Para aprofundar o que, sumariamente, escrevi em "Murro na mesa" vale a pena ler Daniel Oliveira:
"O que a Fitch fez, e não é o primeiro caso, foi dar um conselho a Portugal. Sendo que Portugal não é seu cliente. E nesse conselho está implícita a ameaça: ou fazem o que os nossos clientes querem ou nós dizemos aos mercados que vocês não vão conseguir pagar, aumentando assim as vossas dificuldades de financiamento e, obviamente, a dificuldade em pagar. O que a Fitch fez não foi uma avaliação externa ao próprio mercado. Foi uma intervenção direta no mercado para determinar as políticas de um Estado. Foi lobby em favor dos seus clientes, usando o instrumento que tem para determinar decisões políticas."
Todo o artigo aqui
quinta-feira, março 31, 2011
Morreu o Ângelo
Era assim que todos falavam de Ângelo de Sousa; era simplesmente o Ângelo.
E o Ângelo era, a meu ver, o maior artista plástico no panorama da arte contemporânea portuguesa.
Apesar de serem as suas pinturas (aparentemente) monocromáticas, cruzadas por linhas rectas estruturantes, que o tornaram mais conhecido, nada lhe foi estranho e tudo dominou com mestria – pintura, desenho, escultura, vídeo, cinema, fotografia.
Figura maior na Arte, era também um homem singular, senhor de um humor ácido mas não isento de ternura para com a vida, o país e os homens. Era generoso e atento aos outros, que perscrutava com olhinhos vivos por trás dos óculos de lentes grossas.
Ao contrário de muitos outros conhecidos e reconhecidos, que desandam quando vislumbram alguém que os conhece porque sempre imaginam que têm alguma coisa para lhes pedir, o Ângelo não era fugidio. O Ângelo não fugia, apenas, quando estava farto, ia embora.
Não éramos amigos, mas entre nós havia empatia e confiança, bens muito raros de encontrar nos tempos modernos.
Dizer que, em tempo de empobrecimento, ficamos todos ainda mais pobres é o mais banal de todos os lugares-comuns, mas é verdadeiro. E é a única maneira que encontro de prestar homenagem ao Artista e ao Homem.
So long, Ângelo.
quarta-feira, março 30, 2011
Murro na mesa
Eles têm estado a empurrar todos os dias um bocadinho. Agora fartaram-se e deram um murro na mesa para nos lembrar quem é que manda.
Título do Público online
Fitch avisa que cortará o rating de Portugal se FMI não intervier
Notícia aqui
Título do Público online
Fitch avisa que cortará o rating de Portugal se FMI não intervier
Notícia aqui
Transparência do monopólio
No caderno de Economia do Expresso de 26 de Março, há duas notícias que ainda não percebi se se complementam ou se contradizem.
Nicolau Santos dedica uma coluna ao “Maravilhoso Mundo da Distribuição” onde se pode ler.
“ Os dois maiores distribuidores (Continente e Pingo Doce) representam mais de 50% do mercado de distribuição, mais do que a soma dos sete seguintes, uma estrutura que não existe em mais nenhum país da União Europeia. Em Espanha, por exemplo, Mercadona e El Corte Inglês têm quotas inferiores a 13%.”
Resultam daqui contratos leoninos com os fornecedores – “um contrato entre as duas partes tem 28 obrigações para os fornecedores (e respetivas penalizações) e apenas 3 para a distribuição; e nos direitos, 12 para a distribuição e 3 para os fornecedores”.
Acresce que, ao criarem as suas próprias marcas, os distribuidores vendem o mesmo produto mais barato, em concorrência desleal com o seu próprio fornecedor que, assim, se vê obrigado a tudo aceitar para escoar o produto.
Umas páginas mais à frente, leio: “Sonae entra no Ranking da Ética “tendo sido distinguida pelo americano Ethisphere Institute pelas suas “práticas de negócios transparentes e iniciativas em benefício da comunidade.”
Ora, sabemos como a transparência para os americanos pode ser, aos nossos olhos, tanto absolutamente cristalina como revestida duma certa opacidade.
Dou de barato que as práticas da Sonae são transparentes mas…serão justas? Serão redistribuidoras da riqueza?
Monopólio (ou quase), é monopólio. Sempre foi como o eucalipto – seca tudo à sua volta.
terça-feira, março 29, 2011
INDIGNAI-VOS
O pequeno livro INDIGNAI-VOS de Stéphane Hesse, tem vendido como pãezinhos quentes por essa Europa fora. Eu não fui excepção e também comprei um.
Stéphane Hesse tem agora 93 anos, é uma figura muito respeitada em França, foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos do Homem e integrou a resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Não é um livro, é apenas um pequeno artigo que um (muito) sénior combatente sentiu necessidade de escrever neste momento tão difícil que o mundo atravessa.
Já ninguém escreve assim e o que tem para nos dizer é, basicamente, isso – Indignai-vos, fazendo apelo a que cada um encontre os seus próprios motivos para se indignar e participar, sempre pacificamente, contra o sistema desumano que se foi instalando e contra a perda das conquistas da Europa no pós-guerra, nomeadamente o “estado social”.
E argumenta: “Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que atualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riqueza aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas maios altas esferas do Estado.”
Nada acrescentando aos debates sobre a evolução do sistema, fica a ideia de que o que se passa é tão escandaloso que mesmo um homem de 93 anos não se acha no direito de ficar calado e nos vem dizer apenas isso – INDIGNAI-VOS!
Indignai-vos
Stéphane Hesse
Ed. Objetiva, 2011
segunda-feira, março 28, 2011
Os políticos portugueses desprezam os portugueses
Depois de uma leitura mais atenta dos jornais no fim de semana sobre o turbilhão político da semana passada, só posso concluir que os nosso políticos, todos sem excepção, nos desprezam.
Sócrates andou durante meses a negociar com Bruxelas, ou Merkel, uma ajuda a Portugal em termos mais favoráveis e mais honrosos do que os que existiram para a Grécia e Irlanda. Estava à beira de o conseguir mas, durante o processo não se limitou a fazer como Mário Soares, que meteu o socialismo na gaveta; Sócrates meteu a democracia na gaveta e fechou-a à chave, não dando contas a ninguém do que andava a fazer.
Cavaco toma posse e faz um discurso de “sobressalto cívico” com implícitos e fortes ataques ao governo, fazendo, na prática, o papel de oposição.
Sócrates fica zangado e deita contas à vida sobre qual seria o momento mais vantajoso para si mesmo para abrir uma crise política. Decide então que o melhor é mandar o Teixeira dos Santos dar a boa notícia do PEC IV para desencadear o processo, sabendo muito bem que ia encurralar o PSD e hostilizar o PR.
Cavaco, patriota, não engole a afronta e decide não mexer um dedo para salvar o acordo de Bruxelas. O PSD, que nada tem de diferente para propor, como já se viu pelas declarações dos dias seguintes, e cujo líder parece ter a coluna vertebral dum caracol (palavras de Miguel Portas, que subscrevo) cai na esparrela, também não engole a afronta, até porque tem umas eleições para ganhar, e deita o governo abaixo. Sócrates parte para Bruxelas demissionários e os queridos mercados fazem a dança da Primavera e da fertilidade.
Cada um deles, Sócrates, PSD e Cavaco, pensou apenas em si próprio, borrifando-se para todos nós. Já nem falo dos partidos à esquerda do PS que, lamentavelmente, parecem ter optado por serem apenas do contra, não apresentando propostas exequíveis no sentido de defender os portugueses destes traficantes da política que, alternadamente, nos governam.
A pergunta é: que fazer? que fazer nas próximas eleições?
Há muito quem defenda o voto em branco; pessoalmente valorizo demais esse direito e dever para o poder usar numa tal situação. Além disso, não se pode convencer 6 ou 7 milhões a votar branco, sempre alguém votará por mim e, se tal, por absurdo, se conseguisse teríamos que perguntar – e depois, o que se segue?
Tenho a certeza que milhões de portugueses se sentem como eu e todos percebemos que este paradigma partidário não nos serve.
Está, portanto, criado o caldinho para o aparecimento de outro ou outros partidos. Poderia ser bom, mas temo que possa ser o contrário. Os portugueses gostam de homens providenciais e não foi por acaso que tivemos Salazar mais de 40 anos. Foi porque a grande massa dos portugueses não se incomodava muito com isso desde que pudesse levar a sua vidinha.
Com a falta de respeito que os partidos democráticos revelam por nós, não me admiraria que o povo achasse que um não-democratico servia muito melhor.
A política à portuguesa dá náuseas.
sábado, março 26, 2011
"Marcha pela Alternativa"
Londres: 400 mil pessoas na rua contra austeridade
Os britânicos saíram hoje às ruas para protestar contra as medidas de austeridade do Governo. Os sindicatos dizem que o número de manifestantes pode chegar ao meio milhão.
Notícia aqui
sexta-feira, março 25, 2011
Blogosfera
Há muita gente inteligente e informada a escrever excelentes textos na blogosfera. Vale a pena desligar a televisão, onde estão os comentadores do costume, e "ouvir" outras vozes, bem mais inspiradoras, como, por exemplo, esta
O pior cego...
Mas ouçamos uma história (outra parábola?):
Um duro homem avança por uma rua
que termina numa floresta como antes na infância
avançava por uma floresta que terminava
numa rua.
Olha para todos os lados mas evita olhar para cima
pois alguém lhe dissera que os humanos
só participam nos acontecimentos
abaixo do nível dos olhos,
e esta expressão – abaixo do nível dos olhos –
torna-se tão forte como a velha expressão
- abaixo, ou acima, do nível do mar.
Gonçalo M. Tavares
Uma Viagem à Índia
Canto I, 36
Ed. Caminho, 2010
quinta-feira, março 24, 2011
quarta-feira, março 23, 2011
Comentar de novo o comentador Sousa Tavares
Lembro-me dos anos 1990, quando eu comprava o Público todos os dias e à 6ª feira (julgo) havia a crónica de Miguel Sousa Tavares. O articulado do seu pensamento e escrita valia todo o jornal do dia.
A crónica que publicou no Expresso do dia 19 de Março é, por sua vez, uma pérola de snobeira, cinismo e pensamento simplista.
É dedicada, toda ela, ao sábado, dia 12, em que passou o tempo agarrado à TV a ver as desgraças do Japão e a comparar isso com a piroseira e possidonice do que por cá se passava.
Fala, embevecido, das empregadas de supermercado japonesas que viu a segurarem as prateleiras “ a defender o seu posto de trabalho”; eu também vi e achei que elas estavam a ver se aquilo passava e se a tralha não lhes caía toda em cima, que é o reflexo humano normal num momento como aquele.
Fala também das maravilhosas criancinhas e seus professores que continuaram a sua labuta pela educação, fazendo o contraponto com os malandros dos professores portugueses, por quem desenvolveu um muito ativo ódio de estimação.
Fica a ideia que, para MST, nesse dia todos devíamos ter ficado em casa a chorar, e talvez a rezar, pelo Japão como, certamente, os japoneses fariam por nós se fosse ao contrário. Devíamos pôr os olhos no Japão e segurar as prateleiras em defesa do posto de trabalho!
Depois, dedica-se à manifestação desse dia que tantos engulhos lhe tem causado. E aquilo é um lençol cheio de ressentimento contra quem se manifestou na rua; talvez seja natural em quem envelhece pardo, sem entusiasmo e longe do engajamento que o caracterizava.
Tudo comenta com um toque de intelectual snob, muito acima da “rua” pífia, e um cinismo que é o pior defeito de qualquer comentador.
É demasiado duro o que digo? Pois afirmo que não é nada, comparado com o que sinto quando o vejo derramar tanto fel sobre o seu país e os seus compatriotas.
Dar-lhe-ia um conselho simples se ele me lesse – emigre, Miguel. Os tempos que aí vêm são só para resistentes e você é um desistente. Além disso já cá temos o Medina Carreira, o original e, logo, não precisamos de cópias de segunda ordem. Por mais letras azedas e de bota-abaixo que alinhe na enorme folha que o Expresso põe à sua disposição nunca deixará de ser uma cópia e, como sabe, as cópias não têm valor de mercado.
terça-feira, março 22, 2011
Romeu e Julieta
com coreografia de John Cranko (sul-africano). A belíssima música de Prokofiev continua a ser peça fundamental para o entusiasmo que este clássico ainda suscita.
Assisti ao bailado no domingo à tarde, numa das chamadas Tardes Família, e é deveras entusiasmante ver o Teatro Camões cheio de famílias em que estão os avós, os pais e as crianças. Algumas destas são bem pequenas, mas a maneira como se comportam e assistem a todo o espectáculo podia servir de exemplo a alguns adultos. Elas não tossem, não se levantam, não enviam SMS, não falam alto.
Como ontem ouvi a escritora Lídia Jorge dizer na televisão, no programa da RTP2 Câmara Clara”, os portugueses são melhores que Portugal.
Já assisti a espetáculos da CNB verdadeiramente empolgantes, daqueles que nos deixam saciados e orgulhosos da nossa Companhia Nacional.
Este, devo confessar, achei-o apenas mediano. Tendo esta bela coreografia já sido apresentada pela CNB em 2001, a atenção centra-se na interpretação.
O elenco que dançou no domingo não comportava os nomes maiores e, reconheço, é preciso que os outros, sobretudo jovens, também dancem. Contudo, Solange Melo (Julieta) e Miguel Ramalho (Mercucio) pareceram-me apenas competentes e Maxim Clefos (Romeu) pareceu-me apenas suficiente. O desenho de luz, de Cristina Piedade, também não me entusiasmou.
Para a próxima será melhor porque a CNB é uma instituição cultural que nos honra, de que nos podemos orgulhar e que devemos apoiar sempre, mas especialmente em momentos como este em que todos lutamos contra tantas dificuldades.
Nota: imagem retirada do programa editado pela CNB
segunda-feira, março 21, 2011
O Japão e nós
Face ao desastre que o Japão vive, é impossível não reflectir, ao menos por um momento, na precariedade da vida humana. O que agora temos e no minuto seguinte já não temos; como tudo é fugaz, como tudo muda tão depressa, como nada é certo ou seguro, como tudo pode mudar a qualquer momento, inesperadamente e para sempre (Paul Auster escreveu isto, não sei onde)
O pensamento seguinte, fatalmente, será sobre o que cada um de nós faz, diariamente, com a sua vida. E, não, não vou citar o Pessoa, mas vem-me à memória Clarice Lispector
Há Momentos
Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre
sábado, março 19, 2011
sexta-feira, março 18, 2011
Será doença? Será feitio?
Fomos aprendendo que prometem mas não cumprem, conhecendo os tiques de cada um, discernindo as meias-verdades do discurso, as personalidades e carateres.
José Sócrates, porém, ultrapassa tudo e todos os que conheci, e pelas piores razões.
Já ouvimos tanta coisa e o seu contrário ao longo de 6 anos de governo que, eu pessoalmente, já não acredito em nada.
Fartou-se de dizer, uma vez, duas vezes, três vezes – estas são as medidas necessárias e suficientes para ultrapassarmos a crise, para, passado um mês ou dois, vir acrescentar mais medidas às medidas garantindo sempre o “agora é que é”.
Chegámos ao momento Pedro e o Lobo, ou seja, o lobo vem lá e ninguém acredita no Pedro.
Alguém pode acreditar que não foi negociar as novas medidas com a Frau Merkel?
Alguém acredita que está pronto para (ou pode ainda) negociá-las com a oposição?
Alguém acredita que não haverá mais PEC (cujo número já perdi?)
O nosso primeiro-ministro tem mentido tanto que eu já não acredito nunca no que ouço e isso deixa-me tão insegura, mas tão insegura, que começo a achar que o nosso sistema democrático está, ele próprio, inseguro, porque está nas mãos dum mentiroso compulsivo que, às vezes, até parece acreditar nas suas próprias mentiras.
Talvez tenha sido ingénua até agora mas, achar que um primeiro-ministro mente de cada vez que ele abre a boca, juro que nunca me tinha acontecido nos últimos 36 anos.
Isso faz mal à saúde, ao país e à vida democrática.
quinta-feira, março 17, 2011
"O Deus das Moscas"
Quando acabei de ler “O Deus das Moscas” a única interjeição possível foi um prolongado “uffff”. Sofre-se a ler este livro, não só pelo conteúdo mas também porque é extraordinariamente cinematográfico, o que torna a experiência da sua leitura muito vívida.
Um grupo de crianças dum colégio inglês está sozinho numa ilha deserta do Pacífico. Nunca é explicado como lá foram parar, nem isso é importante.
Numa primeira tentativa de organização, é escolhido um (natural) chefe cuja principal preocupação é manter uma fogueira com fumo permanente para que possam ser vistos por algum barco que passe, bem como a construção de abrigos e a definição dos lugares para cada actividade. Bom senso, portanto.
Com o passar dos dias, outro candidato a chefe aparece, com base noutra necessidade – caçar para ter carne, mas também na natural, simples e humana ambição.
O desenrolar de toda a ação que se segue é uma enorme metáfora sobre o ser humano e a luta entre o seu lado luminoso ou sombrio, corajoso ou cobarde, inocente ou malvado, louco ou sensato, inteligente ou tosco, até descer progressivamente ao selvagem irracional, capaz de matar só por matar, numa enorme orgia de primarismo animalesco.
Com base nas grandes questões da sobrevivência, o que William Golding nos traz é uma profunda reflexão sobre a condição humana, a dualidade bem/mal que sempre lhe subjaz, e a fragilidade do verniz civilizacional que estala com demasiada facilidade face à tentação do caos.
Com uma escrita límpida e sem floreados, este é um livro duro de ler e que nos inquieta, porque nos confronta com aquilo que sabemos que somos, mas preferimos esquecer.
Um grande livro.
O Deus das Moscas
William Golding
Ed. D. Quixote, 2008
William Golding nasceu em 1911 no Reino Unido (Cornualha) e morreu em 1993
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1983.
Este continua a ser o seu livro mais conhecido.
quarta-feira, março 16, 2011
Estou preocupada
Os administradores da EDP receberam 1,8 milhões de euros em remunerações variáveis em 2010, menos 43% que no ano anterior.
...
Os administradores da eléctrica receberam um total de 3,64 milhões de euros em salários fixos, menos 3% do que em 2009. O CEO da empresa, António Mexia, auferiu 703 mil euros em 2010, exactamente a mesma quantia que no ano anterior
A continuarem assim qualquer dia já estão "à rasca"
Isto cheira mal como...
Cavaco Silva discursou ontem na homenagem aos combatentes do Ultramar (para mim, colónias) e disse coisas magníficas (para mim, terríficas), tais como:
“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar».
“Para lá da memória, impõe-se o reconhecimento de todos os que, pela sua acção na defesa de Portugal, sofreram no corpo e na alma o preço do dever cumprido. São merecedores do nosso profundo respeito», sublinhou, saudando também «com especial apreço» os militares de etnia africana que de «forma valorosa» lutaram ao lado dos portugueses”. Notícia aqui
Quem assim fala, mostra, finalmente, o seu pensamento e a sua postura face ao passado recente do país. Já aqui escrevi sobre essa guerra e ficou claro que sobre ela penso exactamente o oposto do Presidente. Não sou a única, tenho a certeza que milhões de portugueses que viveram a guerra colonial pensam como eu e nunca entenderão que havia desprendimento e determinação nos jovens que eram obrigados a combater; nunca entenderemos que se tratava da defesa de Portugal ou de cumprir um dever.
Esse era o discurso justificativo de Salazar e Caetano e não o sentimento do povo português. Angola, Moçambique e Guiné não eram Portugal, eram territórios africanos cujos povos lutavam para se libertarem do país colonizador; por isso também não me parece que os autóctones que lutaram ao lado dos portugueses, e contra o povo a que pertenciam, possam merecer grande apreço.
Não critico que se homenageiem os combatentes, critico os fundamentos da guerra e esta maneira de olhar para ela.
O demagógico discurso da tomada de posse e o discurso de ontem mostram que Cavaco Silva, não jogando já a reeleição, vai agir de acordo com aquilo que verdadeiramente é: um homem da direita ressentida, reacionário, demagogo, passadista, em suma, tudo o que o país não precisa em 2011.
Com o discurso de ontem, mostra também que não pretende ser o presidente de todos os portugueses, já que parece não ter sensibilidade para compreender o melindre de certas afirmações sobre um assunto que ainda está demasiado fresco na memória de toda uma geração.
terça-feira, março 15, 2011
Realidade surreal (continuação)
Capítulo II
A campanha “Direito à Alimentação”, apadrinhada há 3 meses por Cavaco Silva, para que os restaurantes possam doar as refeições que lhes sobram, está ainda só no papel.
Motivo: o doador pode doar, mas tem que pagar o IVA da refeição ao Estado.
Procura-se afanosamente um “regime de excepção” que parece estar prometido de viva voz mas não ainda comprometido no papel. E já lá vão 3 meses.
Cuidado com o que damos; podemos estar sujeitos a IVA.
Capítulo III
Um grupo de amigos de Carlos Castro já entregou na Câmara de Lisboa uma proposta para que seja dado o seu nome a uma rua da cidade. Porquê? Se calhar porque escrever crónicas de má-língua e morrer de morte matada é sinal de ter prestado relevantes serviços à cidade.
Este grau zero do discernimento é subscrito, entre outros, por Filipe La Féria, Vítor de Sousa, Eládio Clímaco, João Rolo e João Baião.
segunda-feira, março 14, 2011
Ainda o comentador
É justo dizer que, no Expresso de sábado passado (dia 12), Miguel Sousa Tavares pediu desculpa aos leitores pelos erros dos seus comentários, na SIC, no dia 7 de Março, a propósito da agendada manifestação de dia 12 de Março
Ora, sabe-se que MST é mais visto na SIC, onde teceu os comentários, do que lido no Expresso, e que o público não é exactamente o mesmo.
Porém, hoje, no telejornal, nada o ouvi dizer.
Admito que me tenha escapado!
Ora, sabe-se que MST é mais visto na SIC, onde teceu os comentários, do que lido no Expresso, e que o público não é exactamente o mesmo.
Porém, hoje, no telejornal, nada o ouvi dizer.
Admito que me tenha escapado!
Realidade surreal
O cidadão precisa de tirar o passaporte e, para o efeito, dirige-se ao Governo Civil.
Leva consigo, e apresenta, um Cartão de Cidadão que tem a tenra idade de 7 meses.
No computador da funcionária aparecem os dados que constam no CC e é dito ao cidadão: verifique se os dados estão todos correctos para, de seguida, assinar um documento a dizer isso mesmo – que estão correctos.
O cidadão olha e diz: não estão correctos porque aqui ainda diz que eu sou solteiro e eu, entretanto, casei.
Diz a funcionária:
- Isso não tem grande importância porque no passaporte não consta o estado civil.
- Mas então a senhora quer que eu assine um documento a dizer que estão correctos dados que o não estão?
O assunto sai do balcão e passa às chefias. Vários telefonemas depois, inclusive para a Conservatória do Registo Civil do local de nascimento do cidadão, conclui-se que, na certidão de nascimento está averbado o casamento, mas que só é possível alterar os dados do CC …tirando um novo.
Sete meses depois, o cidadão volta ao local onde gastou várias horas do seu tempo produtivo para começar tudo de novo.
Não é Kafka nem Ionesco, é Simplex à portuguesa.
sábado, março 12, 2011
Rifca Stanescu
"Estou contente por ser avó, mas desejava algo diferente para a Maria. E algo diferente também para mim", disse a jovem romena em entrevista ao jornal britânico "The Sun".
Rifca tem agora 25 anos e é a avó orgulhosa de Ion, com dois. Para contar fica uma história de amor que remonta aos seus onze anos, quando desafiou a família para casar com Ionel. "Queria casar com ele portanto dormi com ele uma vez, sabendo que assim já ninguém nos podia separar. Estava prometida a outro rapaz desde os meus dois anos, mas não queria viver com ele", conta Rifca.
"Não impedi a minha filha de o fazer porque na tradição cigana casar cedo é normal".
Rifca Stanescu tinha 12 anos quando teve Maria, que deu à luz Ion aos
Rifca Stanescu tinha 12 anos quando teve Maria, que deu à luz Ion aos
Notícia tirada daqui
sexta-feira, março 11, 2011
Programa PSD
As linhas mestras do programa de governo do PSD saem agora em livro.
Foi feito com o contributo de gestores, empresários e banqueiros.
Ainda não ouvi falar na participação de associações cívicas ou estudantis, universidades, sindicatos, Igreja ou ONG.
Temo que esteja tudo dito. Temo o que vem por aí. Temo um país pensado apenas por gestores, empresários e banqueiros.
Foi feito com o contributo de gestores, empresários e banqueiros.
Ainda não ouvi falar na participação de associações cívicas ou estudantis, universidades, sindicatos, Igreja ou ONG.
Temo que esteja tudo dito. Temo o que vem por aí. Temo um país pensado apenas por gestores, empresários e banqueiros.
Manifestação
Esta manifestação, malgrado o seu cariz quase romântico, não está isenta de perigos.
Apesar de muitas pessoas acharem que os sindicatos atrapalham mais do que ajudam, eles, bem como os partidos e outras organizações, são fundamentais para o sucesso das manifestações. São eles que organizam as pessoas, as palavras de ordem, expulsam arruaceiros aproveitadores e ensinam a não responder às provocações que podem gerar confrontos. Amanhã os jovens estão, aparentemente, por sua conta e risco. É um bom começo, e dele se tirarão muitas e variadas lições.
Como disse Villaverde Cabral (lamento mas já não sei onde li isto), “é mais fácil lutar contra a ditadura do que contra a ditamole”, contudo, quem aqui escreveu no dia 9 de Fevereiro, “organizem-se” só pode desejar que tudo corra sem incidentes e que sejam muitos milhares.
Já o sabíamos, mas havia quem duvidasse - afinal, a geração à rasca, desenrasca-se.
quinta-feira, março 10, 2011
Homens da Luta
Há anos que não via o Festival da Canção mas, este ano, fui ouvindo. Não vou, sequer, usar adjetivos. O festival teve os seus tempos de glória antes do 25 de Abril mas, hoje em dia, não passa da apoteose da dissonância mal-amanhada. Em termos europeus, tornou-se uma festa de adolescentes retardados em que vizinhos fazem declarações de amor aos vizinhos, sobretudo os europeus de leste. Chega a ser patético de tão despudorado.
A canção que ganhou este ano, e que tanta celeuma está a levantar, não sei se voluntária ou involuntariamente não podia representar melhor aquilo que hoje em dia domina o país – mau gosto, mediocridade, alarvidade, mas também um grande desejo de contestar.
A canção apenas é tão má como todas as outras, mas o voto do público foi político.
Espanta-me, porém, que alguns intelectuais estejam tão incomodados e possam até dizer, como ouvi Miguel Sousa Tavares na SIC, que não se percebe como se vai cantar esta canção para uma plateia de alemães de cujo dinheiro precisamos. É verdade que precisamos, mas também é bom ir sempre recordando que a Alemanha já precisou muito do dinheiro dos outros pelo menos em duas ocasiões – para se levantar dos escombros da 2ª Guerra Mundial e para fazer a sua reunificação.
Ora, se já custa um bocado ver Sócrates ir ao beija-mão da Merkel, que não representa a Europa mas manda na Europa, a mim custa-me ainda mais ver e ouvir alguns intelectuais, que se gabam de ser espíritos livres e democráticos, achando que nos temos de autocensurar diante dos alemães. Isso sim, é coisa que até dá pele de galinha.
No fundo, no fundo, toda a gente acha que a contestação a sério pode estar aí a chegar e há muitos que, só de pensar nisso, tremem de medo.
No fundo, no fundo, toda a gente acha que a contestação a sério pode estar aí a chegar e há muitos que, só de pensar nisso, tremem de medo.
Estão bem na vida, acham que o país está mal, não gostam de pagar tantos impostos mas gostam ainda menos da perspectiva de o “povo sair à rua num dia assim”.
Estou convencida que nada de sério ou grave vai acontecer mas, que eles estão com medo, lá isso estão. E, se a subserviência é sempre uma coisa muito triste de se ver, vinda de quem se "vende" como livre e independente é, não só triste, como confrangedora.
quarta-feira, março 09, 2011
O discurso do Sr. Presidente
O Presidente disse que está na hora de termos um sobressalto cívico e eu fiquei logo sobressaltada com isso, apesar de o sobressalto já ser o meu estado natural cada vez que começa o telejornal. Deve passar a estado permanente, Sr. Presidente?
Porque é que o senhor não se sobressaltou nos últimos 5 anos?
Como é que nos sobressaltamos? Votamos PSD? Vamos todos para a rua? Vamos ser homens da luta? A luta é alegria ou o sobressalto é para ser à pancada?
Disse tudo o que nós “cá fora” dizemos há muito tempo mas, porque é que me parece que, usando as mesmas palavras, não estamos a falar das mesmas coisas?
Estou confusa!
Foi ontem, mas é sempre tempo
Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e agora à frente da primeira Comissão da ONU para as Mulheres, saúda o centenário do Dia Internacional da Mulher
terça-feira, março 08, 2011
Presidente Cavaco Silva
Não gosto dele. Nunca gostei. Nem como ministro das Finanças, nem como Primeiro-Ministro, nem como Presidente da República.
Sempre achei que ele representa a nossa parte mais provinciana, calculista e retrógrada.
Os seus tabus dão-me arrepios na espinha, a sua prudência com as palavras soa-me a falta de alma e ideias, o seu ar paternal faz-me virar adolescente desbocada.
Quando o vi levar um ralhete sem resposta do execrável presidente checo, tive vergonha.
Quando o vi de braço dado com Jardim, que lhe chamava sr. Silva, senti repulsa.
Ele está “entre nós” há mais de 20 anos, sempre a querer dizer-nos que não é político e que até está acima dessas “porcarias” que dão pelo nome de Política.
Também foi ele o pai do “monstro” que, anos mais tarde, veio denunciar, qual virgem ofendida.
Tem dito, repetidas vezes, que a despesa do Estado tem que baixar e que gastamos acima das nossas possibilidades. Seria de esperar que, com tais preocupações e com hábitos de pobre professor casado com pobre professora de mísera reforma, tomasse muito cuidadinho com os gastos da sua Presidência.
Ao que parece, será poupado lá em casa mas, com o dinheiro do Estado faz como todos os outros – é fartar, vilanagem.
Segundo o DN tem 500 pessoas a trabalhar para si e “para o primeiro ano deste segundo mandato de Cavaco Silva estão disponíveis 16 milhões de euros. Em 1976, havia apenas 99 mil euros para gastar. Mesmo sem contar com a inflação, em democracia, as despesas de Belém têm subido 18% por ano.”
As despesas crescem 18% ao ano, mesmo quando os ordenados dos funcionários públicos descem e, a bem ou a mal, (quase) todos os portugueses apertam o cinto.
Não sou miserabilista e gosto que o Estado democrático seja dignamente representado, com tudo o que for necessário para que tal aconteça mas, 500 pessoas? 16 milhões neste ano da desgraça? Mais um PURO, digo eu.
Contudo, quer eu goste, quer não goste, ele vai ser o meu presidente durante os próximos 5 anos.
segunda-feira, março 07, 2011
Comentadores
Já hoje aqui escrevi sobre as confusões de Mário Soares. Acontece que, no telejornal da SIC, Miguel Sousa Tavares comentou o mesmo assunto nos mesmos termos. Voltei a achar que eu é que estava enganada, voltei a ler tudo e voltei ao princípio. Os nossos comentadores estão preguiçosos e não lêem os documentos, ou tentam a desinformação?
Vou pela primeira hipótese. Hoje, Miguel Sousa Tavares até falou na necessidade de o Conselho de Segurança da ONU convencer A UNIÃO SOVIÉTICA a não vetar qualquer coisa. Uma pessoa pasma! Mas isso não deixou de existir há mais de 20 anos?
Ficamos com a ideia que, também eles, só pensam em ganhar uns trocos e despachar o serviço.
Vou pela primeira hipótese. Hoje, Miguel Sousa Tavares até falou na necessidade de o Conselho de Segurança da ONU convencer A UNIÃO SOVIÉTICA a não vetar qualquer coisa. Uma pessoa pasma! Mas isso não deixou de existir há mais de 20 anos?
Ficamos com a ideia que, também eles, só pensam em ganhar uns trocos e despachar o serviço.
O 12 de Março inquieta muito, não é?
Eu, confesso, tenho medo dele. Quero dizer, VPV é tão pessimista, mas tão pessimista que eu, depois de o ler, penso que gostava de ser urso para hibernar.
Assim, começo por olhar de través para o título da crónica; se acho que me posso aventurar, fecho um olho e começo a ler só com o outro. Por vezes desisto, ou melhor, fujo, outras vezes acho que posso abrir o olho fechado e ler com mais comodidade. Foi o que aconteceu com a crónica de 6ª feira, dia 4 de Março.
Discordando profundamente, e com boa argumentação, da opinião de Mário Soares, de quem se confessa admirador, sobre a manifestação de jovens no dia 12 de Março, acabou por suscitar a minha curiosidade para ler o artigo de Mário Soares no DN. A certa altura escreve:
“E agora pude, finalmente, ler um blogue que circula inspirado na canção - ou melhor, aproveitando-a - para convocar para o próximo dia 12 de Março uma manifestação de protesto, que querem tenha um milhão de participantes - imagine-se! - contra a política, os políticos, os partidos, sem excepção, o Parlamento, o Governo, a justiça, a economia, as finanças, etc.. Sem indicar qualquer alternativa relativamente ao que querem. Que objectivo move os autores deste blogue? E haverá outros? Querem alguma coisa mais do que o caos? Não se trata de anarquistas. Nem, muito menos ainda, de marxistas, nem sequer de islâmicos radicais. Serão movidos tão-só pelo desespero? Tratando-se de desempregados e de precários, pode-se talvez compreender. Mas não, seguramente, apoiar. Porque são perigosos, antidemocratas, niilistas. Parece que esperam que alguém lhes indique um caminho. Mas qual e quem? A isso respondo: não, muito obrigado! Já tivemos disso 48 longos anos e não queremos mais...
Pensei que eu é que não estava a ver bem o assunto e fui procurar o Protesto da "Geração à Rasca”. Encontrei, para além do Manifesto, isto:
“Reafirmamos a total independência do protesto face a qualquer estrutura ou movimento de cariz partidário, político ou ideológico.
Este é um protesto: Apartidário, aberto a todos os partidos e a quem não tem preferência partidária; Laico, aberto a todas as religiões e a quem não tem religião; e Pacífico!
Nunca foi enviada qualquer lista de reivindicações. O manifesto é o único documento associado ao protesto.
Não protestamos pela demissão de nenhum político ou governo.
Queremos reforçar a democracia participativa e nunca o seu contrário!
É uma fatalidade – envelhecemos e há coisas nas gerações mais novas que não percebemos mesmo, porque têm outra experiência de vida, outros códigos. Aceitar isso é sinal de lucidez, continuar a opinar sem ter percebido patavina e com a formatação mental de quem nasceu no princípio do século passado ainda activada, é senilidade.
O Dr. Mário Soares, na sua ligeireza, trocou tudo, deixou-se enganar por uma coisa parasita que anda aí na internet a pedir um milhão na avenida, e que se limita a ser contra tudo e todos, confundindo-a com os propósitos da concentração de dia 12 de Março.
Acho que alguém devia ajudar o Dr. Mário Soares a acabar o seu “reinado” com dignidade, nem que fosse fazendo uma boa revisão do que ele escreve.
domingo, março 06, 2011
Ele avisou...
Ora aí está ele, opinando na TVI e quase, quase a anunciar a criação de um novo partido.
Finalmente, uma boa notícia!
Vai ser sempre Carnaval, e a direita divide-se, nem que seja um bocadinho só.
Valha-nos Sant'Ana.
sábado, março 05, 2011
Só para olhar
Escultura de Isa Genzken (Alemanha)
Rose, 1997. Aço inoxidável, verniz, altura 8 m.Instalação permanente no recinto da feira industrial de Leipzig.
Retirado de: Arte Actual, TASCHEN
sexta-feira, março 04, 2011
A velha história do mexilhão
No dia 16 de Janeiro escrevi aqui que, aos poucos e como se não fosse nada muito importante, íamos ouvindo falar do aumento do preço dos alimentos. Terminava com uma nota optimista dizendo “A verdadeira boa notícia disto tudo é que o preço dos alimentos sobe, sobretudo, porque há mais gente no mundo que COME TODOS OS DIAS.”
Era verdade, mas não era a única razão. As secas, fogos, inundações (alterações climáticas, talvez) verificadas em vários países que são grandes produtores sobretudo de cereais, eram também causas importante. Mais procura, menor oferta, e as leis do mercado em funcionamento.
Foi esta escalada de preços que esteve na origem, e deu forte impulso, às grandes manifestações na Tunísia e no Egipto, manifestações que acabaram a derrubar regimes e a contaminar outros países árabes, como a Líbia, grande produtor de petróleo. Assim, com a incerteza, o petróleo aumenta de preço e os alimentos aumentam ainda mais, por causa do petróleo. Estamos, portanto, em roda livre. Tudo tem que ver com tudo.
A minha nota optimista de Janeiro continua a justificar-se, mas apenas em parte. É que, segundo li aqui " O Banco Mundial alertou hoje que a escalada nos preços dos produtos alimentares atiraram mais 44 milhões de pessoas para uma situação de “pobreza extrema”.
É a velha história – são sempre os mais pobres dos pobres que pagam os efeitos das intempéries, da especulação e da ganância, ou, usando a provérbio imortalizado pelo nosso querido José Cardoso Pires em Dinossauro Excelentíssimo, confirma-se que “quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão” - “esse marisco mais que todos humilde, só tripa e casca”
Nota: a minha edição de Dinossauro Excelentíssimo é de 1973, editora Arcádia, e custou 120$00 . Levei tempo a poupar para o comprar mas, na altura, não tinha importância, porque os livros mantinham-se nos escaparates das livrarias bem mais do que 3 ou 4 semanas como hoje acontece.
quinta-feira, março 03, 2011
Os puros
No verão de 2009, Manuela Ferreira Leite perdeu as maneiras de senhora de 70 anos, bem-educada e social-democrata, e, com elas, a elegância da linguagem na política. Adoptou o vernáculo e disse repetidas vezes – “o governo mente, José Sócrates mente”, desfazendo-se definitivamente do tradicional “não fala verdade”.
Desde então, esta glosa parece ter virado hino nacional em época de um qualquer campeonato, e toda a gente grita “ o governo mente, o governo mentiu”.
Pensaríamos que quem faz parte do coro não devia ter telhados de vidro mas, como sabemos, e isso sabemos mesmo, tudo nesta vida é incerto.
O nosso mais querido e dinâmico comerciante, Alexandre Soares dos Santos, dono do Pingo Doce, veio há dias, qual solista do coro, dizer com voz grossa que “o governo mentiu aos portugueses sobre a real situação do país”.
Já sabíamos. Só não sabíamos que também ele, mas com subtileza, mente aos portugueses através da televisão.
A sua empresa gastou em publicidade durante o ano de 2010, €98,6 milhões para nos dizer que os preços lá são sempre baixos e que, apesar de o IVA subir 2 pontos, estes não seriam repercutidos nos preços pagos pelo consumidor.
Incautos, pensámos que o gesto do empresário merecia aplauso e que seria ele a suportar os novos custos.
Veio agora a saber-se que, de facto, o consumidor não paga o aumento do IVA no Pingo Doce, mas Alexandre Soares dos Santos também não.
Quem paga? Os fornecedores, muitos deles pequenos produtores.
Simultaneamente, também ficámos a saber que a empresa de Alexandre Soares dos Santos foi uma das que distribuiu dividendos antecipadamente para fugir às novas regras de tributação de 2011, ao contrário de muitas outras que não dão nas vistas porque os seus proprietários não se transformaram em pop-stars do mercado à portuguesa, sempre com um microfone e uma câmara apontados e prontinhos para que debitem o que lhes aprouver.
São assim os puros do sistema que falam muito em ética e abominam mentirosos.
quarta-feira, março 02, 2011
Hollywood e as suas idiossincrasias
Se Colin Firth merecia o Óscar de melhor actor não posso avaliar, porque não vi os outros. Gostei daquele rei que ele compôs - bem-apessoado, contido, angustiado e gago. Justo será dizer que talvez a sua interpretação não tivesse o mesmo brilho se não tivesse a excelente réplica de Geoffrey Rush.
“O Discurso do Rei” ganhou e eu fiquei a pensar na enorme e comovente ternura que Hollywood demonstra por todas as deficiências. Assim de repente lembro-me de:
"Rain Man", 1988 (melhor filme)
Dustin Hoffman (melhor actor, no papel dum autista)
"Filhos de Um Deus Menor", 1987 (melhor filme)
Marlee Matlin (melhor actriz, no papel de surda)
"Forrest Gump", 1995 (melhor filme)
Tom Hanks (melhor actor, no papel de retardado mental)
"Uma Mente Brilhante", 2002 (melhor filme)
Russell Crowe (não ganhou, no papel de esquizofrénico, se calhar porque tinha ganho no ano anterior com “Gladiador”)
Este ano aí está:
“O Discurso do Rei” (melhor filme)
Colin Firth (melhor actor, no papel de gago).
Para além desta imensa e pungente tendência para acarinhar a deficiência, parece que, em Hollywood, se um actor ou actriz conseguir compor bem o “boneco” dum surdo, retardado, autista, esquizofrénico ou gago, tem o Óscar, garantidamente, na palminha da mão.
terça-feira, março 01, 2011
Expresso light?
É normal que cada novo director tenha o direito de escolher, além da sua equipa, também os seus cronistas. Uns saem e outros entram.
Inês Pedrosa foi uma das que saiu da revista Única. Não sendo uma fã incondicional das suas opiniões ou dos seus romances, foi um prazer vê-la crescer como cronista, semana após semana. Foi substituída não por um, mas por dois novos cronistas – Nuno Markl e Guta Moura Guedes.
Poder-se-ia pensar que o leitor ganharia com este inusitado “sai um, entram dois”, mas, pela amostra da primeira semana, não estou confiante; aquilo é muito, muito light e ambos escreveram crónicas fraquinhas, tão fraquinhas que até dói.
Inês Pedrosa, como todos os cronistas, tem temas de eleição, entre eles a situação das mulheres e a violência doméstica.
Ora, estes temas, como já aqui escrevi, não são modernaços nem sexy, e palpita-me que o jovem (?) Ricardo Costa não os deve apreciar.
Eu, ao contrário, gosto que eles não sejam esquecidos, e sempre digo que sou feminista.
Contudo, o meu feminismo apenas se alicerça no desejo dum mundo com direitos e deveres iguais para ambos os géneros, e nunca no domínio de um pelo outro.
Vem isto a propósito do que diz Maria Filomena Mónica, senhora com uma costela estrangeirada e outra medina-carreirada, para quem nada está bem, o país é uma “bosta”, e que também passará a ter uma crónica (julgo que mensal) no Expresso.
Ela é uma das várias pessoas a quem é pedido, na revista Única desta semana, que antecipe o ano de 2049.
Depois de tecer várias considerações sobre o cromossoma Y termina dizendo (e transcrevo):
Em 2049 os homens ainda se passearão pela superfície da terra, mas já bastante debilitados. O mundo do século XXI, e por aí fora, pertence ao cromossoma X, ou seja, às mulheres, ironiza. E termina com uma frase-bomba. “ O cromossoma Y não tem mais do que o que merece.”.
Se eu dissesse à MFM que sou feminista, ela fugiria de mim como da peste.
Contudo, esta senhora, que não é feminista, odeia os homens e eu, que o sou, adoro-os.
Pai, marido, filhos, irmão, amigos homens, ADORO-VOS e peço-vos encarecidamente que não deixem definhar o cromossoma Y, apesar das suas sabidas fragilidades.
Nem quero imaginar o que seria um mundo repleto de Marias, Filomenas ou Mónicas!
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