segunda-feira, janeiro 28, 2013

No país dos homens muito inteligentes

É aqui, esse país, e temos vários. Os que reúnem maior consenso de “muito inteligentes” são Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, um do PSD e outro do PS.

Ambos são dados ao comentário político visionário, raciocínio rápido e “brilhante” e vêem como ninguém o que deve ser feito em política.

Porém, ambos passaram fugazmente por ela, e dela fugiram logo que surgiu uma oportunidade, voltando às suas cátedras, escritórios de advogados, pareceres bem pagos e ao comentário “muito inteligente”.
Coisas mais pesadas, como resistir e governar, por favor não lhes peçam, porque as suas brilhantes cabeças não se podem entreter com tão pouco.

Surge-nos agora um novo D. Sebastião, que não tem tanta fama de “muito inteligente” (mas deve ser) e que nem tem fugido da política de trazer por casa − António Costa.
O país do centro para a esquerda, sedento de alternativa credível e oposição que se veja, anseia pela sua liderança no PS.

Veremos o que escolhe: se os seus interesses políticos pessoais, com um voo da Câmara de Lisboa directamente para Belém, ou se arrisca tentar travar o nosso suicídio colectivo polvilhando um futuro governo com um pouco de bom senso.

Por mim, já acredito em tudo, que começa a parecer-se demais com o não acredito em nada.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Fiquem quietos e não chateiem

Na última década, talvez, este país tem vindo a ser feito para gente que gosta de estar sentada e, simultaneamente, para infernizar a vida de gente que gosta de se mexer.

São tantas as leis, normas, regras e exigências para quem quer fazer alguma coisa, que mais parece que os sucessivos governos nos querem dizer: quietos aí, seus estafermos, sentem-se e não chateiem.

Sem falar no caminho do calvário que é exigido a quem quer começar um qualquer negócio, vejamos este caso:

O senhor F tem uma casa grande no Centro Histórico duma terra pequena. Decide que já não precisa duma casa tão grande e pensa em rentabilizá-la fazendo duas de uma.

Como a obra exige licença camarária, vejamos o que lhe é pedido:

- Projecto de arquitectura
- Projecto de estruturas
- Projecto de águas
- Projecto de esgotos
- Projecto de instalações de Telecomunicações (ITED)
- Projecto de instalações de sistema de gás
- Projecto de instalções eléctricas (circuitos, quadros, medições)
- Ficha técnica de segurança contra incêndios
- Comportamento térmico
- Avaliação acústica
- Acompanhamento das escavações por arqueólogo contratado pelo dono da obra a empresa especializada (que era usualmente feito pelos serviços competentes)
- Licença de obra
- Certificado energético (no fim)

Custo de tudo isto: cerca de 20% do custo da própria obra.

Qualquer alminha pensará meia dúzia de vezes se não será melhor ficar sentada. Muitas ficam, e as outras gastam rios de dinheiro enquanto passam as passinhas do Algarve às mãos dos serviços públicos que também pagamos, e pagamos, e pagamos.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Alegrias

Estou de volta.
Ontem fui aos mercados e voltei estafadinha. O que me estafou não foram os mercados que, tão queridos, estavam com imensas saudades nossas e até queriam comprar cinco vezes mais de mercadoria de que aquela de que dispúnhamos de momento.
Não, o que verdadeiramente me cansou foi a propaganda. Foi uma tal dose que até parecia que o Sócrates tinha aterrado na Portela e eu estava a reviver aqueles gloriosos dias.
No regresso dos mercados, e carregadinha de propaganda, ainda tive que passar pelo Tribunal Constitucional para dizer aos senhores juízes que não se atrevam a encontrar inconstitucionalidades no Orçamento, porque a Standard & Poor’s, que há muito nos tem no lixo, já avisou que, se isso acontecer, vai ligar o triturador.
Ficaram avisados.
Foi um dia muito cansativo mas de muitas alegrias; toda a gente sabe que não há nada que uma mulher mais goste do que ir aos mercados.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Notícias do Oriente


A “velha Europa” tem que mudar para ser mais competitiva, deve parecer-se mais com os tigres asiático, não é?
Lá, nos tais tigres, é assim:
Dois minutos para mijar, na China, e um para morrer, Japão.
Olha, nem sei por que ainda me indigno.

terça-feira, janeiro 22, 2013

Filhos pronto-a-usar

Talvez eu esteja a ficar cínica, talvez a minha fé nos humanos esteja a chegar ao grau zero, talvez outras coisas pouco louváveis se passem comigo, mas o certo é que imagens como esta não me tocam, não me comovem, e até me levantam estúpidas dúvidas.

Ser rico e famoso e “pescar” para adopção um negrinho aqui, um asiático acolá, levanta-me muitas interrogações. Será a compaixão e o espírito de bem-fazer que os move, ou será uma inovadora forma de marketing? Ou  apenas um desejo consumista como qualquer outro?

O que os move? A bondade, ou o ego insuflado que tudo quer e tudo pode?
De uma coisa tenho a certeza − exibir assim uma enorme prole multiétnica rende.

Não duvido que estas crianças estão melhor com eles do que num orfanato. Já quanto à capacidade de lhes dar o muito que uma criança precisa para além de comida, instrução e cuidados de saúde, tenho cá as minhas dúvidas.

A verdade é que não acredito que este casal, com a vida que escolheu ter, possa dispensar a seis ou sete crianças a atenção e educação de que elas precisam para crescerem mental e afectivamente equilibradas.

Digo-o eu que só criei duas.

Olho e acho que eles não têm filhos, têm um infantário; mas se é um infantário, então bem podiam ter vinte e assim “salvar” mais uns quantas crianças de todas as raças e credos.

Talvez eu esteja enganada. Talvez o super-homem e a supermulher, afinal, existam, e tenham encarnado no Pitt e na Jolie.

Muito gostava eu de olhar para imagens destas e ficar simplesmente embevecida; por que tenho que sentir desconforto?



segunda-feira, janeiro 21, 2013

AO & Fashion

Na sua crónica de sábado passado no Expresso, Miguel Sousa Tavares volta ao triste Acordo Ortográfico e à inusitada e ridícula situação de hoje haver três grafias oficiais do português.

Na revista do mesmo jornal, surge um artigo sobre os blogs de moda.

São oito os blogs e chamam-se: Fashion-à-Porter, Stylista, Fashion Rules, Lab Daily, The Stiletto Effect, …And This Is Reality, Janela Urbana e O Alfaiate Lisboeta.

Como se vê, 75% destes portugueses, maioritariamente trintões, escolheram o inglês para dar título ao seu blog.

Voltando ao Miguel Sousa Tavares, ele escreve, e eu concordo, que “há coisas que nenhum país independente cede sem estremecer: o território, o património, a paisagem, a língua.”

Concluo que este é um país “firme e hirto como uma barra de ferro” já que nada o faz estremecer – se o território lá se vai mantendo, o património é o parente pobre a quem se dá o que sobeja do, sempre parco, orçamento doméstico; no que toca à paisagem, temos feito tudo o que está ao nosso alcance para a desfigurar, e quanto à língua… as novas gerações evitam-na, e o normal é não saber pontuar, acentuar, grafar ou, sequer, fazer concordar (Pedro Passos Coelho é disso o exemplo maior).

Escrever em português parece ser, cada vez mais, uma extravagância um bocado saloia; está absolutamente out.
Em breve nos entenderemos apenas em inglês, e o AO passará a ser um não-assunto.
Será o momento de, por aqui, voltarmos todos a dormir na santa paz própria dos animais de sangue frio.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Três singelas perguntas


Caro Tó Zé Seguro

Li ontem no ionline que você disse: "Ambiciono uma maioria absoluta. Só com maioria absoluta é que consigo aplicar o meu programa e do Partido Socialista para Portugal entrar num novo rumo
Venho aqui para lhe fazer três perguntas:
1 – Acha que vai haver eleições em breve?
2 - Vai pedi-las?
3 – Seria possível dar-nos um vislumbre do seu pensamento político para dar “novo rumo a Portugal”?

É que, sem resposta a estas três singelas perguntas acho um bocado estapafúrdio que nos venha falar em maiorias absolutas.

Usando o português de Portugal, parece-me que está a pôr a carroça à frente dos bois, usando o português do Brasil diria que está a fazer conversa mole para boi dormir.
Vai responder aqui à manada, ou quê?

quinta-feira, janeiro 17, 2013

"Capitalista, sim, mas zen"

Blogues e Facebook estão pejados de portugueses entregues à filosofia zen, muito apetitosa para os tempos que correm – distanciamento, desapego, paz interior, e assim. Não resisto, por isso, a transcrever excertos dum, também muito apetitoso, texto do polémico filósofo esloveno Slavoj ZizeK − “Capitalista, sim, mas zen”, que retirei da internet em tradução brasileira (aqui)

 
“…No momento em que a tecnologia e o capitalismo “europeus” triunfam em escala planetária, a herança judaico-cristã, como “superestrutura ideológica” parece ameaçada pelo assalto do pensamento “asiático” da Nova Era. O taoismo é adequado para se tornar a ideologia hegemónica do capitalismo mundial. Uma espécie de “budismo ocidental”, se apresenta hoje como remédio contra o stresse da dinâmica capitalista. Ele permitiria que nos desligássemos, que mantivéssemos a paz interior e a serenidade, e funcionaria, na realidade, como um perfeito complemento ideológico.
Solução escapista

As pessoas não são mais capazes de se adaptarem ao ritmo do progresso tecnológico e das transformações sociais que a acompanham. As coisas andam muito rápido. O recurso ao taoismo ou ao budismo oferece uma saída. Em vez de tentar se adaptar ao ritmo das transformações, é melhor renunciar e “deixar ir”, mantendo certa distância interior em relação a essa aceleração, que não diz respeito ao núcleo mais profundo de nosso ser. Estaríamos quase tentados a utilizar novamente, agora, o clichê marxista de religião como “ópio do povo”, como suplemento imaginário à miséria terrestre. O “budismo ocidental” aparece, dessa forma, como a maneira mais eficaz de participar plenamente da dinâmica capitalista mantendo uma aparência de saúde mental.

Na visão do budista, a exuberância da riqueza financeira mundial é ilusória, apartada da realidade objetiva: o sofrimento humano engendrado pelas transações operadas nas salas dos mercados e conselhos administrativos invisíveis para a maioria de nós. Que melhor prova do caráter não substancial da realidade do que uma gigantesca fortuna que pode se reduzir a nada em poucas horas? Por que deplorar que as especulações sobre os mercados sejam “apartadas da realidade objetiva” quando o princípio fundamental da ontologia budista enuncia que não há “realidade objetiva”?

Por conseguinte, o que nos resta a fazer é renunciar ao nosso desejo para adotar uma atitude de paz interior. Não é de surpreender que um tal budismo-taoísmo possa funcionar como complemento ideológico da globalização liberal: ele nos permite participar do esquema mantendo uma distância interna... Capitalistas, sim, mas desapegados, zen...”

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Barata tonta e ADSE

Quase apetece repetir aqui o título do post de anteontem mas, pensando bem, o Lello nem isso merece, porque não passa da super-barata-tonta do PS.

Em catadupa, o bate-boca foi assim:


O coordenador do PS para a saúde defendeu o fim da ADSE, Zorrinho apressou-se a dizer que o PS não pensa o mesmo e, finalmente, o mistério de tanta contradição foi desvendado por José Lello no Facebook onde escreveu que quem acabar com a ADSE perde o eleitor/funcionário público, visto que - “a maioria dos funcionários públicos são eleitores do PS”, diz.

Não o preocupa a defesa ou validade do sistema, só a perda de votos.

Para mim, a novidade reside apenas no à vontade com que os políticos espalham no Facebook, e no momento que vivemos, a pequenez do seu pensamento e das suas preocupações, sem se aperceberem, sequer, que o Facebook é para eles um verdadeiro serial killer.

Alguém lá no Rato devia ficar encarregado de manter os seus Lellos sempre bêbados. Já que ninguém os consegue calar, ao menos a gente dava o desconto.

PS: não acho que se deve acabar com a ADSE; ao contrário, um bom sistema, que eu gostava de ter, devia existir para todos.

Não entro no jogo do todos contra todos, e sou contra o nivelamento por baixo.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Procurei



Há dias em que tenho um desejo quase pornográfico de boas notícias.
Um David Bowie melancólico foi o melhor que encontrei, e já não é de hoje.

Where are we now?

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Falemos, então, de putas


Num artigo da série “Que valores para 2013?”, no Público de 6ª feira passada, João Magueijo (Físico Teórico português no Imperial College, em Londres), escreve um artigo com o título “República das Putas”, que começa assim:

A expressão não é original, mas o plágio é deliberado. Quando Josef Skvorecky escreveu o livro República das Putas, havia na então Checoslováquia o sentimento dum país traído, entregue ou vendido a uma ideologia questionável, por uma classe dominante corrupta e por políticos que eram de facto putas, metafórica e literalmente. No caso de Portugal não houve tanques a entrar pelo país e a ideologia a que fomos vendidos será outra, supostamente oposta. Mas de resto a história é tal e qual, especialmente no que diz respeito à qualidade e moralidade dos políticos.

Ocorrem-me algumas notícias recentes que provam como vivemos, digamos, num sítio mal frequentado, só para não repetir palavras que a minha mãe não gosta que eu use.

1 - Novo director do departamento de supervisão da CMVM criou, para o BCP de Jardim Gonçalves, cinco off-shores nas ilhas Caimão.
Como não quero levar com uma queixa-crime como aconteceu com a Associação Transparência e Integridade, vou dizer que concordo porque o homem deve ser muito competente, fez muito bem o que lhe mandaram e nunca foi arguido.
Viva a CMVM.

2 - Lobo Xavier vai liderar a Comissão para a reforma do IRC. Pode parecer que se vai meter a raposa no galinheiro, mas Lobo Xavier é alto quadro da Sonae e é muito competente. Faz o que lhe mandam (ou pagam) e até vai à televisão.
Viva a Sonae.
 
3 - João Cordeiro, da Associação Nacional das Farmácias, vai ser candidato à Câmara de Cascais por decisão de António José Seguro.
Este homem disse do PS o que Mafoma não disse do toucinho, mas pronto, é supercarismático (!), experiente e competente. Dará um magnífico presidente de câmara porque a mulher de Seguro é sua colega na ANF.
Viva o Seguro.

4 - A presidente da Câmara de Palmela, eleita pelo PCP, vai reformar-se aos 47 anos.
Tem direito, sim senhor, e político não tira direito a político, só a quem o elege.
Viva "a superioridade moral dos comunistas".

República das putas, isto?
Não, o Magueijo exagera; antes diria − república com muitas putas mas muitíssimos mais tansos.

Bolas, até me esqueci que a minha mãe não gosta que eu use este palavreado.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

O caso da mala Chanel


Ontem, o “caso” no ciberespaço, logo a seguir ao documento-catana do FMI, foi o vídeo de promoção Samsung com a blogger de moda Filipa Xavier (houve outras).

A jovem deseja, para 2013, poder comprar “com o seu dinheiro” uma carteira clássica e preta da Chanel, e di-lo, entre outras coisas igualmente de grande interesse, com todo um linguajar de tia de Cascais.

O que se passou nas redes sociais (eu própria partilhei o vídeo) não é mais  do que a prova de que em Portugal a luta de classes e a dicotomia direita/esquerda, existem e estão, até, com demasiada saúde.

Por enquanto apenas se manifestam virtualmente, mas não restam dúvidas de que existem, e podem passar ao plano do real assim que o momento se afigurar propício.

Meio-termo e conciliação são, hoje, sonhos; as posições extremaram-se e já não há nenhuma tolerância para com uma menina apalermada que deseja uma carteira Chanel para 2013, quando dezenas de milhares de portugueses só desejam que não lhes falte a sopa, ou que possam comprar uma aspirina.
Não há tolerância para quem vive fora da dura realidade.

Quanto mais desiguais as sociedades, mais intolerantes, é sabido.
“A coisa aqui está preta”, e vai ficar pior.

 
Vídeo aqui, se ainda não tiver sido retirado, como se anunciou.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Aniversário


Este blogue faz hoje dois anos.

Nasceu apenas porque sim, e continua porque sim.

Não me envergonha nem me envaidece.

Não é bom nem mau, antes pelo contrário.

É apenas como eu – temos dias.

Até amanhã.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Já tomou seu Toddy hoje?


Isto está com um cheirinho a fim de ciclo.
Os corredores posicionam-se antes do tiro de partida – ninguém quer ficar fora da corrida.

Primeiro foi Cavaco Silva a pedir a fiscalização sucessiva do OE 2013.
Logo de seguida arrancou o PS com uma equipa de 50 corredores.
Seguiu-se o núcleo duro de todas as corridas − PCP, BE e Verdes.
O Provedor de Justiça saiu sozinho mas em representação de muitos, segundo afirma.
Finalmente, a Procuradoria-Geral da República está ainda a ajeitar os calções e a fita autocolante com o nº 5; não lhe importa chegar tarde, desde que chegue.

Apetece perguntar a cada funcionário público, polícia, professor, militar, médico, trabalhador da Autoeuropa, artista de circo ou variedades, actor de telenovela, cozinheiro, maquinista, arqueólogo, protésico, arrumador, figuras públicas ou privadas:

- Já pediu a sua fiscalização sucessiva hoje?

É que estou farta de me lembrar do anúncio da Toddy, bebida achocolatada do meu tempo de menina, em que, na rádio, alguém cantava:
- “Já tomou seu Toddy hoje?”
E acrescentar:
- Um Toddy ou uma fiscalização por dia nem sabe o bem que lhe fazia.
Que paciência é precisa para viver aqui, livra!

terça-feira, janeiro 08, 2013

Passado e presente

Existe no Facebook uma página dos Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora, página que subscrevi, e Liceu que frequentei.

Não sou dada a saudosismos, nunca fui a um almoço ou jantar das comemorações do 1º Dezembro (comemoração antiga dos alunos do Liceu, de que se apropriaram, mais tarde, os alunos da Universidade) e esqueci uma enormidade de colegas – a uns conheço a cara e não sei o nome, com outros é ao contrário.
Certo é que, também graças ao FB e a esta página, reencontrei alguns com enorme satisfação.

Existem por lá polémicas, como é natural, e pontos de vista muito diferentes dentro da “agremiação”. Uns vão pelo nacional- porreirismo do somos todos amigos, vamos ver quem tem fotos, quem identifica os fotografados, e por aí.
Outros exprimem opiniões sobre alguns intervenientes no seu passado de estudantes, o que nem sempre é muito bem visto por quem tem opinião diferente, ou até não tem opinião nenhuma mas acha que nunca se devem agitar as águas.

A maioria das pessoas parece ter saudades do tempo que passou naquele magnífico edifício seiscentista, mas esse não é o meu caso.
Aquilo não foi o terror do orfanato britânico do século XIX, mas também não foi o tempo de uma adolescência livre e descuidada que todas as vidas merecem.

Havia por lá muito mais medo do que respeito.
Rapazes e raparigas estavam rigorosamente separados, e se dessem um passo fora da linha de demarcação os contínuos enxotavam-nos como a um bando de cães tinhosos, e ameaçavam com o reitor (homem tão tenebroso como salazarista). Mesmo os encontros mistos fora do Liceu eram carregados de sentimentos de culpa, porque podia haver um professor que nos visse ou um vizinho que nos denunciasse aos pais (Évora, por esse tempo, era das cidades mais machistas e retrógradas deste país).

Recordo-me ainda de, em Junho, com trinta e muitos graus de temperatura, pelas duas da tarde, esperar pelo toque de entrada, e mais dois ou três minutos depois dele, para atravessar os claustros numa correria louca, direita à sala de aula e fugindo dos contínuos, só porque não levava meias nas pernas.
A repressão espreitava em cada sala, e fora delas; valia-nos a condição de adolescentes para espantar o medo e fintar o poder.

Havia bons professores, mas também os havia péssimos; esses, geralmente, acumulavam incompetência com um enorme talento para déspotas e bufos.
Saudades, não tenho. Esse não foi o melhor tempo da minha vida, como me era devido. Esse foi um tempo que os nossos filhos têm dificuldade até de imaginar, felizmente. Pelo caminho novo que se abriu em Abril, sacudimos o medo e aprendemos a exprimir opiniões, muitas formadas logo nesse tempo de Liceu em que também fomos forjando o que somos hoje.

Entendo a página do AALNE como uma mini-sociedade em que todos se devem poder expressar livremente, sem, porém, nunca esquecer que, como dizia Bob Marley “a liberdade de expressão implica também alguma liberdade de audição”.
Era bom que ela fosse, no presente, o espaço de liberdade que o “meu” Liceu nunca foi no passado.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Mau feitio, graças a Deus

É o meu.
Já aqui e aqui demonstrei a minha embirração com o Francisco José Viegas e não tinha intenção de bater mais neste ceguinho, mas ontem lembrei-me de ter lido que, depois da sua fulgurante passagem pelo governo, o amigo de Joana Vasconcelos reabriu o seu blogue A Origem das Espécies

Fui ver. Li vários posts e até teria alguma coisinha para dizer mas, naquela "rua”, nunca ninguém pode comentar nada – só partilhar ou pôr nos favoritos.
E embirrei com aquilo.

A mim ensinaram-se que só se partilha o que é bom, e continuo a respeitar esse conspícuo ensinamento.
Nos favoritos guardo coisas úteis, como o Google Maps, o horário dos comboios ou as farmácias de serviço.
Logo, não sabia o que fazer.
Pronto, já disse.

Imagem daqui

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Sem nome

Há dias em que leio as notícias e tenho a sensação de estar a entrar num túnel do tempo que me conduzirá à idade das trevas.

Foi assim quando li que os taliban estão a impedir (a tiro) a vacinação contra a poliomielite de 240 000 crianças no Paquistão.

Porém, das notícias recentes, a mais nauseante, a que dá volta ao estômago pela barbaridade do acto, foi a da violação e posterior morte da jovem indiana cujo nome não foi revelado (na Índia, pelos vistos, uma mulher não tem identidade própria nem depois de morta).

Habituados que estamos a saber que, numa grande parte do mundo, nascer mulher é uma maldição e, sendo-o, ousar lutar por direitos básicos é um acto de coragem com consequente perigo de vida, mesmo assim, a ferocidade do que aconteceu naquele autocarro não pode ser ignorada por se passar longe, ou branqueada em nome duma “cultura”.

Daí que a solidariedade com as manifestações de milhares de mulheres indianas que reclamam, tão só, segurança para andar na rua, seja um mero imperativo moral.

Porém, os apóstolos do regresso às trevas estão por todo o lado, como se constata num artigo de Naomi Wolf, no Público, em que a autora escreve que em Itália está a haver um debate sobre “se o vestuário e o comportamento das mulheres encorajam a violação” e “até mesmo na Suécia, os violadores que conhecem as mulheres que atacam não são processados, porque as vítimas não são vistas como “meninas bem-comportadas”.

Cuidemo-nos, pois. Cuidemos deste legado das nossas avós, porque os direitos que temos hoje não nos foram dados, antes foram conquistados a pulso, − o poder (aqui congregado nos homens), mas, de facto, qualquer poder, nunca dá nada, apenas se conforma e cede.

O que temos hoje pode desaparecer a qualquer momento; como o último ano português se encarregou de nos mostra muito claramente, não há direitos adquiridos. Sobretudo para quem, a cada momento, for o elo mais fraco.


 

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Sair a uivar

Fui ver o filme “Amor” no 1ºdia do ano.
Tinha saudades do Trintignant, e o filme está a ser muito aplaudido.

Devia ter ficado com ciática dez minutos antes de sair de casa.

Resumindo, pode dizer-se que o filme é bom, mas também o achei voyeur e às vezes sádico.
O realizador mete-se (nos) em casa dum casal de idosos (donde não mais saímos) e faz-nos assistir ao colapso dela e à sua lenta perda de capacidades, humanidade e dignidade; simultaneamente, Georges passa de marido a devotado cuidador.

Uma história de todos os dias, multiplicada por milhões, fruto da longevidade característica da época contemporânea.
Ouso dizer que o filme de Haneke é neo-realista, o que não é aqui um elogio.
Sim, eu já vi aquilo, e bem próximo, não preciso que me expliquem, nem que mo mostrem, nem que me aticem um medo que, hoje, é de todos.

Por isso, quando saí, só me apetecia uivar.
 
Uivar curto e longo, agudo e grave, angustiado e enfurecido.
Um uivo de tristeza (pela morte) de terror (pelo futuro), de raiva (pelo presente), de dor (pela humanidade), de irritação (com quem se apropria da indignidade da velhice e ainda consegue fazer disso uma obra de arte).
Não invento − eu só queria uivar. E ainda quero.


quarta-feira, janeiro 02, 2013

Recado a Camilo

Ando aqui com um recado para o Camilo Lourenço atrasado uma porção de dias, tudo por culpa das  Festas. Mas de hoje não passa.

Para quem não sabe, a actriz Maria do Céu Guerra, mulher com décadas de guerras pelo teatro português e anti-salazarista convicta, lamentou no Facebook que, com tantos actores sem trabalho, Paulo Futre tenha sido chamado para dobrar um filme infantil.

Vem de lá o querido Camilo e verte no Diário de Negócios uma pérola do seu iluminado pensamento que intitula “O Salazar que habita em cada português...”

Atira-se então à actriz, dizendo que “No fundo, Céu Guerra está a defender aquilo que o dr. Salazar implementou em Portugal durante 40 anos: a primazia das corporações sobre a sociedade”, e que ele, o querido Camilo, não está “disposto a tolerar práticas salazarentas mais de 40 anos depois da morte do seu principal promotor.” (naco de prosa a ser lido aqui)

Ó Camilo, eu, por acaso também acho que as corporações são do piorio, e se há profissão de que me lembro logo, assim que se fala em corporação, é a dos médicos.

Por isso, aí vai o recado que tem andado adiado:

Se você tiver uma diarreia, daquelas a sério, e não apenas daquelas diarreias mentais que em si são diárias, não caia na asneira de ir ao médico. Por morte, infelizmente, da nossa mui virtuosa Santa da Ladeira, vá até Vilar de Perdizes e procure por lá o Futre dos curandeiros. Assim provará, na prática, que não está disposto a tolerar práticas salazarentas.

Mas pronto, como ir até Vilar de Perdizes sempre o faz perder umas horas, tempo em que ficaríamos sem um dos turbo-néscios que acorrem a tudo o que é rádio, jornal ou TV, daqui lhe desejo, convictamente e do coração, que as diarreias não lhe desçam da mente para o intestino.

 

terça-feira, janeiro 01, 2013

Palavras roubadas para iniciar 2013

“Fiz uma revisão do que aprendera. Tinha descoberto capacidades e forças que nunca teria imaginado possíveis, naqueles tempos quiméricos e distantes, anteriores à viagem.

Tinha redescoberto pessoas no meu passado e chegado a uma conclusão quanto aos meus sentimentos para com elas. Tinha aprendido que o amor significava desejar tudo de bom para aqueles de quem gostávamos, mesmo que isso nos excluísse a nós próprios.


Tinha entendido o que era a liberdade e a segurança e que havia necessidade de abalar os alicerces do hábito. Que para sermos livres precisamos duma vigilância constante e inflexível sobre as nossas fraquezas. Uma vigilância que requer uma energia moral que a maior parte de nós é incapaz de produzir. Acomodamo-nos aos moldes do hábito. São seguros, amarram-nos e refreiam-nos, com sacrifício da liberdade.
Quebrar esses moldes, ficar indiferente às seduções da segurança é uma luta impossível, mas uma das poucas que valem a pena.
Ser livre é aprender, pormo-nos constantemente à prova, apostar.
Não é seguro.”

Robyn Davidson
Trilhos
No deserto australiano com quatro camelos e um cão
Quetzal

Um maravilhoso livro de viagem. Se temos que viajar apenas sentados, então que seja em 1ª classe. É este o caso.