinâmicas que desafiava as leis da física e reagia às características arquitetónicas das salas de exposição. Extrapolando o seu resultado visual, estas explorações concorriam num efeito que confrontava o corpo do espectador na forma de uma ameaça iminente: se, por um lado, a rutura daqueles objetos parecia ser um dado a comprovar a qualquer momento, por outro, a sua confirmação comportava um risco evidente para a integridade de todo o espectador apanhado na trajetória daquela anunciada desagregação.
O projeto que Renato Ferrão traz ao Chiado 8 amplia significativamente os processos que tem desenvolvido nesta área, juntando-lhes outros dois dos seus interesses diletos: a mecânica interna dos objetos funcionais e a qualidade da luz como a mais abstrata e a menos tangível das matérias artísticas. Partindo de objetos compósitos formados pela associação de componentes avulsos, esta exposição coloca o espectador no centro de um universo onde a destabilização dos primados escultóricos e a velada sugestão cinética oferecem vislumbres claros da violência que se insinua por entre toda a tensão.
Renato Ferrão é licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, cidade onde vive e trabalha e onde cofundou o Salão Olímpico – espaço independente gerido e programado por artistas entre 2003 e 2006. Das suas exposições individuais, destaque para Longa Duração, mad woman in the attic, Porto (2006), A C ack of ence, A Certain Lack of Coherence, Porto (2008), Episódio 2: Senhor fantasma vamos falar, Emissores Reunidos – Fundação de Serralves, Porto (2009) e Vida Material,
Galeria Quadrado Azul, Porto (2010). Em 2010 foi-lhe atribuído o prémio de Artes Plásticas União Latina.

Texto e curadoria de Bruno Marchand

quinta-feira, setembro 20, 2012

Terapia de casal

Parece que a terapia do casal PSD/PP pode começar ainda hoje. É, de facto, urgente, dada a gravidade dos desentendimentos, e antes que se chegue a uma verdadeira “Guerra das Rosas”.

Não tenho dúvidas: quando a sessão acabar, surgirão com um sorriso de circunstância para as câmaras e dirão que tudo vai bem.

Lá dentro dirão que ainda se amam, mas que a rotina e consequentes facadas no casamento estão a pôr em perigo a relação. Farão juras de que tentarão o diálogo, darão atenção ao outro e às suas necessidades, farão jantares românticos, sairão juntos para cantar a Nini, tentarão surpreender-se com SMS, flores e chocolates, e puxarão pela imaginação na cama.

E a gente a vê-los, a saber que não têm vontade nenhuma de cumprir as promessas mas, de momento, terão que aguentar, porque também nenhum tem vontade de voltar para casa da mãe e a vida está muito cara.

Vai uma apostinha que vai ser mesmo assim?

Demasiado perigoso para continuar

Ângelo Correia disse, numa televisão qualquer que “a queda deste governo seria a pior coisa que podia acontecer ao país”.
Pois eu penso exactamente o contrário; mantê-lo, isso sim, seria o pior que podia acontecer ao país.

É um governo perigoso, que aproveitará cada dia restante da sua vida para continuar a “desmontagem” do país, pedra por pedra, por encomenda mas também por convicção.

É preciso que saia. Salteadores a soldo não podem ser governantes.
E não nos venham meter medo com o day after.
Medo e paciência já os mandámos juntos pelo cano.

 

 

quarta-feira, setembro 19, 2012

Não terão mais nada que fazer?

Discutir questões de fé é pura perda de tempo. Atacar a fé de alguém é pura questão de mau gosto.

Fé, temos todos – até um ateu como eu tem fé; se esta se caracteriza, precisamente, pela impossibilidade de provar a existência de alguma coisa (neste caso, Deus), também eu não posso provar que ele não existe.
Logo, ser ateu é uma questão de fé.

Nunca me lembraria de fazer um boneco do Papa com um preservativo no nariz, o que, sendo um acto de livre expressão, não deixa de conter a sua boa dose de provocação inútil, nesta minha perspectiva.

Porém, Europeia que sou, vivo essas questões com normalidade.

Daí que olhe com profunda estranheza a orgia incendiária que vai no mundo árabe por causa dum filme que, supostamente, insulta o profeta Maomé.

Dias a fio, e saltando de país para país, aquela turba movida por uma sanha assassina incomoda-me, por mais que respeite outras culturas e civilizações.

Ontem, dei comigo a pensar: e não terão mais nada que fazer?
Respondi-me de imediato: se calhar não têm mesmo.


terça-feira, setembro 18, 2012

Nota breve


Partidos e sindicatos são organizações indispensáveis em democracia, acredito, mas face às manifestações de sábado também não podem assobiar para o ar.

Os portugueses mostraram que não precisam deles para se mobilizarem e fazerem uma imensa manifestação, forte e sem incidentes.

Ficou claro que o que nos une é maior e mais forte do que o que nos divide.

Partidos e sindicatos, se nos querem representar, devem pensar bastante sobre as razões por que ninguém lhes sentiu a falta.