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quarta-feira, fevereiro 23, 2011

O Amor em tempos incertos


No momento em que o sul do Mediterrâneo ora nos alegra, ora nos deixa apreensivos, opto por uma certa visão do amor através da bela prosa de Sándor Márai, par quem tiver paciência para ler tantas palavras.

“Continuo sem saber o que é amar…mas é possível saber? E saber para quê? Isso nada tem a ver com a razão. Seguramente o amor é mais do que conhecimento. Conhecer é muito pouco. Há sempre um limite…Amar é, talvez, viver ao mesmo ritmo. Um acaso maravilhoso, como se, no universo, dois planetas tivessem a mesma órbita, a mesma atmosfera e a mesma matéria. Um acaso com que não devemos contar. Talvez nem exista. Vi já algo semelhante? Sim, talvez…muito raramente…mas não estava muito seguro. Identidade na vida e no amor. Gostar dos mesmos pratos, da mesma música, da mesma maneira, rápida ou lenta, de ir na rua, do mesmo ritmo com que se buscam na cama…talvez seja isso. Como isso deve ser raro! Um milagre…Esses encontros, eu imagino-os místicos. Mas a vida real não se alicerça em tais probabilidades. Julgo que segregar hormonas simultaneamente, pensar o mesmo das coisas, exprimindo-se com palavras idênticas…eis o que eu entendo por ritmo. Mas isso não existe. Uns são mais lentos, outros, mais rápidos, uns têm medo, outros arriscam, uns são ardentes, outros, mornos. Tem de se levar assim a vida, e o mesmo para os encontros…é assim, no seu estado de imperfeição, que temos que agarrar a felicidade.”

Sándor Márai
Divórcio em Buda
Ed. D. Quixote, 2010

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Era uma vez um funâmbulo


Numa madrugada do final do verão, os habitantes de Manhattan observaram incrédulos e em silêncio as Torres Gémeas. Estamos em Agosto de 1974 e um misterioso funâmbulo corre, dança e salta entre as torres, suspenso a 400 metros do chão.

Excerto do texto de contracapa do livro “Deixa o Grande Mundo Girar” de Colum McCann, editora Civilização, 2010, vencedor do National Book Award 2009.

A 7 de Agosto de 1974, confesso que pouco liguei à notícia e dela guardo uma muito vaga recordação. Por essa altura, os que não tinham ido para o estrangeiro tinham uma revolução para fazer; por aqui aconteciam demasiadas coisas todos os dias, vivíamos o “verão quente” e pouco nos interessava o que se passava no resto do mundo. Muito mais importante era perceber, hora a hora, minuto a minuto, se a liberdade tinha vindo para ficar ou se ainda nos podia ser confiscada.
Este livro de Colum McCann pega no dia desse inusitado acontecimento, levado a cabo pelo francês Philippe Petit, para traçar um vasto quadro de Nova Iorque dos anos de 1970.
Agarrando em meia dúzia de personagens que construiu e transformou, cada uma delas, numa peça de puzzle, monta o dito puzzle inteirinho, onde tudo se encaixa no final.
O Bronx, o terrível Bronx dos anos de1970, em que tudo era miséria, droga, crime, medo, prostituição, sujidade, lugar de vida de todos os deserdados da grande cidade, é o epicentro da (s) história (s). Lá, somos apresentados às prostitutas Tillie e Jazzlyn, mãe e filha, ao padre católico Corrigon que o seu irmão tenta salvar de Deus e que cairá de amores por uma Guatemalteca clandestina, e a Gloria, que perdeu três filhos na guerra do Vietname.
Pelo caminho, conheceremos também moradores de Park Avenue, isto é, Claire, que também perdeu o seu filho único no Vietname, casada com o juiz judeu Soderberg, que acabará por julgar o funâmbulo, libertando-o a troco da realização de um espectáculo para crianças em Central Park.
Inventor de histórias pessoais muito ricas, Colum McCann, é mestre a cruzá-las, produzindo 430 páginas de texto que nunca nos aborrece, que nos pode comover mas que nunca é lamechas.
No final, numa nota do autor, ele escreve – “A literatura faz-nos lembrar que a vida não está já toda escrita: existem ainda muitas histórias para serem contadas”.
Não sendo um livro inesquecível é, sem dúvida, um grande romance.
Palavras que dele reterei por muito tempo:

NINGUÉM CAI ATÉ METADE

quinta-feira, janeiro 20, 2011

VIVA MÉXICO

“O texto escrito implica, entre o autor e o respectivo leitor, a promessa de um sentido”
George Steiner, O Silêncio dos Livros, Gradiva

Este livro não contém uma promessa vã.



Recomenda-se:
Para quem gosta de ler.
Para quem gosta de viajar, nem que seja no sofá.
Para quem gosta de ler e viajar em 1ª classe

Alexandra Lucas Coelho pega-nos pela mão e leva-nos através dum México de Frida Kahlo, de paisagens e cores exuberantes, de gente que vive minuto a minuto no medo de uma bala perdida em Juárez, de emigrantes, de pobres, de emigrantes muito pobres, intelectuais, gente comum e solidária, homens e mulheres que nunca perdem a fé, sobretudo na Virgem de Guadalupe