sexta-feira, setembro 30, 2011

“Apenas Miúdos”

“Apenas Miúdos” de Patti Smith, é um enorme fresco sobre a cidade de Nova Iorque dos anos 1960/1970 e os seus artistas. É também a história do crescimento duma rapariga de Chicago, ingénua e higiénica, que se transforma num ícone dessa geração.
“Apenas Miúdos” é ainda, e talvez sobretudo, a história da relação de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, história intensa de amizade e amor, no mais lato sentido do termo, do seu crescimento em conjunto, quando tomavam conta um do outro e viviam numa sintonia rara.
Um bom livro, mas apenas para quem tem memórias e referências desse tempo e gosta de as ver contadas na primeira pessoa.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Ministro da (des)educação



O ministro Nuno Crato, soube-se ontem, decidiu cancelar a entrega de 500 euros aos melhores alunos do secundário, como prémio de mérito, e canalizar essas verbas para ajuda às famílias dos alunos carenciados ou para projecto das escolas, conforme as variadas versões que correm. Tudo nesta situação cheira a história mal contada e a desnorte ministerial.
Um prémio pecuniário para o sucesso académico nestes níveis de ensino sempre foi para mim uma má política, quer em casa quer na escola. Se o aluno faz o melhor que pode, não faz mais que a sua obrigação e sabemos que uns podem mais que outros intelectualmente. O esforço deve ser apreciado, mas não com euros.
Professor e já entradote no tempo, Nuno Crato devia saber que, quando se faz uma promessa a um jovem ou criança, devemos cumprir, porque nesse cumprimento está todo um exemplo de vida. A sua decisão mais não faz do que pretender mascarar um mero corte na despesa com a uma hipotética melhor ideia. Há dinheiro, mas afinal vamos dá-lo aos pobrezinhos ou a projectos, ou à compra de material, diz o ministro aos estudantes.
Pois se há dinheiro, há que cumprir a promessa, embora o ministro tenha toda a legitimidade para anunciar, desde já, que tal coisa não se fará mais, porque dela discorda
Esta decisão, completamente deseducativa, é para estes jovens o início de um longo e doloroso processo de aprendizagem sobre uma trágica verdade – o Estado, em Portugal, não é uma pessoa de bem, diz e desdiz, dá e tira, baralha e dá de novo, conforme a conjuntura e o que passa pela cabeça de cada governante. Dói.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Finalmente o Álvaro, não ao vivo, mas a cores

Depois de, na semana passada, ter aqui falado duas vezes sobre o sumiço do Álvaro, preocupação partilhadas por milhões de portugueses, o homem lá apareceu na 2ªfeira nos Prós e Contras.
A Fátima estava contente, conseguiu o” furo”, nessa noite ia acabar a desgraça habitual e alguém nos iria dizer que há luz ao fundo do túnel. Apareceu o empresário de sucesso dos sapatos, o senhor da COTEC um tanto entorpecedor, a malta do turismo, verdadeiramente à rasca, o empresário português que vai para Silicon Valley (esperemos que pague aqui alguns impostos) e aquele inevitável rapaz especialista em expertise que me parece sempre uma mistura de Tino de Rãs do empreendedorismo com um Jel de sinal contrário. Disse o rapaz uma coisa que pôs toda a gente a rir e a abanar a cabeça – no mundo há 2 grupos, os que choram e os que vendem os lenços. Foi preciso vir o sindicalista para lembrar que também há os que fazem os lenços, mas percebeu-se logo que a plateia e o ministro pensavam como a D. Teresa, ou seja, ” isso agora não interessa nada”.
O ministro falou dos investimentos da bitola europeia, dos portos, dos 35000 desempregados que vão trabalhar por 420 euros (diz que é para fazer formação), da fila de empresas estrangeira que há na porta do seu ministério a quererem investir em Portugal e garantiu que, em poucos anos, o país nunca mais será o mesmo.
Também me parece.
E não, não dormi mais descansada depois da “aparição” do Álvaro.

terça-feira, setembro 27, 2011

Fazer mais com menos? Chamem a turma do Harry Potter

Na revista Única do Expresso de 24 de Setembro, Luciana Leiderfarb escreve um longo artigo dedicado à cultura, a que chamou “Será este o outono das artes?”
Transcrevo parte do último parágrafo porque o subscrevo:


“…a conversa de mau taxista, nas palavras de António Pinto Ribeiro, chegou à boca dos governantes. Para este ensaísta e programador, é o momento de a comunidade artística apresentar propostas concretas. O momento de se começar a reconhecer cabalmente que a “marca” Portugal vende mal ou não vende em muitos domínios “excepto no da cultura, dos criadores, escritores e cientistas”. Sabe o contribuinte que a sua comparticipação anual para a cultura, em termos de impostos directos, ronda os três euros por mês? E que a economia da cultura é hoje das mais rentáveis e mais capazes de gerar trabalho?”, questiona Pinto Ribeiro. Tudo mudaria, é claro, se quem detém o poder consumisse cultura como uma prática normal. Haveria então a percepção de que, sem a intervenção do Estado, o tecido artístico do país “não sobreviverá, como não sobreviveria em França, na Alemanha ou no Brasil. Como a agricultura, as pescas ou o comércio não subsistem sem políticas económicas de investimento…”

“Fazer mais com menos”, eis a grande divisa dos nossos governantes. Será que alguém acredita nisso quando o menos já é tão menos que até a troika achou que não se podia cortar nada na cultura e na ciência?
Parece que o FJ Viegas acredita, e como tem muitos amigos no meio todos se estão a fazer de cegos, surdos e mudos. Eu não acredito nem na divisa nem no Viegas. Mas decidi dar o benefício da dúvida mais um tempo, esperando estar redondamente enganada.
Pelo sim, pelo não, se é para fazer magia o governo devia chamar o Harry Potter a ver se ele conseguia fazer mais... de quase nada.

segunda-feira, setembro 26, 2011

A mulher ensandeceu

Disse ela, segundo o Expresso online:

Angela Merkel defendeu o agravamento de sanções a países da zona euro que não cumpram os critérios de estabilidade, incluindo a perda de soberania, em entrevista no domingo à televisão pública ARD.
"Quem não cumprir, tem de ser obrigado a cumprir", afirmou a chefe do governo alemão, sugerindo ainda alterações aos tratados europeus para que os países prevaricadores possam ser processados no tribunal europeu de justiça, se necessário.

Com toda a soberania que já perdemos, só nos falta mesmo que ela escolha um alemão para nosso primeiro-ministro.

Nós e a chinela

Muito se tem escrito ultimamente sobre a Madeira e o seu governo.
Há quem conheça bem a realidade do arquipélago, como aqui, e nos mostre as razões para o que por lá acontece.
Aqui, pensa-se que a democracia não permite criminalizar os responsáveis políticos e que devem ser os eleitores a puni-los.
São pontos de vista válidos e que podem enriquecer o conhecimento e o pensamento de quem os lê mas, creio, ninguém tem dúvidas de que Alberto João Jardim vai renovar a sua maioria absoluta.
Para além de todas as boas razões apresentadas, do real défice democrático na Madeira e do sentimento de vitimização que os madeirenses devem estar a experimentar neste momento, creio que há uma outra poderosa razão para a reeleição de Jardim – o pouco ou nenhum valor que os portugueses, hoje em dia, dão à ética e à moral, parceiras indispensáveis dum julgamento político em democracia.
Somos muito moralistas e indignamo-nos quando sabemos de compadrios e favorecimentos, corrupção dos “poderosos” e ganhos ilícitos mas, ao pé da nossa porta, e em concreto, preferimos esquecer. Não é nosso hábito reeleger Isaltinos, Felgueiras, Loureiros ou Avelinos? Desde que façam obra, a gente quer lá saber. São todos iguais, e este, ao menos faz. Também é frequente que nos seja transmitida uma ideia do tipo - tens é inveja do sucesso deles.
Há um fatalismo egoísta e amoral em afirmações destas que, em síntese, desprezam os valores democráticos e escondem uma outra característica dos portugueses: demasiadas vezes “foge-nos o pé para a chinela”.

sábado, setembro 24, 2011

English spoken

A rapariguinha do shopping, tendo sido interrogada por uma colega sobre o paradeiro duma outra, responde lampeira:
 
- Está lá fora a fazer o break
 
Criticar a educação em Portugal, só mesmo por má vontade
   






sexta-feira, setembro 23, 2011

Tribos e nostalgias

No passado dia 19, muitos se lembraram que 30 anos antes acontecera o memorável concerto de Simon e Garfunkel em Central Park.
A propósito dessa pequena e ternurenta nostalgia, lembrei-me duma conversa tida, não há muito tempo, com jovens agora na casa dos 30. Dizia-lhes eu que nunca tinha existido uma geração que ficasse nostálgica tão cedo, dado que todos cantam em uníssono as músicas dos desenhos animados da sua infância, evocam e comentam os heróis dos mesmos, numa vívida orgia de prazer revivalista.
Eles explicaram-me que eram a última geração a fazer tal coisa (daí, se calhar, o gozo), porque, havendo só dois canais de televisão mas já massificados, foram os últimos a viver a situação de todos verem exactamente o mesmo; depois deles, cada um passou a ver o que quer, tal a quantidade da oferta de canais televisivos, internet, DVD etc. Com eles acaba esse sentimento de pertença a um tempo unificado; não haverá outra geração unida pelos desenhos animados, a ida para a escola a pé e em bandos, o jogo da bola na rua, a queda das bicicletas no meio do nada. Eles são, talvez, a última tribo geracional.
Nós, os que, a 19 de Setembro de 1981 assistimos pela televisão ao concerto de Simon e Garfunkel em Central Park, também fizemos parte duma (muito mais pequena) tribo, para quem alguns discos de vinil e alguns (poucos) concertos, ajudaram a cimentar a identidade e a pertença.
No dia 1 de Setembro de 2011, a velha tribo também teve o seu momento de nostalgia e celebrou-o no ciberespaço. Mas, claro, sem coro.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Cow Parade

Descoberto o fraquinho do Presidente, proponho que se instale em Belém, e até 2015, uma Cow Parade permanente para uso exclusivo do locatário mas com abertura ao povo aos domingos.

O Ministro, o jornalista, sua crónica e eu.

Há neste país jornalistas que, na ânsia de defesa dos governos do seu coração, chegam a ser patéticos
Logo depois de ter posto o pequeno post de ontem sobre o “desaparecimento” de Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia, calhou ler a crónica de João Vieira Pereira no caderno de Economia do Expresso de 17 de Setembro a que deu o título "Aguenta Pereira"
Escreve o referido jornalista (será?) que é conversa de café comentar que o ministro não anda a fazer nada, visto que “anda longe dos holofotes mediáticos”, e sai em defesa do governo, e sobretudo dos ministros ditos independentes, que certamente andam todos a trabalhar muitíssimo e que não têm tempo para aparecer nem paciência para agendas mediáticas (ao contrário dos energúmenos anteriores, como se depreende).
Respondo, como é óbvio, só por mim. Para começar, tomo o café ao balcão, raramente vejo televisão mas dou-me ao trabalho de ler crónicas patéticas como as de João Vieira Pereira, “parva que sou”.
E sim, acredito que o ministro esteja a trabalhar, até porque foi para isso que o elegeram e é para isso que todos lhe pagamos, mas também estou preocupada que um homem que escreveu tantos livros e que para tudo tinha solução, ao fim de 3 meses ainda não nos tenha dito nada. É que, por um lado, ao acho normal que esteja a trabalhar, mas também acho normal que vá prestando contas desse trabalho aos palermas que por aqui andam sem fazer nada. Sei que isto é uma esquisitice, ou até mau feitio, mas cada um tem lá as suas manias.
Por outro lado, estou farta de ouvir e ler que “até com contas de merceeiro” se percebe que não vamos conseguir pagar aos agiotas com quem nos metemos, e por isso eu gostava que o Sr. Ministro partilhasse connosco as suas ideias sobre como vamos dinamizar a economia e criar mais riqueza. Até agora, ainda só ouvi falar de finanças mas, na minha santa ignorância, acho que finanças e economia são quase gémeas univitelinas, são muito unidas e quase não fazem nada uma sem a outra.
Com todo o respeito pelo Álvaro e o seu trabalho longe dos holofotes, parece-me que vai sendo tempo de ele arranjar tempo para falar com a malta, com ou sem agenda mediática, ou lá como é que isso se chama.
E ainda lhe digo mais, João, os jornalistas de serviço ao governo começam a não ser suficientes para manterem sossegaditos os “comentadores esporádicos” e os “especialistas em conversa de café” como lhes chama.

quarta-feira, setembro 21, 2011

SMS para o Álvaro

Olá Álvaro, que é feito de si?
Dê notícias ou, de preferência, apareça quando puder.
Sabemos que a TSU o anda a afastar dos amigos mas cá em casa todos estamos cheios de saudades.
Sua sempre amiga
Economia

terça-feira, setembro 20, 2011

Muitas perguntas e uma resposta (torta)

No seu blogue 2 Dedos de Conversa, Helena, que vive na Alemanha, publicou no dia 18 de Setembro, um post com o título “não é preciso que tenham pena dos alemães, mas…”, em que escreve a determinado momento:

Entretanto a notícia do dia é esta: se as coisas correrem mal, pode ser que os contribuintes alemães tenham de entrar com 465 mil milhões de euros para salvar o euro. Em dinheiro vivo, se bem entendi.

Fiquei a pensar que isso não é nada comparado com os 1,3 biliões de euros que já custou a reunificação alemã.
E pergunto:
O resto da Europa não contribuiu para essa pequena despesa da Alemanha? Foi toda paga pelos alemães ocidentais?
“Salvar” 18 milhões de alemães de leste é mais importante que salvar todo um continente belicoso com 500 milhões de indígenas?
E pergunto ainda:
Quem construiu o euro à sua medida? Foi Portugal? Foi a Grécia? Ou terá sido a Alemanha?
Não admitiu já o presidente do BCE que se tem andado sempre a fazer com o euro e as taxas de juro o que convém à Alemanha e à França?
Quem, verdadeiramente, lucrou com o euro até agora?
E ainda faço outra pergunta:
Não é a direita, que está no poder em quase toda a Europa, que defende sempre o princípio do “Utilizador/Pagador”?
E agora não pergunto, respondo:
Se é essa a máxima, cumpra-se.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Confirmadas as piores previsões de Van Zeller

Segundo os jornais, o Ministério da Administração Interna será o único a não ter cortes, antes pelo contrário. Pretende-se acalmar os polícias, vítimas de muitas injustiças, ao contrário de todos os outros portugueses. E porque devem estar calmos e bem dispostos? Porque se avizinham motins, ruas incendiadas, protestos, e é preciso que estejam prontos e com disposição para a bordoada.
Este é o pensamento governamental. Por mim, acho que se vão arrepender de fazer essa despesa porque ela não será necessária. Já se viu povo mais ordeiro, cumpridor e pagador? Veja-se o caso da dívida destapada da Madeira. Esperei durante todo o fim-de-semana que alguém tivesse uma ideiazita para exprimir a indignação colectiva; não precisava de ser nada muito elaborado nem de nos tirar o rabo da cadeira, e até os polícias podiam participar numa brincadeira do tipo daquela que fizemos com o Bill Clinton por causa de Timor. Lembrei-me que, por exemplo, podíamos entupir as caixas de correio electrónico do governo regional com minutas de facturas do tipo:
Festas com palhaços – 1700 milhões de euros
Festas com fogo-de-artifício – 1700 milhões de euros
Festas diárias durante 31 anos - 1700 milhões de euros
Mas não, não aconteceu nada, a não ser quilómetros de douta prosa sobre o assunto.
Quando vi as declarações do ex-patrão dos patrões Francisco Van Zeller que disse:
“O povo tem de ir para a rua protestar contra os "sacrifícios" impostos pelo Governo e as políticas de austeridade da 'troika'. Se não for feito, "ou somos parvos ou estamos mortos", confirmei que somos parvos e estamos mortos; só o governo ainda não percebeu. Sorte a dos polícias.

sábado, setembro 17, 2011

Humor

"Troika desbloqueia mais 11 mil milhões: Jardim diz que dá para chegar até meados de Setembro"

Em Imprensa Falsa, um blogue para o alívio da dor de cabeça.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Nós por cá, todos na mesma (ou quase)

Neste post do seu blogue A Terceira Noite Rui Bebiano analisa um estudo recente sobre o crescente interesse dos jovens portugueses pela leitura. Desconfia do dito estudo, e eu com ele, mas permito-me discordar, quando pergunta o que acontecerá nas outras áreas de estudo se na das letras (que conhece melhor) se lê tão pouco; pela minha experiência pessoal de contacto com jovens, posso garantir que os das áreas científicas são mais interessados, curiosos, lêem mais e fazem perguntas mais pertinentes.
Logo de seguida li a notícia do Expresso online com o título Plágio alastra nas universidades portuguesas em que se diz que 70% dos universitários portugueses confessam já ter copiado.
O que há de comum nesta notícia do Expresso e no post de Rui Bebiano ? Nada e quase tudo.
Se é certo que se lê pouco agora, também o era no tempo em que Rui Bebiano e eu própria éramos estudantes – a maioria não punha o olho num livro a menos que a isso fosse obrigada. Havia excepções, havia até grandes leitores, tal como hoje.
No mesmo tempo passado também se copiava, por vezes com muita arte e imaginação, tal como se copia hoje.
Contudo, com 100% de jovens no ensino obrigatório e quase 400 000 no ensino superior (e com o esforço financeiro que fazemos para que tal aconteça), seria de esperar uma muito mais profunda transformação dos comportamentos no que respeita à leitura e à busca de conhecimento.
Quanto ao copianço, é do domínio da ética e essa, como se sabe, já há muito tempo que saiu da generalidade da sociedade portuguesa viajando para parte incerta. Duvido mesmo que volte.
Assim sendo, e foi aí que encontrei afinidades entre o post e a notícia, podemos concluir que, pesar das inúmeras melhorias, a nossa evolução em muitos domínios é mínima, ou seja, nós por cá estamos na mesma (ou quase). A diferença é apenas de escala.

quinta-feira, setembro 15, 2011

Beijinhos

Na revista Única do Expresso de 10 de Setembro, Nuno Markl publica uma crónica tão divertida quanto certeira e crítica, sobre as senhoras que dão apenas um beijo e nos deixam de cabeça ridiculamente esticada à espera do segundo.
Não sei quando é que as “tias” fizeram o congresso em que declararam guerra à possidonice dos dois beijos e adoptaram o beijo único como traço distintivo da sua subclasse. Mas já lá vão uns anos desde que tivemos de começar a pensar, antes de beijarocar, se aquela é das que nos vai deixar de cara à banda, ou não.
Muito me espanta, porém, que homens como o Nuno Markl ainda não tenham tirado essa pedra do seu caminho voltando a usar o velho aperto de mão.
Pessoalmente tenho saudades dele; era uma espécie dum (muito subjectivo) cartão-de-visita dos homens que me apresentavam.
As mãos são muito variadas – grandes, pequenas, gordas, ossudas, secas, húmidas, ásperas, macias, e com elas se opera um aperto de mão vigoroso, mole ou assim-assim.
Essas mãos e respectivo cumprimento davam-me uma ideia muito mais definida da pessoa que tinha na minha frente que todo o resto do seu aspecto físico (vestimenta incluída).
Mas, foi-se. Já não há disso. Cada homem que acabo de conhecer espeta-me imediatamente dois amistosos beijos como se fossemos amigos de longa data, e eu, confesso, na maior parte das vezes não tenho capacidade de antecipação para forçar o antiquado aperto de mão.
Fico com os beijos, e pronto. Há ainda os mais jovens, que também dão um só beijinho porque foram ensinados assim de pequeninos, e esses eu até desculpo.
Só não desculpo mesmo quando, logo depois do singelo ósculo, me começam a tratar por “tia”.
Aí, Deus me valha, que eu fico absolutamente possidónia e piursa.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Protectorado e seu protector

Percorrendo os títulos dos jornais de 13 de Setembro

Um protectorado chamado Portugal:
- Troika quer medidas adicionais de corte na despesa equivalentes a 0,6% do PIB em 2012- Público online
- Troika adia reforço do poder dos reguladores para final de 2012 - Público online.
- Técnicos da troika em Lisboa para discutir redução da Taxa Social Única – Público online.
- Governo disponível para tomar mais medidas de austeridade - JN online
- Carlos Moedas: "Vamos enfrentar mais dificuldades" – JN online
- Troika avisa que Portugal está em falta na TSU - Expresso online

O protector tem a casa a arder e recusa chamar os bombeiros:
- Risco de default da Grécia salta para 98% - Público online
- Juros da dívida grega a dois anos ultrapassam os 90% . Público online
- Merkel recusa insolvência descontrolada da Grécia – Público online
- Grécia diz que só tem dinheiro até Outubro - Público online
- Obama diz que Espanha e Itália são o “maior problema” da zona euro Público online
- Europa está "à beira do precipício", diz Felipe Gonzales - Expresso online

Nem sei se deva começar já a deprimir ou se espere mais um pouco para quando cairmos no precipício.
Acho que espero. O antidepressivo só perde a validade daqui por seis meses.

terça-feira, setembro 13, 2011

Isto vai


É com grande satisfação que vejo, em 2011, uma mulher na presidência da Assembleia da República e outra Presidente do PS.
Isto vai, e no tempo das netas que um dia terei, a paridade na política será total.
Tenho a certeza, e com ela me conforto.

segunda-feira, setembro 12, 2011

O pecado mora em todo o lado

Como se sabe, a descoberta da pílula anticoncepcional foi um importante contributo para a independência das mulheres. O seu uso generalizou-se mas, em Portugal, há demasiadas mulheres demasiado pobres para a poderem comprar sem comparticipação.
A direitíssima que temos no poder em Portugal, munida de tesoura de poda, bisturi, serrote, machado e instrumentos cortantes afins, colou uma venda nos olhos e desatou a cortar na gordura do Estado.
A pílula anticoncepcional passou a ser gordura da saúde e vai daí, corta-se, ou seja, quem a quiser que a pague por inteiro. Para a direitíssima religiosa portuguesa, usá-la até será um pecado e todo o pecado deve ser castigado, como se sabe.
O pecado mora em todo o lado, como se sabe também, e por isso vão acontecer duas coisas: quem tiver dinheiro para a comprar, compra, quem não tiver, aborta.
Logo de seguida a direitíssima portuguesa gritará aqui d’el rei que o número de abortos está a aumentar e isso não é bom; por um lado, a santa madre igreja desaprova, e por outro isto está a sair muito caro ao SNS.
Será então a hora de cortar essa gordura e vermos Paulo Macedo a dizer – não há cá mais abortos grátis. Por fim irá à missa, comungará e dormirá na paz dos justos, com a certeza do dever cumprido como católico e ministro deste baldio estéril e abandonado por Deus.

sexta-feira, setembro 09, 2011

"O Factor Humano"

Ao contrário do que se pode levianamente pensar, “O Factor Humano” não é mais um livro de espionagem de Graham Greene. Antes de mais porque Graham Greene não é mais um escritor – é um grande escritor, e depois, porque não é um livro de espionagem – é um romance sobre homens que são espiões. Daí o título ser tão apropriado.
Tendo por pano de fundo o MI6 e a fria, cinzenta e brumosa cidade de Londres nos anos 1970, portanto durante a guerra fria, Greene vai desenrolando as histórias desses homens que são espiões – suas fragilidades, coragem, personalidades, afectos, solidão, sonhos.
Os caminhos que a vida de cada um de nós leva, são, frequentemente, fruto do acaso e do amor, e isso é-nos soberbamente mostrado através de Castle, o principal personagem. Este, tendo-se apaixonado por uma negra na África do Sul no tempo do apartheid, aceita ajuda dum comunista para a tirar do país e, como retribuição e por amizade, transforma-se num agente duplo que passa informações para Moscovo através duma complicada teia de contactos quase todos desconhecidos.
A descoberta da fuga de informações vai levar Castle para um fim que, não sendo o fim da vida, é o fim da vida sonhada, e à amputação dos laços afectivos pelos quais correu tantos riscos.
Foi por amor que Castle se tornou agente duplo e não por qualquer convicção política.
Assim são os homens. Assim escreve um grande senhor das letras europeias do século xx.

“O Factor Humano”
Graham Greene
Tradução – Maria João Freire de Andrade
Casa das Letras
2ª edição, Março 2011

quinta-feira, setembro 08, 2011

Play

Realidade melhor que ficção

Sabia-se que Steve Jobs tinha sido adoptado, mas agora que a sua vida parece estar a chegar ao fim apareceu o seu pai biológico a contar uma rocambolesca história de amores contrariados que se pode ler aqui.
Menos conhecida será a história do premiado escritor inglês Ian McEwan, e da sua descoberta da existência dum irmão mais velho, que veio contada em várias publicações e que se pode ler, por exemplo, aqui.

A mãe de McEwan, Rose, engravidou de um oficial do exército britânico, David McEwan, enquanto seu marido estava distante, em combate na Segunda Guerra Mundial. Desesperada para se livrar da prova do adultério, ela decidiu entregar o bebé para adopção.

O marido da mãe de McEwan foi morto na guerra, e ela então casou-se com o seu amante. Até à morte, nunca revelou que tinha tido outro filho. Só a sua irmã partilhava o segredo e foi ela quem narrou os factos ao sobrinho que tinha conhecido apenas como recém-nascido.
Em Junho de 1948 o casal teve outro filho, Ian.
Ian estudou em boas escolas e é um escritor de sucesso. David é pedreiro e nunca conheceu os pais biológicos.
Se lêssemos estas histórias num livro, na melhor das hipóteses diríamos que faziam chorar as pedrinhas da calçada, mas o facto é que a realidade sempre excede a ficção.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Alô, Presidente

Nunca, até hoje, tinha ido ver a página do Facebook do nosso PR.
Embora não me pareça que o modernaço meio seja o mais adequado para comunicar com essa entidade abstracta, mas não virtual, chamada povo, pensei que, ao menos lá, escrevesse alguma coisa sobre o que, neste momento, preocupa o tal povo.
Nada. Fala das festas de Campo Maior, do turismo e do Algarve, do jovem que ganhou uma medalha nas olimpíadas da matemática, das férias para recuperar porque Portugal não pode falhar o esforço de recuperação da economia e da confiança dos investidores internacionais, para o que é fundamental o contributo, a energia e a determinação de todos nós.
Ora bolas, senhor Presidente, isso até um qualquer senhor Silva básico e “passista” é capaz de dizer; é só retórica.
Então e a carga fiscal, e as gorduras, e a Madeira, e os tumultos vindouros, e a reforma do Estado, e a banca, e a economia, e a Europa, enfim, a substância?
O Sr. Presidente parece o meu boletim do euromilhões semana após semana - BRANCO.

terça-feira, setembro 06, 2011

O frenesim do professor Nogueira

Nunca vi um ministro tratar tão mal um sindicalista como Maria de Lourdes Rodrigues tratou Mário Nogueira da FENPROF. Lembro-me de um célebre e animado Prós e Contras (ou prós e prós, como se preferir) em que a ministra respondeu às questões colocadas por todos os participantes e, olimpicamente, ignorou Mário Nogueira como se ele nem lá estivesse.
Nesse tempo estava imbuída do espírito Thatcher e achava que ia “partir a espinha aos sindicatos”
Mário Nogueira manteve a compostura, passado algum tempo pôs 100 000 professores na rua e a Dra. Rodrigues encostou às boxes em 2009 depois de se arrastar penosamente já com o motor gripado e os pneus esfarrapados.
Mário Nogueira, seguindo a cartilha, certamente dirá que as grandes realizações são sempre do colectivo; porém, lá bem no seu íntimo não terá acreditado um pouco que aquelas manifestações foram também um êxito pessoal, e que conseguiria pôr 100 000 na rua cada vez que quisesse?
Puro engano. Os professores foram para a rua porque estavam profundamente feridos no seu orgulho pessoal e de classe, transformados em mangas-de-alpaca da senhora ministra, veladamente acusados de classe preguiçosa e cheia de mordomias imerecidas. Muitos nunca lá tinham estado, nem nunca tiveram qualquer ligação ao sindicato, e este apenas organizou (bem) um enorme descontentamento
Não sei se Mário Nogueira percebeu isto ou não, só sei que, desde aí, desatou a marca protestos atrás de protestos (o próximo é dia 16 de Setembro), sem cuidar de saber se há “condições objectivas e subjectivas” para os realizar com êxito, isto é, com impacto social, grande adesão, e no tempo certo; em suma, vai banalizando o próprio protesto. Afigura-se-me que este imoderado frenesim vai fazer com que também ele, a prazo, encoste às boxes com o motor gripado e os pneus em frangalhos.
Será uma pena. Bons sindicatos e bons sindicalistas fazem agora mais falta do que nunca.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Gordura localizada

O “velho” PSD começa a não aguentar mais o rabo na cadeira, parece que ela tem picos. Manuela Ferreira Leite, Vasco Graça Moura, Marques Mendes, já vieram dizer que assim não dá e que o “rapaz” está a esticar tanto a corda que ela vai partir.
O “rapaz”, ex-jotinha cheio de traquejo partidário, sabia que tinha que mentir muito para levar a sua avante (salvo seja) e foi o que fez. Disse em campanha tudo ao contrário do que planeava, disse uma coisa cá dentro e o seu contrário lá fora, tomou o freio nos dentes à boleia da troika que chamou com o chumbo do PEC IV (é bom lembrar que, logo aí, para dentro disse que era por ser demais e no dia seguinte, para fora, disse que era por ser de menos) e parece agora um elefante numa loja de porcelanas.
Depois de aumentar impostos até ao limite, atirou-se finalmente à “gordura do Estado”. Esta, afinal, estava toda na cintura, como é habitual; era gordura localizada – na saúde, educação, segurança social.
Manda o ministro das finanças anunciar uma cirurgia rápida e a frio (é preciso poupar) e…já está!
Não deu a cara? E para que havia de dar? Já sabemos que a culpa é toda do anterior governo. Não é sempre assim governo após governo?
Dra. Manuel Ferreira Leite, a senhora foi a primeira a chamar mentiroso a Sócrates com todas as letras; pois aqui estou, sentada, à espera de ouvir mais alguma coisita que ache por bem dizer.
Sabemos que se acha diferente, e melhor; por isso lhe deixo a pergunta - 
será capaz de repetir a vernacular proeza e chamar mentiroso a Passos Coelho com todas as letras?

sexta-feira, setembro 02, 2011

À esquina

Apareceu há alguns dias à esquina duma importante avenida de Lisboa.
Que idade terá? Setenta? oitenta? tanto faz. Pequenina, encolhida e enrugada, dispõe sobre uma caixa da EDP meia dúzia de pares de cuecas de senhora; num modelo fora de moda, exibem cores também elas fora de moda, mas que insinuam alguma alegria na intimidade – rosa, amarelo, azul, verde.
Sentada num banquinho, se lhe apetece o sol frouxo deste verão encosta-se ao semáforo; se está a chover, senta-se ao lado das suas cuecas, todas elas protegidas pela varanda cimeira.
Não anuncia, não oferece, não pede. Apenas está, e espera.
Vê-se que nunca aprendeu a vender, que não tem jeito nem gosto pelo negócio; vê-se que não quer esmolas, que apenas quer continuar a viver.
Parece uma folha seca, pronta para ser levada pelo vendaval da crise.
Ao vê-la apetece gritar; é que eu também sou ela, e um país que trata assim os seus velhos não se dá ao respeito, não se respeita nem merece respeito.

quinta-feira, setembro 01, 2011

E?

Ontem, quando ouvi Passos Coelho a perorar na televisão, já depois daquela conferência de imprensa do ministro das finanças cheia de chama e boas notícias como de costume, apeteceu-me truncar uma célebre frase. Tirando um acento e mudando a pontuação, fica apropriadamente:


E a economia, estúpido?

A casa

Não me apetece falar da Líbia, nem das secretas, nem do Álvaro, nem do Pedro, nem do Gaspar, nem do comércio a fechar, nem do atestado de pobreza que é preciso ter para comprar o passe social, nem do furacão que o não foi, nem da alegria da UE por sermos tão atinados, só me apetece fazer um post muito politicamente incorrecto sobre a Casa das Histórias de Paula Rego em Cascais.
Hoje em dia, quando vamos a um museu construído de raiz, parece que o edifício está em competição com a arte que tem dentro. Todo ele é um “olhem para mim” e, em verdade se diga, geralmente vale mesmo a pena olhar, e olhar, e olhar, e deixarmo-nos envolver com a criativa e bela arquitectura de alguns dos nossos arquitectos. Estes, ainda aspiram ao belo; a arte há muito que se deixou disso. Por isso as romarias de visitantes fazem-se mais para ver o edifício do que o que ele contém.
A Casa das Histórias não é excepção. Quanto ao conteúdo, calhou-me ser preenchido por duas exposições de Paula Rego – “Oratório” e “O Corpo tem mais cotovelos” e nenhuma traz novidades de maior.
Sem deixar de lhe reconhecer a mestria da técnica e a força que caracteriza todo o seu trabalho, sempre acho que ele é produto duma mente povoada por agressivos fantasmas que nunca de lá sairão. Imaginação a rodos carregada de sexualidade mas sempre (ou cada vez mais) perversa. Tudo o que é mau e feio nos humanos, lá está.
Quando saí, e a doçura dum sol que nem parecia de Agosto me bateu na cara, respirei fundo e perguntei-me: mas afinal acabo de sair da Casa das Histórias ou da casa dos horrores?
É inconveniente dizer estas coisas, eu sei, mas mesmo assim, eu digo.
Je m’en fous